DCFandome: Michael Keaton no voo do Morcego

DCFandome: Michael Keaton no voo do Morcego

Rodrigo Fonseca

24 de agosto de 2020 | 12h02

Rodrigo Fonseca
Só se fala do Batman em todos os cantos da web desde a projeção do trailer do novo filme do herói, no sábado, na DC Fandome, “O” evento pop de 2020, quando a badalação em torno de “Flashpoint” (ou “The Flash”), do diretor argentino Andy Muschietti, fez eclodir a certeza de o eterno Homem-Morcego de Michael John Douglas Keaton vai regressar à telona. Nos planos da DC Comics e da Warner Bros. pro cinema, o velocista escarlate de Ezra Miller trombará com Batmen de realidades paralelas, sendo um deles a encarnação mais madura, vivida por Keaton, como este fez em 1989 e 1992, sob a direção de Tim Burton. A escalação só faz crescer a força do astro de 68 anos na indústria, sobretudo depois de ele ter sido reverenciado em Sundance, em janeiro, com “What Is Life Worth”. Ele ainda será visto em “The Trial of the Chicago 7”, de Aaron Sorkin. E sua carreira na Marvel, como o Abutre, segue, a se julgar por sua participação em “Morbius”, com Jared Leto. Tudo isso é fruto do show que ele deu, há seis anos, em “Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância)”, de Alejandro González Iñárritu, laureado com o Oscar de melhor filme em 2015.

Filmes que conseguem reinventar (ou reciclar) a carreira de atores outrora famosos, mas chapados em rótulos, costumam se candidatar, de cara, ao brilho eterno do amor cinéfilo por seu fator surpresa e por seu espírito redentor. Assim sendo, “Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)” teria seu quinhão de aplauso só por soltar o bicho que, há tempos, andava preso na alma de Keaton, pelo menos desde “Jackie Brown”, lá atrás, em 1998. Porém, existe mais do que um ator em estado de graça na produção de US$ 18 milhões filmada pelo mexicano Iñárritu em Manhattan, NY, fingindo ser um plano-sequência de 119 minutos de dramédia moral. Em um gesto de descarrego das tragédias que fizeram sua fama de “Amores Brutos” (2000) a “Biutiful” (2010), o cineasta cria uma aeróbica de planos sem corte, alinhados por uma batida de pratos de bateria, numa maratona sinestésica, a fim de expressar a ressaca na qual a indústria audiovisual dos EUA se encontra. Repetições de fórmula, confinamento de astros a personalidades icônicos, uma política de continuações e de remakes – tudo isso chocou o chicano que surfou na Nueva Onda latino-americana dos anos 2000, a mesma que revelou “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles; os argentinos “El Bonaerense” e “Nueve Reinas” e paulistíssimo “O Invasor”, de Beto Brant.

Diante de uma Babel distinta da sua “Babel” (com que ganhou o prêmio de melhor diretor em Cannes em 2006), o cineasta egresso da Cidade do México achou Hollywood uma festa estranha com gente esquisita. E desta impressão tirou o clima desta comédia sobre um ator que, no passado, fez fortuna e fama sob a fantasia do Homem-Pássaro, e, no presente, amarga a indiferença dos colegas. Num empenho para reaver o respeito que perdeu (a começar pelo respeito consigo mesmo), Riggan Thomson (Keaton, numa atuação devastadora) tenta fazer uma peça na Broadway, tendo o pão de ló das artes cênicas (mas, ao mesmo tempo, enxaqueca dos palcos) como seu parceiro de ribalta: Mike (Edward Norton). Mas, com alma fraturada pela perda de prestígio e da autoconfiança, e com o bolso a vazar dólares por conta de uma montagem atribulada, Riggan vira uma espécie de Ubu Rei na patafísica que a Cultura das Celebridades se tornou: o darling de ontem é o looser de hoje. Bastava uma sequência para que o longa – laureado com Oscars de melhor filme, direção, roteiro original e fotografia – durasse para sempre em nós: o trecho no qual Keaton desfila só de cuecas pela Broadway, remoendo a impotência de ser uma estrela em ocaso. A fotografia de Emmanuel Lubezki enquadra a “Rua Larga” como uma Sodoma e Gomorra do entretenimento.
Mas Iñarritu vai além e nos dá uma cena capaz de por abaixo a veleidade de uma das espécies mais ferozes da cadeia alimentar das artes: a crítica. O embate entre Riggan e a crítica de teatro nº1 de NY (Lindsay Duncan) revela a hipocrisia de uma classe que, por vezes, dá sinais de miopia, opacizada pela catarata da onipotência. Viva México! Viva Keaton!

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: