Da Flup ao Varilux, ‘Sou Francês e Preto’ soma fãs

Da Flup ao Varilux, ‘Sou Francês e Preto’ soma fãs

Rodrigo Fonseca

20 de novembro de 2020 | 11h08

Rodrigo Fonseca
Neste 20 de novembro, em que a Globo celebra a luta contra o racismo com “Falas Negras”, às 23h, sob a direção de Lázaro Ramos, o Festival Varilux se alinha com o pleito mais do que urgente pelo #BlackLivesMatter com uma projeção online (seguida de debate) da comédia “SOU FRANCÊS E PRETO” (“TOUT SIMPLEMENT NOIR”), dirigida e estrelada pelo rapper Jean-Pascal Zadi. O bate-papo sobre o longa-metragem – sintonizado com reflexões do Dia Nacional da Consciência Negra – será mediado pelo cineasta e crítico de cinema Clementino Jr., com a participação da pesquisadora e coordenadora do FICNE (Fórum Itinerante de Cinema Negro) Janaína Oliveira; do realizador Joel Zito Araújo; e do ator, diretor e roteirista Alberto Pereira Jr. A troca entre eles vai ocorrer de forma remota e será transmitida simultaneamente no Facebook (https://pt-br.facebook.com/variluxcinefrances) e no YouTube do Varilux: https://www.youtube.com/user/variluxcinefrances. Para participar da exibição via web desta produção, vista por 800 mil pagantes em terras francesas, é necessário fazer uma inscrição pelo link: https://www.eventbrite.com.br/e/sessao-sou-frances-e-preto-festiv0al-varilux-de-cinema-frances-2020-tickets-129484133529. O link de inscrição também estará disponível no site do festival, dentro da aba “eventos”: http://variluxcinefrances.com/2020/eventos/. A conversa acerca do trabalho de Zadi – que divide a direção com o fotógrafo John Wax – será transmitida pelo YouTube e Facebook do Festival Varilux, às 19h30m, de forma gratuita e aberta, sem necessidade de inscrições. O público poderá participar e enviar perguntas pelo chat ao vivo. Legendada, a exibição será liberada para os primeiros 300 inscritos e os contemplados receberão, no próprio dia 20/11, um link com senha para o vimeo. O trailer de “Sou Francês e Preto” pode ser conhecido aqui: https://youtu.be/YU5Thw4cvVg. Mas ainda será possível conferir este filmaço presencialmente, no circuito de 89 salas exibidoras do Varilux, espalhadas por 42 cidades brasileiras, até 3 de dezembro.
“Cinema é combate”, disse Zadi ao P de Pop, durante sua participação na Festa Literária das Periferias (FLUP), evento pilotado pelo escritor Julio Ludemir. “Eu crio filmes a partir do roteiro, sempre. Mas eu não escrevo pensando na trama em si, e, sim, no combate que ela fomenta, naquilo que tenho a defender. O rap é o lugar onde você conjuga metáforas fortes ao mais descritivo dos realismos. A interseção entre o rap e a imagem se dá pela palavra e pelo ritmo. Não existe hoje, no trabalho que eu faço, no país de onde venho, outro jeito de se combater o racismo, se não pelo combate que a palavra engatilha. Eu venho de uma pátria em que a polícia para gente negra na rua todo dia.

Em “Sou Francês e Preto”, Zadi vive JP, um ator mal-sucedido de 40 anos que decide organizar o primeiro grande protesto pela causa negra na França, mas seus encontros, muitas vezes burlescos, com personalidades influentes da comunidade, levam o artista a hesitar entre o desejo de estar à frente dos palcos e seu engajamento na militância. “Tudo isso se expressa com humor, pois rir é fundamental a uma batalha na arte”, diz Zadi. “Eu cresci numa periferia pobre. O que nos reunia, quando crianças, eram os programas de humor na TV. E esse tipo de discurso cômico talhou o meu modo de narrar. Temos uma tradição forte de comediantes aqui, com Éric Judor, Fabrice Éboué, Jonathan Cohen”.
Zé Pequeno, Buscapé e Mané Galinha foram essenciais à compreensão que Zadi tem do Brasil hoje. “Eu preciso te confessar que conheço mesmo os craques de vocês, por gostar muito de futebol: o Neymar, o Ronaldo, o Roberto Carlos”, disse o diretor. “No cinema tem algo bonito: a França passou anos acreditando que o Brasil era o que as telenovelas mostravam até que chegou “Cidade de Deus” e, depois, “Cidade dos Homens”. Ali mudou tudo. Ali, pela primeira vez, nós, negros franceses, olhamos algo do Brasil em que identificamos gente como a gente vivendo como a gente”.

Entre as opções obrigatórias deste fim de semana, no Varilux, vale correr atrás das sessões de “Persona Non Grata”, de Roschdy Zem: no RJ, no sábado, às 17h45, tem projeção dele no Estação Botafogo, e tem exibição dele na segunda, às 16h30, no Estação Net Ipanema. O ator e realizador do memorável “Chocolate” (2016) faz neste feérico thriller uma releitura do cult brasileiro “O Invasor” (2001), de Beto Brant, assumindo o papel de Anísio (aqui chamado Moïse), celebrizado por Paulo Miklos no longa original, escrito por Marçal Aquino. Moïse é um assassino que se livra de um dos sócios dos donos de uma empreiteira, Maxime (Raphaël Personnaz) e Montero (Nicolas Duvauchelle, em brilhante atuação). Outra atração imperdível é “Slalom”, de Charlène Favier, que será exibido no Estação Casal Barra Point, nesta segunda, às 17h15. Com a fotografia mais sofisticada deste Varilux, colecionando tons de azul e vermelho para traduzir os estados de espírito de sua protagonista, este estudo sobre a microfísica do Poder, segundo Foucault, segue os ritos de passagem de uma jovem atleta de esqui na neve (Noée Abita) às voltas com as obsessões e os desrespeitos de seu instrutor, o ex-campeão Fred (Jérémie Renier).
Vai ter Varilux até dia 3 de dezembro, quando o festival celebra os 90 anos de Jean-Luc Godard e os 60 anos de “Acossado” (1960).

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