‘De Palma’, o doc: ode a um mestre

‘De Palma’, o doc: ode a um mestre

Rodrigo Fonseca

13 de junho de 2016 | 10h17

De Palma com Sissy Spacek no set de

Brian De Palma com Sissy Spacek no set de “Carrie, a Estranha”: vivo há 40 anos 

No último Festival de Cannes, ao apresentar The Neon Demon, um terror coalhado de alusões a Vestida para Matar (1980), o dinamarquês Nicolas Winding Refn teve que responder sobre a influência de Brian Russell De Palma em sua obra. Cravou apenas: “Mas quem é que não gosta de Brian? Ele é o máximo”. Talvez Refn não saiba que a mente brilhante por trás de Carrie, a Estranha (1976) – um filme agora com 40 anos e ainda surpreendente – saiu do Palais des Festivals, na Croisette, no meio da projeção de Só Deus Perdoa (Only God Forgives, longa-metragem feito por Nicolas pós Drive), com uma expressão indisfarçável de enfado frente a litros de sangue espirrados das fuças de Ryan Gosling. Mas não importa… O documentário De Palma, lançado este fim de semana nos EUA, deixa essa fofoca de lado. E o faz com sabedoria, pois investe noutras muito mais saborosas, além de passar em revista a importância história de Brian para a maturidade narrativa do cinema americano do fim dos 1960 até hoje, quando ele tenta, a duras penas, filmar Lights Out, sobre uma chinesinha cega que se envolve com uma trama de assassinato. É “o” doc feito em solo estadunidense em 2016 até aqui, com direção de Jake Paltrow e de Noah Baumbach (cabeça e coração por trás do filme-quindim Frances Ha), e ainda sem data para estrear aqui. Mas teve um mar de boas resenhas – merecidíssimas – no finde ao entrar em circuito lá fora.

Dele ficam um lago de dúvidas sobre autorialidade e um oceano de respostas acerca do autor em questão: o mestre De Palma, autodefinido como herdeiro de Hitchcock. Ficam ainda fragmentos de longas-metragens seminais – são dele  Irmãs Diabólicas (1973), Trágica Obsessão (1976), Um Tiro na Noite (1981) – partes de um organismo vivo que nos deu figuras como Carlito Brigante, o chefão arrependido (ou quase) de Pagamento Final (1993), capaz de transformar uma escada rolante num campo de guerra. Junte aí ainda o espectro psicopata de O Fantasma do Paraíso (1974), com Paul Williams como um Mefistófoles pop. Tudo isso se torna redivivo no doc de Baumbach e Paltrow, que foi definiddo por uma suculenta crítica do The New York Times como sendo “um registro afetivo que nos absorve”, no qual, nas palavras do (genial) resenhistas A. O. Scott, “some Hollywood dirt is dished, and a few personal matters are touched upon, but the focus remains on the details of moviemaking as an art and a business”.

No set com Al Pacino em

No set com Al Pacino em “Scarface”

Há muita roupa suja a ser lavada acerca deste ex-estudante de Física, nascido em 11 de setembro de 1940, em Newark, Nova Jersey, filho de um cirurgião. Aliás, polemiza-se sobre sua fama de durão desde que ele estreou como realizador em 1960, ao rodar o curta-metragem Icarus. De Palma rodou 36 filmes nas últimas cinco décadas. Dirigiu sete curtas entre 1960 e 1966, além de um videoclipe para Bruce Springsteen, desenvolvido a partir da canção Dancing in the Dark. Na seara dos longas-metragens, contabiliza 29 produções, rodadas entre 1968, quando debutou no formato com Murder à La Mod, sendo Scarface (1983) a que alcançou maior mítica popular, sendo citada sobretudo entre as comunidades hispânicas que imigraram para os Estados Unidos e que encontram no Tony Montana, encarnado por Al Pacino, um modelo impuro de resistência. O sintagma do Mal ali presente alimenta ainda mais a fama de maldito que ronda De Palma, que, no doc, mostra-se surpreso até hoje com o culto que cerca este trabalho com Pacino.

Corre na franjas de Hollywood a tese de que De Palma é uma persona non grata na indústria pela arrogância com que comandava os sets no passado, exemplificada por seus (alardeados) confrontos – ferozes – com Tom Cruise, nas filmagens de Missão: Impossível (1996), e com Kevin Costner, enquanto rodava Os Intocáveis. Provas irrefutáveis não existem, mas nenhum dos dois fala com ele. E muito ator e produtor torce o nariz quando escuta o sobrenome De Palma. Não por acaso, seu último longa, Passion, de 2012, penou para ter carreira nos EUA e, até hoje, não chegou ao circuito brasileiro com dignidade, mesmo tendo sido indicado ao Leão de Ouro em Veneza. Há quem aponte ainda um certo autismo no jeitão dele de ser: se o papo não for cinema, De Palma se desliga das conversas, nem olha no seu olho. Mas ele tem entusiastas. E alguns beeeeem poderosos.

“Passion”: inédito aqui por quê?

“Existem diretores como Monte Hellman, Peter Bogdanovich e, sobretudo, Brian a quem a indústria não soube entender, entre os grande nomes revelados no fim dos anos 1960, por eles possuírem uma artesania muito particular e revolucionária, mais próxima do que se filma na Europa do que nos EUA. Se você pega um filme seminal como Síndrome de Caim fica claro o grande realizador que está ali. E, talvez por isso, Brian esteja, nos últimos anos, indo para a França para filmar”, disse Steven Spielberg – ele mesmo! – em uma entrevista ao P de Pop, ao falar da estética do cinemanovismo americano, defendida entre 1967 e 1980.

Controverso por excelência, classificado como misógino e voyeurista, De Palma foi, durante décadas, classificado como um pastichador de Hitchcock. Quando lançou Missão Marte, em 2000, ele foi acusado de “roubar” planos de Kubrick, via 2001 – Uma Odisseia no Espaço (1968). Já o acusaram também de ter surrupiado planos de Akira Kurosawa (em Olhos de Serpente) e de Antonioni (em Um Tiro na Noite). Mas algo mudou depois que uma retrospectiva realizada em 2002 no Centre Pompidou recontextualizou sua filmografia, buscando uma identidade autoral própria para além de suas referências. Em 2007, quando ganhou o prêmio de melhor diretor em Veneza por Guerra Sem Cortes, usando elementos da linguagem digital retirados do YouTube, o cineasta declarou: “Hitchcock é o maior mestre da arte contar histórias a partir de imagens e, se eu uso alguma referência de sua gramática nos meus filmes, esses elementos só complexificam o que eu conto. Mas acho que hoje, após quase 50 anos como diretor, eu já tenho meus próprios métodos configurando um estilo”. É sobre estilo – ou melhor, sobre identidade e legitimidade – de que fala o doc De Palma. E fala com graça e vigor, podendo ajudar seu homenageado a, enfim, filmar de novo.

DE Palma doc De Palma 13

Enquanto De Palma inicia sua carreira em circuito, Baumbach prepara hoje aquele que promete ser seu filme para ganhar o Oscar que merece faz tempo: Yeh Din Ka Kissa, com Adam Sandler, Ben Stiller e Emma Thompson vivendo uma família às voltas com a retrospectiva de um pai artista. E este personagem, segundo boatos do mercado, ficou com Dustin Hoffman!!!!! E, se não bastasse, teremos Candice Bergen e Rebecca Miller no elenco.

E enquanto o doc não chega aqui, vale uma conferida no box valioso de DVDs que a Versátil lançou em 2015 chamado A Arte de Brian De Palma, com longas seminais do cineasta e extras capaz de esclarecer muito sobre sua maneira de filmar. Cada um de nós, cinéfilos, amamos De Palma tendo algum longa dele como nosso filme de cabeceira. Vai aqui um voto para Dublê de Corpo (1984).    

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