Curta Nilton Bonder na tela grande

Curta Nilton Bonder na tela grande

Rodrigo Fonseca

05 de agosto de 2019 | 10h29

Rodrigo Fonseca
Papa do cinema documental histórico no Brasil, com sucessos de público como “Jango” (1984) e “Anos JK” (1980), o carioca Silvio Tendler volta às telas nesta quinta-feira com uma releitura em forma de investigação jorgralesca do livro “A alma imoral”, do rabino Nilton Bonder. É um ensaio crítico sobre as manifestações do espírito humano, sobre a desinência moral dos verbos “tentar”, “errar” e “resistir”, que trafega pela cultura judaica mais sai em busca de um olhar universal sobre fé, sobre governança, sobre perseverança. Os textos que servem de argamassa para o filme renderam, antes, uma peça que lotou teatros em todo o Brasil, com a atriz Clarice Niskier em estado de graça nos palcos. Agora é a vez dessa iluminação bonderiana chegar ao circuito exibidor. O projeto, que entra agora em cartaz, tem o canal Curta! em seu DNA. Bonder deu um par de respostas ao P de Pop que traduzem a força poética desse exercício cinematográfico amparado pela sabedoria de Silvio e de sua filha, a produtora Ana Rosa Tendler.

Qual a dimensão ética do debate sobre alma em nossos dias, neste Brasil desalmado?
Nilton Bonder: Primeiramente “Alma Imoral” não é uma discussão sobre alma, no sentido romântico ou espiritual. Alma é apresentada no livro como o aspecto transformador e mutante, que imprime um ritmo evolutivo diferenciado à espécie humana.  O filme é sobre fronteiras da inclusão, onde transgressores em várias áreas da vida evocam tolerância às diferenças de ser e pensar. Busca apontar, sim, a moral desalmada e estreita que rege condutas e narrativas nas relações sociais impedindo verdadeiras reformas em cidadania e civilidade. Fala da urgência de uma nova ética que será tão imoral aos olhos do observador quanto for seu interesse na preservação do status quo e da narrativa dominante.

O que o processo de construção de dramaturgia, a partir do teu livro, do palco à tela, deu a você de entendimento sobre tua obra?
Nilton Bonder: A passagem de uma mídia a outra, de papel a palco e a tela, revela outras dimensões do texto. O que se inicia em papel, como reflexão filosófica, ganha carne e osso na nudez do teatro e revela aspectos humanistas e psicológicos no drama. Na tela, onde narrativa e ação predominam, assume um caráter mais político. Aquilo que se pensa tem consequências sobre o que se experimenta e gera compromissos com o que se faz. Acho que a “Alma Imoral” encantou por suas múltiplas possibilidades de leitura, onde o papel da transgressão tem efeito importante tanto sobre o pensar, como sobre o comportamento pessoal e também coletivo. Se em algo essa reflexão puder abrir cabeças, empoderar indivíduos e denunciar hipocrisias coletivas, terá feito seu ciclo completo.

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