Curta o Joia: cine mítico do RJ exibe pílulas autorais

Curta o Joia: cine mítico do RJ exibe pílulas autorais

Rodrigo Fonseca

22 de fevereiro de 2017 | 11h04

“Lá do Alto”, poema lúdico sobre inclusão, abre o pacote de curtas do Joia, no Rio

RODRIGO FONSECA
Nos tempos em que a Lei do Curta era cumprida, entre a segunda metade dos anos 1970 e 1990, gerações de realizadores nacionais tiveram a chance de exercitar sua escrita fílmica, e buscar um diálogo direto com o espectador, no espaço sagrado de uma sala de exibição. De Tuna Espinheira, lá da Bahia, a Alberto Magno, do Rio, do regional ao experimentalismo existencial, tudo o que se fazia de mais ousado na produção audiovisual brasileira, entre 5 e 30 minutos, tinha espaço em circuito. Mas com o fim da Embrafilme para que a Lei deixasse de ser respeitada. Mas o poder autorregenerativo da arte brasileira sempre encontra brechas para se fazer valer, em especial em tempos de ressaca: por isso, de certa forma, a programação de curtas-metragens que o Cine Joia Copcabana inaugura a partir desta quinta, em solo carioca, funciona como um tributo ao espírito cinéfilo que alimentou os pequenos grandes filmes viabilizados entre as décadas de 1970 e 80. Do dia 23/2 em diante, todos os longas-metragens projetados pelo Joia serão precedidos por um curta, a ser trocado semanalmente. Para inaugurar essa iniciativa, não poderia ter havido escolha mais feliz: o abre-alas será com o tocante Lá do Alto, de Luciano Vidigal, no qual um guri de periferia quer, a todo custo, subir o morro para dar um recado aos Céus.

 “Luciano é um diretor que vem evoluindo pelo curta: o espaço da experimentação. Para quem está fora do circuito dos blockbusters – e temos pelo menos 700 salas independentes no país nessa condição – o curta é um diferencial, que agrega valor: você paga um ingresso pra ver um filme e vê dois”, diz o cineasta Raphael Aguinaga, diretor da Vilacine, empresa que administra o Joia. “A escolha dos curtas é pela qualidade, sem ideologia, sem conexão com o tema do longa”.

 Ator símbolo da geração que colocou a cara e a cor das periferias do Rio nos cinemas, Vidigal foi um dos cineastas do cult 5xFavela, Agora Por Nós Mesmos (2010) e rodou, além de Lá do Alto, outros três curtas premiados mundo afora.

“Essa ação do Joia é um resgate de uma tradição que ajuda na democratização do audiovisual, ao valorizar o trabalho de cineastas que lidam com o formato curta, dando a nós a chance de mostrar nossas obras na tela grande”, elogia Vidigal, que ganhou oito prêmios com seu Lá do Alto, incluindo o prêmio de melhor filme no Los Angeles Brazilian Film Festival. “Poder representar a periferia a partir do afeto, do sonho e da alegria é um caminho que humaniza o retrato das comunidades e foge de estereótipos, discutindo o ser humano”.

Dá pra ver Lá do Alto na telona até o dia 1º. Depois é a vez de Dia de Índio, de Ludmila Curi (de 2 a 8 de março); Duas, Uma, de Luciana Ponso e Cavi Borges (de 9 a 15/3); Eu Sou um Samba, de Raoni Seixas (de 16 a 22/3); e Ateliê da Gaia, de Julio Pecly (de 23 a 29/3). E isso é só o começo…

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