D. Hermínia tem alma de Frank Capra e J. Apatow

D. Hermínia tem alma de Frank Capra e J. Apatow

Rodrigo Fonseca

28 de dezembro de 2019 | 11h21

RODRIGO FONSECA
Banho de descarrego capaz de unir classes sociais das mais variadas, pelo riso, as sessões de “Minha mãe é uma peça 3” – um desbunde de alegria – resgatam um espírito de cinemão popular das antigas. Espírito que remonta, no caso brasileiro, aos espetáculos de crônica de costumes lá dos tempos da chanchada, porém com uma forma (ou fôrma) narrativa diferente, na essência, das comédias carnavalescas dos anos 1930, 40 e 50. É diferente também de seus derivados: a pornochanchada (feita de 1969, com “Os Paqueras”, a 1985, com “Eu tenho Aids”), e a neochanchada dos anos 2000, 2010, abertas com “Se eu fosse você” (2005). A marca da diferença parte do roteiro para transbordar na direção. Uma direção (seguríssima) de Susana Garcia. Não se trata de uma reflexão sobre conflitos oriundos dos dilemas de classe social, seja a pobreza que açoitava os clowns de Dercy Gonçalves, Grande Otelo, Zé Trindade e Oscarito, seja a reconfiguração afetiva dos emergentes vistos em “Até que a sorte nos separe” ou “De pernas pro ar”. O caso aqui não são neuroses de classe média, nem problemas no funcionamento das linhas de bonde: é a aceitação das diferenças, da idade que chega, do ninho vazio, da história escrita por cada um pelas linhas tortas da intolerância. E isso com uma piada (boa) a cada três “fotogramas”, uma piada hilária a cada duas cenas.
Há uma trama que está mais próximo da discussão de valores morais do Judd Apatow de “Bem-vindo aos 40” (“This is 40”, 2012) do que de Carlos Manga. Mas é um Apatow com toques (explícitos) de Frank Capra (com todo o carpe diem de “Do mundo nada se leva”), que transpira pela construção dos planos de Susana. É um filme onde um pulso de direção… uma identidade de investigação de fraturas morais… que já vinha de “Minha vida em Marte” (2018), faz-se reconhecer. A base de tudo é o reator nuclear de análises (embebidas em ácido) do dia a dia Paulo Gustavo, em seu melhor momento nas telas, como Dona Hermínia. A identidade fílmica aqui é algo que parece uma interseção… algo como se via, nos anos 1970 e 80, na relação entre Werner Herzog e Klaus Kinski: algo próximo de uma simbiose criativa ator-realizadora, uma complementaridade. A partir do monólogo teatral homônimo que fez dele um mito dos palcos, nos anos 2000, e de vivências pessoais diversas, Paulo Gustavo criou um universo muito particular, uma Niterói de bobs no cabelo, uma Niterói que sintetiza todo um microcosmos de modos de amar explosivos, impacientes, incomodados com a harmonia alheia, mas fiéis… fidelíssimos ao bem de seus pares. E Susana vem se acoplando a esse veio emotivo de triagem de comportamentos de uma maneira essencial… e plena. Não por acaso, a diretora assina o roteiro com PG e Fil Braz, tendo a colaboração de Mônica Martelli, Natalia Piserni, Gabriella Mancini, João Paulo Horta e Andrea Batitucci.

Junto e misturado, esse exército – que mataria Brancaleone de inveja, por sua afinação com o inusitado por trás de cada gesto do cotidiano – faz um conto sobre acomodações no outono da vida. Hermínia vai casar o filho Juliano (o sempre elétrico Rodrigo Pandolfo) e vai ser avó, de novo, já que Marcelina (um show de despojamento de Mariana Xavier) está grávida. Seus genros, confiados a dois atores em estado de graça, têm temperamento leves. Um é chá de camomila: o odara Sol (Cadu Fávero, irradiando observação apoiado num experiência GG); o outro é Ice Tea de Pêssego: Tiago (papel de Lucas Cordeiro, que esculpe camadas em seu personagem pelas vias da delicadeza, entre sorrisos). Tiago deu a Juliano cimento para edificar sua autoestima, na peleja contra preconceitos. Já Sol aquietou a espoleta de Marcelina. Mas nada acalanta o coração de Hermínia, que bate a 220 volts, num festival de peripécias do dia a dia: ir à feira; tentar uma sessão de terapia de grupo (hilária); bater de frente com o ex sedutor (Herson Capri, numa retidão de olhares e gestos); driblar a solidão; brigar com as irmãs, Iesa (a genial Alexandra Richter) e Lúcia Helena (Patricya Travassos, sempre na linha da surpresa).
Do primeiro filme para esta parte três, nota-se que a franquia amadureceu com Paulo Gustavo. No primeiro, já se via um ar de relevo na dramaturgia, sob a direção de André Pellenz, atenta ao choro que acossa cada sorriso. Mas esse amadurecimento de agora se nota não apenas pela precisão cirúrgica das tiradas cômicas – o maxilar não para quieto um segundo. Essa maturidade da série se impõe a partir de uma inteligente gourmetização visual que Susana (sob os auspícios da produtora Iafa Britz) trouxe para o acabamento, secando excessos dos outros dois longas. O maior acerto foi a escalação de um dos melhores fotógrafos do país na atualidade, Dante Belluti (de “Como é cruel viver assim”). Poucos no mercado nacional, hoje, têm um olhar para cores afiado como o dele. E, neste momento, na produção nacional, o colorido de Paulo Gustavo é imbatível… e faz um bem danado pra alma.
Como seria bom se, da mesma forma que (o gênio) Adam Sandler partiu para voos rasantes como “Joias brutas” (“Uncut Gems”), Paulo Gustavo arriscasse algo em outros timbres, tipo… talvez… “Os Rapazes da Banda”, de Mart Crowley. Não ia sobrar nada de pé.

P.S.: Sofia Coppola está finalizando seu novo longa-metragem, “On The Rocks”, com Bill Murray no papel de um playboy que precisa acertar as contas com a filha (Rashida Jones)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: