Das lentes à semiologia, Walter Carvalho investiga o que torna o cinema ‘necessário’

Das lentes à semiologia, Walter Carvalho investiga o que torna o cinema ‘necessário’

Rodrigo Fonseca

09 Outubro 2015 | 17h15

O cineasta húngaro Béla Tarr é um dos entrevistados do doc

O cineasta húngaro Béla Tarr é um dos entrevistados do doc “Um filme de cinema”: reflexão sobre o plano

Com depoimentos de realizadores icônicos por sua transgressão às cartilhas narrativas da indústria do audiovisual, como o húngaro Bela Tarr, o americano Gus Van Sant e o brasileiro Julio Bressane, Um Filme de Cinema, o mais recente documentário de Walter Carvalho será projetado nesta sexta-feira, fora de concurso, no Festival do Rio.   O longa assume como tema o plano: a menor partícula estética de uma obra fílmica. O objetivo do diretor e fotógrafo paraibano é compreender como este elemento essencial à linguagem cinematográfica foi sendo barateado pelo mercado, buscando ouvir cineastas que ainda preservem sua pureza. A gestação deste longa coincidiu com um período intensivo de trabalho em que ele fotografou projetos de Selton Mello (O Filme da Minha Vida), José Luiz Villamarim (Redemoinho) e Murilo Benício (Beijo no Asfalto) e concluiu as filmagens de Manter a Linha da Cordilheira Sem o Desmaio da Planície, no qual aborda o processo de fazer literário do poeta Armando Freitas Filho. Na entrevista a seguir, Carvalho, que preside o júri da Première Brasil 2015.  explica a lógica que vem norteando sua investigação nas telas.

 

Por que fazer do plano o protagonista de um longa-metragem?

WALTER CARVALHO: O plano está para o cinema como a palavra está para a poesia; a como o espaço está para a arquitetura; como o volume está para a escultura; como a nota está para a partitura musical. É a unidade mínima. Preciso falar sobre ele porque hoje, neste tempo no qual as tecnologias digitais facilitaram tanto o trabalho e as condições de filmagens, as pessoas constroem planos sem pensar sobre eles. Falta uma reflexão sobre o porquê de um plano. Veja o caso dos poetas. Um poeta precisa pensar e sentir muito antes de entender porque uma palavra conquista um lugar em um poema. Por que no cinema não pode haver a mesma reflexão. Fui procurar essa resposta com o Bressane, com o Ruy Guerra, com o Bela Tarr.

 

De onde partiu o projeto Um Filme de Cinema, que competiu no É Tudo Verdade, no início do ano, e abriu o Festival de Brasília, há cerca de um mês?

CARVALHO: Nos anos 1970, eu escrevi um curta-metragem chamado Revelação Normal, que mostrava a inversão dos processos do cinema. Por exemplo, eu mostrava um tripé e nele vinha um ator onde deveria estar uma câmera. Ele foi o embrião de Um Filme de Cinema, no qual eu tento refletir sobre o fato de fazermos planos extraordinários no set que desaparecem na montagem. Resolvi perguntar isso a pessoas a quem eu admiro e levantar, a partir delas e com elas, uma discussão sobre o tempo e sobre a plasticidade da imagem.

O cineasta Walter Carvalho em ação

O diretor Walter Carvalho em ação

Existe lugar para a transgressão no cinema que é feito hoje no Brasil?

CARVALHO: O cinema foi se transformando em algo muito conservador, com medo de errar e entrou num ritmo de linguagem pop, que carece de autorreflexão. No Brasil, de modo geral, as artes perderam seu espaço simbólico de invenção. Houve um estrangulamento da transgressão. Há hoje exceções no cinema, com diretores que pensam a própria condição da arte cinematográfica, como Karim Aïnouz, Kleber Mendonça Filho, Cão Guimarães, Beto Brant. De certa forma, eu passei os últimos anos me dedicando a fazer documentários, deixando minha porção ficcionista de lado, para poder pensar o cinema para além dos filmes.

Foi com seu irmão, o documentarista Vladimir Carvalho, que você teve suas primeiras lições sobre arte e sobre vida. O quanto ele influenciou sua visão e sua inquietação sobre o plano?

CARVALHO: Minhas descobertas sobre cinema começaram em 1958, quando era menino, e via o Vladimir debruçado na janela da nossa casa conversando com João Ramiro Mello e Linduarte Noronha sobre o que viria a ser o roteiro de Aruanda, um filme básico para o cinema moderno no Brasil. Mais tarde, ao me levar com ele para rodar O País de São Saruê, Vladimir me mostrou a importância de entender a câmera como o espectador ideal: aquele que observa tudo e registra seu melhor. Sinto que a minha noção de ética e de estética veio dele, que me ensinou o lado lúdico do set. Com ele, eu aprendi que um set é mais bonito do qualquer filme. É um espetáculo vivo. E o que eu espero do cinema é isso: vida.

p.s.: Um Filme de Cinema terá uma última sessão no dia 13, às 14h, no Ponto Cine.

p.s.2: Até agora, num balanço geral, o melhor da Première Brasil foram:

a) Os longas de ficção Boi Neon e Nise – O Coração da Loucura; a atuação de Ariclenes Barroso em Aspirantes; a atuação de Clara Gallo em Califórnia;

b) O arranjo narrativo glauberiano de Cordilheiras no Mar: A Fúria do Fogo Bárbaro, de Geneton Moraes Neto, e a estética tchekoviana de Olmo e a Gaivota, de Petra Costa, entre os documentários, em cuja seara se destaca também a direção de Maria Augusta Ramos em Futuro Junho;

c) A comédia em metalinguagem de Som Guia, um curta-metragem antológico, com direção de Felipe Rocha.