Daniel San agora limpa o assoalho de Johnny: ‘Cobra Kai’ bomba na web

Daniel San agora limpa o assoalho de Johnny: ‘Cobra Kai’ bomba na web

Rodrigo Fonseca

30 de abril de 2019 | 11h33

William Zabka estrela a segunda temporada da série “Cobra Kai”, do YouTube Red

Rodrigo Fonseca
Fala-se muito de ação no Festival de Tribeca, por conta da calorosa recepção a dois filmes, o policial “Crown Vic”, produzido por Alec Baldwin, e o western de gângster “Dreamland”, com Margot Robbie, o que torna a fase áurea da adrenalina nas telas, a década de 1980, um alvo de estudos, sobretudo por sua perspectiva mais pop. É o que se vê no livro “The ultimate history of the 80s teen movie”, de James King, que faz da franquia “Karate Kid” seu objeto de análise. King pega carona no sucesso na web da série “Cobra Kai”, que resgatou os heróis imortalizados pelo diretor John G. Avildsen. A segunda temporada do seriado acaba de entrar na rede.

Existe um saudosismo atraente em torno da produção. Só não adianta esperar pelo Sr. Miyagi: com a morte do ator Pat Morita (em 2005), Daniel San ficou sem sensei para encarar os desafios da série “Cobra Kai”, que virou “o” fenômeno midiático do primeiro semestre de 2018 na internet, veiculado como um canal do YouTube Red (agora YouTube Originals, plataforma de exibição paga, como a NetFlix), baseado na mítica em torno do filme “Karate Kid – A hora da verdade” (1984). Aliás, nem mais protagonista Daniel LaRusso (uma vez mais encarnado por Ralph Macchio) é agora: seu adversário há 34 anos, o bad boy de cabelinho louro Johnny Lawrence, encarnado por William Zabka, assume o eixo central de uma narrativa serializada em dez episódios.

Há um ano, os dois primeiros episódios foram distribuídos gratuitamente, e tiveram 100% de aprovação entre os internautas graças à mistura de humor, artes marciais e saudosismo. O tempo foi cruel com os dois atores, aqui também creditados como produtores. Temos imagens do longa-metragem original, cuja direção coube ao mesmo realizador de “Rocky, um lutador” (1976): o já citado Avildsen, morto em 2017, aos 81 anos. Mais cruel foi a realidade de seus personagens.

Coqueluche na década de 1980, o primeiro “Karate Kid” (houve três sequências com Miyagi e uma refilmagem em 2010, com Jackie Chan e Jaden Smith) custou US$ 8 milhões para sair do papel e faturou US$ 90 milhões apenas nos EUA – estima-se que, mundo afora, o longa tenha feito mais uns US$ 100 milhões. Nele, LaRusso é um órfão de pai pobretão de Nova Jersey que se muda com a mãe para Reseda, onde vira saco de pancada nas mãos de Johnny e seu bando até virar aprendiz do zelador Miyagi. Agora na série, três décadas depois, LaRusso virou coxinha: é um empresário dono de uma concessionária de carros classe AA e um pai de família submisso à sua mulher dondoca.

Já Johnny desceu aos infernos: vivendo de bicos, consertando fiações e instalando TVs, ele virou um bêbado caído em desgraça. Mas, ao ajudar um jovem latino com seus dotes para o caratê, quebrando a cara de um grupinho de valentões, ele enxerga em seu velho quimono preto do dojô Cobra Kai uma salvação. Decide então reabrir a academia e fazer de jovens afoitos por revanches seus pupilos. Mas Daniel não vai deixar o caso sair barato.

“O ‘Karate Kid’ original apresentou ao mundo um desajustado que encarnava a fase de total deslocamento pela qual milhões de adolescentes passavam, sonhando em pertencer a algo”, explica o cineasta americano Derek Wayne Johnson, que abordou o simbolismo de Daniel San no documentário “King of the Underdogs”, sobre o cinema de Avildsen. “A partir da amizade com Sr. Miyagi, vemos o personagem de Macchio se transformar, saindo da condição de garoto assustado para homem valente. Isso era uma inspiração que mudou a minha vida”

Em apenas dois dias no ar, em 2018, “Cobra Kai” ganhou a liderança dos assuntos mais discutidos na rede e devolveu a seus astros um prestígio há tempos perdido, uma vez que nada feito por eles fora da franquia Karate Kid teve o mesmo impacto popular. Os dois foram ovacionados quando o piloto da série foi apresentado no Festival de Tribeca do ano passado, em sessão especial. A maior curiosidade da plateia era saber se o vilão da série nos anos 1980, o sensei Kreese, vivido por Martin Kove, voltará no seriado, o que acontece agora, no regresso dos personagens, na temporada dois. Fora o duo de capítulos introdutórios, os demais episódios só podem ser visto mediante o pagamento de uma taxa. O mesmo vale para a season two, já no ar, e ainda mais divertida do que a original, com um desempenho ainda mais carismático de Zabka.

No Brasil, a grife “Karate Kid” tornou-se ainda mais conhecido graças a suas sucessivas reprises na “Sessão da tarde”, na qual Johnny era dublado por Mario Jorge (a voz do Burro Falante de “Shrek”). “Johnny não era um vilão. No fundo, era um garoto legal. E eu, na época dessa dublagem, que ainda era um novato, perdia os loops (as falas) vendo atores do porte de Seu Magalhães Graça e Cleonir dos Santos dublando Miyagi e Daniel”, diz Mario Jorge. “Naquela época, ‘Karate Kid’ foi uma febre no país”.

Diante do ardor dos fãs (de novas gerações) em torno de “Cobra Kai”, já se especula a criação de outras séries para o Youtube Red derivadas de filões bem-sucedido dos anos 1980. Surge já uma especulação em torno de “A Super Vicky” e “Primo Cruzado”.

p.s.: Nesta terça, às 14h, na “Sessão da Tarde”, a TV Globo exibe a fofura “Encontro de amor” (“Maid in Manhattan”), de Wayne Wang, que, outrora, foi um estandarte da autoralidade. Na trama, uma inspirada JLo vive Marisa Ventura, camareira de um luxuoso hotel de Manhattan. Certo dia, ela conhece Christopher Marshall, um herdeiro de uma dinastia política quatrocentona (vivido por Ralph Fiennes), que está hospedado em seu local de trabalho. Devido a um erro de identificação, Christopher imagina que Marisa seja uma hóspede e logo inicia com ela um romance. Porém, quando a identidade de Marisa é revelada, eles percebem que fazem parte de mundos muito diferentes. Marxismo fofo nas veias.

p.s. 2: Ainda nesta quarta, 30 de abril, às 20h15, o canal Max exibe “The Rover: A caçada”, um filmaço de David Michôd exibido em Cannes, em 2014. Guy Pearce trafega por um mundo sem lei, sem alma e quase sem gente para expurgar um trauma do passado, topando com um bruto Robert Pattinson.

p.s. 3: Enki Bilal, autor de obras-primas das HQs, como “Bug”, vai ser um dos jurados de Cannes, cujo festival vai de 14 a 25 de maio.

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