Da-Rin na rede: Alô, Silvio, Na Real_Virtual no ar!

Da-Rin na rede: Alô, Silvio, Na Real_Virtual no ar!

Rodrigo Fonseca

11 de novembro de 2020 | 11h07

“Missão 115” valeu a Silvio Da-Rin uma vaga na competição do É Tudo Verdade de 2018

Rodrigo Fonseca
É dia de os fantasmas da ditadura militar brasileira – os do umbral que durou de 1964 a 1985 – passarem por uma cerimônia de exorcismo no seminário online Na Real_Virtual, num ritual de rasga-coração, rasga-traumas e rasga-saudades de queridos companheiros empreendido pela realizadora Lúcia Murat e pelo diretor Silvio Da-Rin. A conversa rola às 19h, desta quarta-feira, quando a obra da dupla será revisitada. Para acompanhar o papo, basta acessar o link https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2 e seguir a condução da conversa, feita pelos curadores desta festa documental, o cineasta Bebeto Abrantes e o crítico Carlos Alberto Mattos. A produção é de Márcio Blanco e sua Imaginário Digital. O tema desse encontro: Memórias de Chumbo, revisitado a partir das recordações e reinvenções de ambos sobre o governo de farda e seu terror. Da obra de Lúcia foi selecionado “Uma Longa Viagem” (Kikito de melhor filme em Gramado, em 2011) e, do cinema de Silvio, escolheu-se o feérico “Missão 115”, destaque do É Tudo Verdade em 2018. O P de Pop falou de Lúcia na terça, lembrando que ela tem o inédito “Ana. Sem Título” (com brilhantes atuações de Roberta Estrela D’Alva e Stella Rabelo) para lançar. É hora de o Estadão falar de Silvio, cuja filha, a diretora Maya Da-Rin, lança nesta quinta-feira o premiadíssimo “A Febre”.

Silvio Da-Rin

“Missão 115” é um atestado do vigor de Silvio como cineasta. É virtuoso em sua engenharia narrativa. É obrigatório como autópsia de um cadáver histórico ainda perfumado a impunidade – no caso, o atentado ao show do Primeiro de Maio de 1981, no Riocentro. É um longa que põe carne onde só encontrávamos verbos. Tudo começa com um sujeito (civil), em visita a um quartel, esboçando em um papel a arquitetura do espaço de tortura e claustro por onde passou, durante a ditadura. O tal sujeito, que foi preso político, é o próprio Silvio Da-Rin. Realizador do febril curta “Fênix” (1980), ele é autor de um livro dos mais seminais sobre a estética do Real: “Espelho partido – Tradição e transformação do documentário” (2004). Sua reflexão sobre a linguagem documental transparece aqui, com mais refinamento do que fez nos longas-metragens “Hércules 56” (2006) e “Paralelo 10” (2012). Tensão e muito rigor dialético costuram todo o organismo fílmico deste ensaio investigativo. Há nele um tom de thriller. Sua poética furiosa lembra os melhores momentos do mestre chileno Patricio Guzmán (em especial, “O botão de pérola”). E se encontra em seus planos bem esquadrinhados um eco da trajetória pessoal de Da-Rin, como militante de organizações de resistência ao governo militar. Trajetória essa que Mattos e Abrantes vão abordar durante o colóquio deste 11 de novembro.

Essa experiência pessoal empresta a “Missão 115” uma bem-vinda voz na primeira pessoa a um coro de bocas (historiadores, sociólogos, jornalistas e o ex-torturador Claudio Guerra, hoje pastor evangélico) que se complementam mesmo nos pontos nos quais se contrastam. O corpo de Da-Rin entra em cena como como um legitimador da memória. E a legitima em um diálogo com os muitos relatos que colheu, editados por Célia Freitas com objetividade expositiva invejável, fazendo deste .doc um debate sobre a prática da institucionalização do terror. Cada frase – costurada com fotos de época, recortes de jornais e outras matérias do passado – traça uma nova curva no desenho do terrorismo de Estado. Assim o diretor mostra que a bomba que explodiu no colo de dois soldados, no Riocentro, foi plantada como uma estratégia para manter os fardados no Poder. Fazendo da divergência e da dúvida seus instrumentos para exumar a História, Da-Rin sofistica seu dispositivo formal e nos dá um filme incômodo e vivo.
“Lucia Murat e Silvio Da-Rin têm em comum o fato de haverem sido ativistas contra a ditadura, presos e, com graus diferentes, sofrido nas mãos da repressão no regime militar”, diz Mattos. “Ambos retrabalham sua relação íntima com o tema através de seus filmes. Lucia opera no campo das memorias pessoais, especialmente femininas, projetando sua própria voz ora diretamente, como em ‘Uma Longa Viagem’, ora por meio de personagem, como em ‘Que Bom te Ver Viva’. Em seu último longa, ‘Ana. Sem Título’, podemos dizer que Lucia se vê refletida nas artistas latino-americanas ali abordadas. Já Silvio Da-Rin se volta para fatos concretos da historiografia, como o sequestro do embaixador americano em 1969, em ‘Hércules 56’, e o terrorismo de estado praticado pela linha dura nos estertores da ditadura, em ‘Missão 115’. Distintos em suas formas de abordagem, Lucia e Silvio se complementam para que não se apaguem as memórias do horror que vivemos no passado recente, que o governo atual e seus correligionários tentam negar e ainda louvam. Por isso são filmes mais necessários do que nunca”.

No frigir das inquietações documentais do país, Abrantes e Mattos têm agendadas conversas com Adirley Queirós, Claudia Priscilla, Eryk Rocha, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Kiko Goifman, Roberto Berliner, Sandra Werneck, Susanna Lira e Walter Salles. Esses papos rolam sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Valem a atenção. E o aplauso. É “O” evento do ano, tendo Márcio Blanco e sua Imaginário Digital como produtores.

p.s.: Com “Boca de Ouro”, Daniel Filho volta às telas neste fim de semana com seu melhor filme desde “O Cangaceiro Trapalhão” (1983), com uma releitura do Al Capone do subúrbio que valoriza, como nunca, as forças femininas da narrativa rodriguiano, apoiado em desempenhos corajosos e vívidos de Lorena Comparato (em atuação impecável) e Malu Mader, em seu trabalho mais inspirado no audiovisual desde “Labirinto” (1998). É um estudo singular da vida suburbana… como ela é.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: