‘Danado de bom’: ecos do Nordeste poético

‘Danado de bom’: ecos do Nordeste poético

Rodrigo Fonseca

29 de junho de 2017 | 11h38

O compositor João Silva revê seu passado e sua arte em “Danado de Bom”

RODRIGO FONSECA
Tem baião hoje nas telas: enfim chegou ao circuito Danado de Bom, um banho de descarrego em forma de documentário, com foco na memória de Mestre João Silva (1935-2003), um dos maiores compositores do país. Dirigida por Deby Brennad, a produção saiu do Cine PE, um dos mais tradicionais festivais de Recife, em 2016, com quatro troféus: Melhor Filme, Fotografia, Montagem e Edição de Som. O filme, que tem Marianna Brennand (diretora de O Coco, A Roda, O Pneu e o Farol) como sua produtora executiva, registra os últimos momentos de João em trânsito, por Pernambuco, ressaltando sua veia poética.
Na entrevista a seguir, Marianna conta o que descobriu no processo.

 

O que João Silva simboliza para a memória musical do nordeste?

Marianna: O João Silva cantou o Nordeste e o sertão, mas morreu sem voz. Reconhecer o trabalho dele é preencher uma lacuna na Música Popular Brasileira dando o devido mérito a esse importante músico, compositor e produtor que foi um dos grandes parceiros de Luiz Gonzaga. Um artista que compôs 3 mil musicas é algo surpreendente. Ainda mais considerando que ele era semianalfabeto. Em suas músicas, João criou um vocabulário do matuto, do sertanejo. Inventava palavras, fazia músicas alegres que cantavam e valorizavam o seu povo. As parcerias de João com Gonzagão são muito populares, fazem parte da vida de todo Nordestino e são enormemente conhecidas no Brasil, tocadas principalmente nas festas juninas. Os forrós de João fazem parte da memoria afetiva do brasileiro. Os nossos grandes músicos gravaram suas composições feitas pro Gonzagão: Gil, Dominguinhos, Elba Ramalho, Marinez, Lenine, Alcione, Mariana Aydar. É comovente o carinho e respeito com que eles falam do João Silva e de sua importância como compositor. E também inacreditável que na maioria das homenagens, biografias e trabalhos em torno da vida e obra do Rei do Baião o nome de João Silva seja sequer mencionado. João Silva, representa o homem brasileiro mais comum, que, apesar de todas as adversidades, segue em frente acreditando no seu sonho e no seu talento. O João saiu do sertão, venceu no Rio de Janeiro, conheceu seu ídolo Gonzaga, tornado-se seu parceiro e produtor.  Deu a Gonzaga seus maiores sucessos de venda e o primiero milhão de cópias com o disco Danado de Bom. Mas morreu no esquecimento. O filme, busca dar voz e reconhecimento a esse artista tão importante da música brasileira.

Como é produzir um doc de música no brasil com os percalços do cinema de hoje?

Marianna: Percalços fazem parte do processo natural da feitura de um documentário. Seja ele sobre música ou não. A vida real vai trazendo a cada dia novos elementos e situações, e cabe a nós realizadores e produtores equilibramos essas questões com a obra que estamos criando. Uma dessas situações foi a morte de João, uma grande perda. Ao longo do processo, foram dez anos. Firmamos parcerias para a equipe do projeto com profissionais que contribuíram imensamente para a construção do filme que temos hoje, como a Jordana Berg e o Antônio Venâncio. Descobrimos através de extensa pesquisa, arquivos preciosos com grandes nomes da nossa música interpretando as composições de João.  Essa foi a forma que encontramos de valorizar o compositor e mostrar que apesar do nosso personagem não ser conhecido, suas músicas são. Como dizemos no subtítulo do filme, João é um poeta que o Brasil conhece sem conhecer. O filme foi realizado com recursos públicos com grande destaque para o Edital Funcultura Audiovisual do Governo do Estado de Pernambuco, através do qual ganhamos prêmios para Pesquisa, Produção, Finalização e Distribuição, todas as etapas de produção audiovisual. Além do prêmio do Edital BNDES Cinema que complementou os recursos para finalização do filme. Essa trajetória levou tempo mas garantiu a realização do documentário.

 

E a distribuição?

Marianna: A distribuição, outra conhecida dificuldade do processo de um filme, está sendo feita pela Inquietude: produtora, editora e distribuidora que abri no Rio de Janeiro. Estamos fazendo um trabalho maravilhoso para o lançamento do filme. Entramos essa semana em sete praças e nove salas, e na semana que vem aumentamos para dez praças e assim por diante. Além disso firmamos parcerias com uma plataforma de exibição em circuito alternativo e o filme já tem 48 sessões agendadas por todo o Brasil. São sessões gratuitas em cineclubes, centros culturais, escolas e universidades do Piauí, passando por Mato Grosso, Santa Catarina etc, com um engajamento incrível em torno do filme.

 

Que influencias Danado de Bom carrega de outros filmes do formato?

Marianna: Danado de Bom dialoga com a tradição do documentário brasileiro quando ele resgata um personagem importante da cultura nacional. Cada novo filme lançado do gênero é uma lacuna na linha do tempo da nossa história que é preenchida. O filme de certa forma se constitui como uma peça, junto de O Homem Que Engarrafava Nuvens, do Lírio Ferreira, sobre Humberto Teixeira, da história de Luiz Gonzaga e da música nordestina. Somado a isso, o rico trabalho de pesquisa de arquivo de imagens é muito presente no Danado e nos demais documentários musicais. O que vemos também no filme, e que acredito encontrarmos em outros filmes do formato, é uma alegria inerente à música brasileira, que é um pouco da característica do próprio brasileiro. Não é à toa que o público se relaciona tão bem com esse tipo de filme. Acho que é porque ele se reconhece nos personagens apresentados na tela. Apesar de existirem músicas românticas e densas de João, também existe esse ponto de diálogo. João falava através de suas músicas e percebemos isso. E uma das decisões que tomamos foi que o filme não daria conta de sua biografia completa, e sim da sua trajetória de compositor, produtor e interprete. Nos preocupamos em contar sua história através das palavras apropriadas a partir de suas músicas. A narração feita pelo Siba foi inspirada diretamente nas suas letras das músicas.  Mais do que um filme biográfico, Danado de Bom é um filme musical.

 

 

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