‘De Canção em Canção’: mais sobre Malick

‘De Canção em Canção’: mais sobre Malick

Rodrigo Fonseca

20 de julho de 2017 | 09h13

Lançado em março no festival SXSW, em Austin, “De Canção em Canção” é um flerte de Terrence Malick com a carnalidade

Rodrigo Fonseca
Está para estourar, até o fim da semana que vem, a lista de concorrentes ao Leão de Ouro no 74º Festival de Veneza (30 de agosto a 9 de setembro) e tudo indica que o novíssimo longa-metragem do americano Terrence Frederick Malick, o épico sobre a II Guerra Radegund, vá estar em concurso. Trata-se de uma coprodução entre os EUA e a Alemanha, na qual o ator August Diehl (Bastardos Inglórios) interpreta o fazendeiro austríaco Franz Jägerstätter, mártir das lutas de oposição ao nazismo, assassinado pelas tropas de Hitler em 1943 e, anos depois, beatificado pela Igreja Católica. Mitos germânicos como Bruno Ganz e Jürgen Prochnow integram o elenco do longa-metragem, já em fase de finalização. E estima-se que o diretor vá trabalhar de maneira mais efetiva em seu lançamento, o que já não soa mais tão inusitado para seu perfil de trabalho – outrora avesso a holofotes e entrevistas – depois do empenho que ele teve para promover o caudaloso De Canção em Canção que estreia nesta quinta no Brasil. E é uma estreia obrigatória. É um filme mais carnal do que o habitual do realizador de Além da Linha Vermelha (ganhador do Urso de Ouro em Berlim em 1999), que, em março, saiu da toca, pela primeira vez em quase quatro décadas, a fim de encarar uma plêiade de jornalistas e cinéfilos durante a abertura do Festival SXSW, em Austin no Texas (onde a trama se passa). Foi uma atitude que surpreendeu o cinema. Mas tudo o que vem de Malick é surpresa.

É difícil não sair perplexo das escolhas narrativas adotadas em De Canção em Canção. No trecho mais tocante desse experimento sensorial, dois amigos unidos pela música – Ryan Gosling e Michael Fassbender – saltam como símios, loucos, entre caras e bocas animalizadas, a brincar um com o outro, como crianças. Gosling é BV e Fassbender, Cook, no filme, que estreia no Brasil nesta quinta, a fim de promover uma hemodiálise visual em nossas retinas. Eles dialogam muita coisa um com o outro, às vezes no amor, às vezes no ódio. Mas não se preocupe com as falas, pois Malick vai cortá-las, ignorando solenemente o que eles falam em prol de um texto em off, que calça Song to Song (título original) como uma grande tapeçaria emotiva. Um tapete que serve de chão (e também de bússola) a uma das mais virulentas (e vivas) narrativas do septuagenário cineasta. Virulenta por ser telúrica, por ser menos espiritualizada do que a de seus longas mais recentes. Ela é carregada de órgãos, de impurezas. É um Malick mais gente e menos alma, sempre metafísico, porém menos messiânico, numa evolução de cunho antropocêntrico de si mesmo, apoiado em um elenco em timbres de esplendor.

“Cavaleiro de Copas”: inédito

Analista da dicotomia entre inocência e hipocrisia, Malick sempre arquiteta tomadas belíssimas da natureza – como os campos de trigo de Cinzas no Paraíso, de 1978 -, reflexões existenciais – abundantes na Segunda Guerra do já citado Além da Linha Vermelha – e licenças poéticas atípicas em Hollywood – como as da América do século XVII de Um Novo Mundo, de 2005. Outra marca: a cada filme que roda, uma multidão de astros do mais alto quilate se oferece a trabalhar para ele a cachês módicos. Sean Penn é seu maior entusiasta. Na estreia de A Árvore da Vida, ganhador da Palma de Ouro em Cannes em 2011, ele chegou a dizer que não havia entendido bem o roteiro, mas que valia encará-lo para estar como um mestre daquele porte ao seu lado. Mesmo nos trabalhos em que foi recebido com frieza ou desdém, vide Amor Pleno (2012) e Cavaleiro de Copas (2015), Malick continuou sendo respeitado como um artesão da imagem. Até o mais ácido cronista do cinema americano, o jornalista Peter Biskind, autor de Easy Riders, Raging Bulls – Como a Geração Sexo-Drogas-Rock’n’roll Salvou Hollywood, foi capaz de render elogios ao diretor em uma entrevista ao P de Pop. “Malick é um estandarte da integridade estética numa indústria que esnoba a autenticidade”.

Durante anos a fio, o cineasta filmou com hiatos enormes. Mas, a descoberta das câmeras digitais alimentou seu gosto por voltar aos sets ou de remexer em imagens de arquivo. Nos últimos seis anos, ele filmou seus longas. Até documentário ele fez: Voyage of Time: Life’s Journey, exibido no Festival de Veneza em 2016.

Indicado ao Oscar pela edição de Cidade de Deus (2002), o cineasta e editor paulista Daniel Rezende trabalhou com Malick em A Árvore da Vida e encontrou a definição precisa para o diretor: “Terry busca o acaso mais do que a certeza. A maneira de Terry fazer cinema está muito mais na busca pelo erro e pelo acidente”.

Há uma reflexão recente sobre o cineasta, que antecedeu a exibição do doído De Canção em Canção, publicada no livro Terrence Malick – Rehearsing the Unexpected (Ed. Faber & Faber), que aponta uma gradual mutação no olhar dele, a partir de O Cavaleiro de Copas (2015). Segundo eles, o “obsessivo interesse de Malick pela família e pelas relações de confiança vem afastando seu cinema do Mistério”. O “Mistério” se refere à dimensão cósmica quase teológica de seus filmes dos anos 2010, alimentada, pelo folclore em torno de sua postura reclusa. Postura que caiu por terra este ano, quando ele apareceu na abertura do SXSW, para promover seu novo (e belo) longa-metragem.

Nele, há uma história sobre lealdade (acima de tudo), desenhada a partir de uma ciranda de reflexões onde se fala menos da Natureza (fetiche maior do diretor) e mais do Homem (enquanto instituição), tendo a indústria da música como eixo de dois triângulos amorosos que vão estabelecendo uma relação especular e esfacelando a convivência harmoniosa entre seus membros. Além de Gosling e Fassbender, De Canção em Canção tem ainda Rooney Mara, Natalie Portman, Iggy Pop, Holly Hunter e Cate Blanchett em cena. Não faltam famosos ao redor do diretor, um filho estético do mítico cineasta George Stevens e dos filósofos do transcendentalismo.

Michael Fassbender é um empresário do ramo da música no Texas

Dos pensadores, herdou o amor pela Natureza, que está sob todas as coisas. Já com Stevens, ele aprendeu a desenhar planos contemplativos do ambiente à sua volta. Para Stevens, a câmera precisa passear, pois, só assim, ela pode revelar o quanto as forças naturais (tipo o petróleo a jorrar em Assim Caminha a Humanidade) é maior do que os seres humanos que a povoam. Dele, Malick herdou o instinto de fazer com que a câmera trafegue pelo Espaço alheia às demandas do tempo capitalista, devota ao Tempo mítico, a fim de flagrar nos mais simples gestos humanos a expressão dos impasses afetivos inauditos. É o que acontece em De Canção em Canção, no choque entre as formas de amar de seus personagens.