Curta os curtas brasileiros em Locarno

Curta os curtas brasileiros em Locarno

Rodrigo Fonseca

13 de agosto de 2021 | 15h27

Dennis Pinheiro canta e dança em um elenco afiadíssimo em “Fantasma Neon”

Rodrigo Fonseca
Ainda sob o impacto de “Zero and Ones”, de Abel Ferrara, exibido na quinta-feira, com Ethan Hawke em estado de graça, o 74º Festival de Locarno termina neste sábado marcando uma bem-sucedida campanha do Brasil nas telas da Suíça, não apenas com “Beckett” (o filme de largada, produzido por Rodrigo Teixeira), mas com um par de curtas-metragens em disputa. Um deles, o carioca “Fantasma Neon”, musical de Leonardo Martinelli, já atraiu as atenções de San Sebastián, e garantiu para si uma vaga no festival do norte da Espanha, agendado de 17 a 25 de setembro. É a história de um entregador de comida, tipo i-Food, João (papel de Dennis Pinheiro), em meio à selva de ódios que a realidade contemporânea da covid-19 virou. Música e dança entram em cena como uma forma de sobreviver à aspereza do dia a dia, num debate sobre exclusões diversas, incluindo o racismo.
“Ainda acho pouquíssima a representatividade para as populações negras no audiovisual. Ter a chance de ter um ator negro, no papel de típico brasileiro sonhador, num festival grande como o de Locarno, é uma forma de abrir um debate sobre representação”, diz Dennis, elogiado por sua atuação, ao lado de Silvero Pereira (o Lunga de “Bacurau”) e de motogirls e motoboys profissionais. “No filme, João se lembra de um antigo sonho de ter uma moto pra conhecer o Brasil, mas sua realidade está muito longe disso. Como é que um cara que não tem grana pra comprar o próprio almoço, e pagar a bike velha que usa, vai poder comprar uma moto?”.

“A Máquina Infernal” expõe o extraordinário no ambiente fabril

Também teve Brasil em Locarno na forma de “A Máquina Infernal”, de Francis Vogner dos Reis. Reverberou muito bem pela Suíça a estreia na direção de um dos curadores da Mostra de Tiradentes, em concurso na seção Pardi di Domani, a mesma em que “Fantasma Neon” está. Seu envolvente curta dialoga com a recente onda do “extraordinário”, ou seja, a vigência de vetores do inexplicável e do metafísico entre nós, a partir de um olhar, nas margens do terror, para o apocalipse em uma fábrica do ABC Paulista. Difícil não pensar na luz de “Christine, o Carro Assassino” (1983) diante da fotografia de Alice Andrade Drummond e Bruno Risas. A sequência de uma discussão sobre os rumos de uma linha de montagem evoca desde o seminal “A Classe Operária Vai ao Paraíso” (Palma de Ouro de 1972), do italiano Elio Petri, até o português “A Fábrica de Nada” (2017), de Pedro Pinho. A montagem de Cristina Amaral leva o clima sombrio à ebulição. Carlos Francisco, um os destaques do elenco de “Bacurau”, atua no curta no papel do sindicalista Raposinha.

Filme de Vogner aborda o apocalipse no ABC Paulista, com montagem de Cristina Amaral

Esse destaque em Locarno abre um debate sobre a participação do Brasil na cena do curta-metragem internacional, marcada por prêmios recentes dados a nosso país, no formato, em Cannes (dados a “Céu de Agosto” e “Cantareira”), e pela escolha de “Ato”, de Bárbara Paz, pra Veneza. “Desses filmes, eu só vi “Céu de Agosto”, de Jasmin Tenucci, em Tiradentes, o filme que recebeu a menção honrosa em Cannes e trata, diretamente, do mal estar que paira sobre (e se imiscui entre) nós, nos últimos anos. Mas quero muito ver os outros, em especial “Sideral”, de Carlos Segundo. Ele é um realizador muito interessante e que acompanho há tempos”, diz Vogner. “Eu acho que esses filmes são exemplares de um universo muito amplo que é o do formato de curta-metragem no Brasil. Nesse universo se fazem muitas políticas, pois a gente consegue contar centenas, quase milhares, ou um pouco mais, de curtas realizados anualmente no Brasil. Se é político concebermos filmes que se dirigem a agendas políticas, sim, nós temos muitos. E eles dão imagem e expressão a essas lutas ou, nos casos mais particulares, elaboram uma sensibilidade e um pensamento que buscam dizer o que não está dito na retórica política militante. Aí, a imaginação é a principal força desses filmes. Em outros casos, o discurso ou a informação é uma questão, não as imagens. Isso pode ser uma cilada, numa época em que a informação e a publicidade condicionaram nossa percepção a uma relação célere e instrumental com as imagens. Se, por outro lado, haveria política nos curtas ao concebemos um modo de fazer, uma ética, podemos considerar que existem muitos exemplos também. Neles, podem haver temas políticos mais claros ou mais enviesados, mas, não importa. O que importa é o modo como isso é realizado e como essas articulações se transformam em filme: imagem, documento e ficção”.
Para seu encerramento, neste 14 de agosto, com a entrega do Leopardo de Ouro e outros prêmios, Locarno preparou uma exibição ao ar livre, em sua Piazza Grande, a praça central da cidade, do drama biográfico “Respect”, a história de Aretha Franklin (1942-2018), com Jennifer Hudson.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.