Curta os curtas de Cannes: Palma plural

Curta os curtas de Cannes: Palma plural

Rodrigo Fonseca

29 de outubro de 2020 | 11h23

Rodrigo Fonseca
Em sua versão pocket, iniciada na terça com a dramédia “Un Triomphe”, Cannes emburacou a manhã desta quinta adentro numa jornada pelo multiculturalismo em pílulas, onze, vindas de diferentes cantos do planeta para disputar a Palma de Ouro de 2020, com destaque para um thriller da Grécia: “Motorway65”, da diretora Evi Kalogiropoulou. Este é o mais caudaloso dos estudos sobre erosões de redenção e sobre o desamparo que tingiram de humanidade o menu dos Cannes Shorts de Thierry Frémaux, apoiado numa observação das contradições sociais da Grécia. Em sua trama, dois gêmeos ligados à classe operária de uma cidadezinha do interior da Grécia especulam modos de acabar com as pontes – as imaginadas pelas intolerância e uma plataforma de aço – que separam as comunidades de imigrantes ali residentes. Num terreno desolado, nas cercanias do Mar Negro, uma jovem flerta com um amor por uma estrangeira e seu irmão anseia por vencer como kickboxer. Entre todos os concorrentes, Evi é quem mais conta com o fator da surpresa, ainda que num campo da antropologia, por explorar um contingente populacional pouco conhecido, de maneira tridimensional.
Foi um português, “O Cordeiro de Deus”, quem inaugurou o certame, fazendo da fotografia requintada de Joana Silva Fernandes uma sinalização precisa para uma seleta de filmes com refinado apuro visual. A bola fora, infelizmente, veio na forma de um gol contra da animação: “Filles Bleues, Peur Blanche”, que mistura uma série de pleitos políticos em um enredo de vingança desperdiçado numa linguagem sem qualquer bússola. Já o documentário teve melhor sorte, defendendo com habilidade as estéticas do Real da América Latina: o colombiano “Son of Sodom”, de Theo Montoya. É uma investigação sobre a morte de um homossexual de 21 anos que foi um candidato a astro de um projeto anterior do realizador. Além de propor uma triagem urgente da homofobia, Montoya impressiona pelo capricho com a condução dos enquadramentos e com a montagem, criando um conceito claustrofóbico.
Teve lugar para Hollywood no pacotão cannoise: Will Ferrell rouba a cena em “David”, uma comédia neurótica de roteiro agilíssimo capitaneado por Zachary Woods. Ele vive um analista cuja sessão com um analisando deprimido (o ótimo William Jackson Harper) é atrapalhada pela chegada de seu filho (Fred Hechinger), em meio a um surto de carência. É uma comediona digna de “Saturday Night Live”.
Teve mais coisa boa da língua inglesa. Vindo do Reino Unido, o suspense psicológico “Sudden Light”, da diretora Sophie Littman, foi um dos curtas mais elogiados e aplaudidos nessa sessão da manhã de terça. A história de uma jovem, seu cão e um fantasma da masculinidade mais agressiva deslumbraram o público. Resta saber o que o júri vai anunciar esta noite. Quem julga? É a realizadora Claire Burger, a atriz Céline Sallette, o cineasta Rachid Bouchareb, o ator Damien Bonnard, o produtor Charles Gillibert e a realizadora Dea Kulumbegashvili, que venceu o último Festival de San Sebastián, na Espanha, com “Beginning”, exibido no Palais na quarta.

A lista dos cineastas em competição para essa turma julgar:
Sameh ALAA dirige I AM AFRAID TO FORGET YOUR FACE – 15’ – Egito
Marie JACOTEY & Lola HALIFA-LEGRAND dirigem FILLES BLEUES, PEUR BLANCHE (BLUE FEAR) – Animação – 10’ – França
Evi KALOGIROPOULOU dirige MOTORWAY65 – 14’ – Grécia
Sophie LITTMAN dirige SUDDEN LIGHT – 14’ – Reino Unido
Theo MONTOYA dirige SON OF SODOM – Documentário- 15’ – Colômbia
Paul NOUHET dirige CAMILLE SANS CONTACT (CAMILLE, CONTACTLESS) – 15’ – França
David PINHEIRO VICENTE dirige O CORDEIRO DE DEUS (THE LAMB OF GOD) – 15’ – Portugal
Lkhagvadulam PUREV-OCHIR dirige SHILUUS (MOUNTAIN CAT) – 13’ – Mongólia
Paul SHKORDOFF dirige BENJAMIN, BENNY, BEN – 7’ – Canadá
Leonardo VAN DIJL dirige STEPHANIE – 15’ – Bélgica
Zachary WOODS dirige DAVID – 11’ – EUA

Will Ferrell roubou a cena do Palais des Festivals de Cannes

Quem vai encerrar a versão pocket de Cannes é o comediante Bruno Podalydès, em missão atrás e à frente das câmeras no comando de “Les Deux Alfred”, trama sintonizada com a onda de desempregos na Europa.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: