‘De canção em canção’ renova nossa fé em Terrence Malick

‘De canção em canção’ renova nossa fé em Terrence Malick

Rodrigo Fonseca

12 de junho de 2017 | 14h17

Rooney Mara encara Michael Fassbender e Ryan Gosling em “De Canção em Canção”: Malick é um diretor ainda transcendental

RODRIGO FONSECA
Parte do folclore em torno da postura reclusa, reticente a holofotes, de Terrence Frederick Malick caiu por terra este ano, quando ele apareceu na abertura do SXSW, festival americano em Austin, para promover seu novo longa-metragem: Song to Song, com Michael Fassbender. Batizado de como De Canção em Canção no Brasil, este filme estreia aqui dia 20 de julho, tendo ainda Rroney Mara e Natalie Portman em cena. Não faltam famosos ao redor do diretor, sempre cercado de sigilo. Ao longo de 48 anos de carreira, no qual finalizou dez filmes (há um 11º, Radegund, em produção), o ganhador da Palma de Ouro de 2011 (com A Árvore da Vida) foi visto raríssimas vezes em público, recusando ser fotografado ou entrevistado. Um dos únicos jornalistas que romperam seu claustro foi o francês Michel Ciment, que falou com ele no início dos anos 1970, logo após a estreia de Terra de Ninguém (1973), quando o então jovem cineasta falou de sua paixão por George Stevens e Elia Kazan. Falou ainda que era fiel a um credo: os filmes falam por si, sem a necessidade de que a vaidade de seus realizadores ultrapasse as dimensões da tela. Há ainda um segundo credo nessa cabeça fervilhante, que repetidamente usa a metáfora do Éden como signo da decadência humana: o transcendentalismo.

Sempre amparado no arrojo da fotografia do mexicano Emmanuel Lubezki, Malick professa na tela uma homilia espiritualista: a tese de que a natureza está acima da vontade dos homens. Em Malick, a Natureza é a onipotência em estado puro, só que esta é tratada a partir de contornos messiânicos, num reflexo de sua formação pelo transcendentalismo, expresso em ensaístas como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau. O ideal transcendental desses autores escorre por Malick, lido à luz e ao ethos do Romantismo, seja pela evasão (no tempo, no espaço ou na metafísica) seja pelo tratamento quase divino dado ao Amor.

Karl Markovics e August Diehl estrelam “Radegund”, uma das apostas para o próximo Festival de Veneza, com a grife metafísica do diretor de “Além da Linha Vermelha”

Analista da dicotomia entre inocência e hipocrisia, Malick sempre arquiteta tomadas belíssimas da natureza – como os campos de trigo de Cinzas no Paraíso, de 1978 -, reflexões existenciais – abundantes na Segunda Guerra de Além da Linha Vermelha, pelo qual ganhou o Urso de Ouro em 1999 – e licenças poéticas atípicas em Hollywood – como as da América do século XVII de Um Novo Mundo, de 2005. Outra marca: a cada filme que roda, uma multidão de astros do mais alto quilate se oferece a trabalhar para ele a cachês módicos. Sean Penn é seu maior entusiasta.

A esfinge em rara aparição (Photo by Buckner/Variety/REX/Shutterstock)

Na estreia de A Árvore da Vida, Penn chegou a dizer que não havia entendido bem o roteiro, mas que valia encará-lo para estar como um mestre daquele porte ao seu lado. Mesmo nos trabalhos em que foi recebido com frieza ou desdém, vide Amor Pleno (2012) e Knight of Cups (2015), Malick continuou atraindo estrelas e continuou sendo respeitado como um artesão da imagem. Até o mais ácido cronista do cinema americano, o jornalista Peter Biskind, autor de Easy Riders, Raging Bulls – Como a Geração Sexo-Drogas-Rock’n’Roll Salvou Hollywood, foi capaz de render elogios ao diretor em uma entrevista ao P de Pop. “Eram loucos aqueles anos setenta, mas não só por cocaína e derivados afins: a invenção narrativa era tudo. Depois de ter desafiado as convenções de roteiro dos EUA em dois marcos da década de 1970, Malick simplesmente desapareceu, para se dedicar a dar aulas de Filosofia, o que muitos interpretaram como uma recusa de se submeter aos vícios de Hollywood. Certo ou errado, Malick passou a ser visto como marco de integridade artística numa indústria que valoriza pouco o que é íntegro e esnoba o bem coletivo em prol da cultura do indivíduo”.

Durante anos a fio, o cineasta filmou com hiatos enormes. Mas, a descoberta das câmeras digitais alimentaram seu gosto por voltar aos sets ou de remexer em imagens de arquivo. Nos últimos seis anos, ele filmou seus longas. Até documentário ele fez: Voyage of Time: Life’s Journey. E tem o inédito Radegund – sobre a Segunda Guerra Mundial – para sair.

Indicado ao Oscar pela edição de Cidade de Deus (2002), o cineasta e editor paulista Daniel Rezende trabalhou com Malick em A Árvore da Vida e encontrou a definição precisa para o diretor: “Terry busca o acaso mais do que a certeza. A maneira de Terry fazer cinema está muito mais na busca pelo erro e pelo acidente”. Não há, portanto, nota que desafine nesta obra cerca de fé e de enigma. Dica para entendê-la melhor: o livraço da Faber & Faber Terrence Malick – Rehearsing the Unexpectedde Carlo Hintermann e Daniele Villa.

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