Das Filipinas para o cinema de invenção, Lav Diaz vira o super-herói da Berlinale

Das Filipinas para o cinema de invenção, Lav Diaz vira o super-herói da Berlinale

Rodrigo Fonseca

18 de fevereiro de 2016 | 18h14

Exigir oito horas de atenção não dilui a beleza de

Exigir oito horas de atenção não dilui a beleza de “A Lullaby to the Sorrowful Mystery”, de Lav Diaz

Colocar cerca de 2 mil espectadores em um estado de imersão na metafísica por oito horas e dois minutos de uma narrativa em preto e branco, de muitos (e longos) planos fixos, e ainda por cima ser festejado com unanimidade quando essa experiência chega ao fim, sem ter arrancado um bocejinho sequer, é uma tarefa para poucos realizadores e Lav Diaz é um deles, aliás, um dos melhores deles, a julgar pela recepção que seu A Lullaby to the Sorrowful Mystery teve na Berlinale, nesta quinta-feira. Aplaudido com ardor, o filme de 482 minutos é centrado em uma viagem pelas margens da fantasia e do neorrealismo, a partir de uma reflexão sobre o processo de emancipação política das Filipinas, após o jugo espanhol em sua colonização. A sessão foi um entra aqui, sai ali sem parar. Poucos ficaram a extensão inteira do longa-metragem, seja por algum compromisso com reuniões com distribuidores ou com entrevistas, seja por cansaço. Mas quase todo mundo que saiu voltou. E voltou não por culpa de não ter o dever cumprido, frente a uma produção em concurso pelo Urso de Ouro, mas sim por prazer. É saboroso o arranjo estético do cineasta, que terá um longa anterior, Do Que Vem Antes (premiado no Festival de Locarno em 2014), lançado no Brasil em duas semanas.

“Não pense em duração quando vir um filme, pois o cinema não precisa ficar numa metragem estabelecida previamente pelo mercado. Filme é palavra, é ação, é reação, é indignação, é todo o gesto: como é a poesia, a música, a vida… Cinema precisa de liberdade, pois cinema existe para gerar mudança”, disse Lav durante a coletiva de A Lullaby… em Berlim, de onde dificilmente sairá sem prêmios, incluindo o Troféu Alfred Bauer, dado a produções de maior investigação de linguagem, ao qual ele é o favorito. “Eu filmo porque o cinema me dá fé no mundo”.

Antes de Diaz entrar na sala de conferências, com seus atores do lado, esperava-se que ele fosse um bibelô da ala mais “inteligentinha” do universo artístico, com a arrogância de quem confunde sofisticação com exclusão. Não foi o caso. Doce, generoso e ciente da responsabilidade social do cinema, o realizador virou uma estrela na Berlinale por suas análises críticas sobre as falências sociais de seu país e sobre a dimensão dos afetos no cinema, declarando sua paixão por diretores cultuados como Béla Tarr e Andrei Tarkovsky e seu respeito pelo expressionismo alemão.

“Tarkovsky e Béla são meus heróis porque fazem um cinema que vislumbra o Tempo. Não existe cinema lento: existe cinema, ponto. A lentidão é da vida. Eu desenhei este filme num diálogo com eles e também com os neorrealistas, como Rossellini, por exemplo, para falar de uma identidade, de uma sensação de mundo”, diz o diretor de 57 anos, que encontrou uma tonalidade de preto e branco marcada por granulação, o que dá textura a sua narrativa, centrada na busca pelo corpo do libertador de seu país. “Eu usei elementos do expressionismo e também das histórias em quadrinhos feitas nas Filipinas para encontrar um tom preciso para rever a História”.

Seu filme exige fôlego. Mas compensa o esforço.

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