Curta Cinema no aconchego do Estação Botafogo

Curta Cinema no aconchego do Estação Botafogo

Rodrigo Fonseca

03 de novembro de 2021 | 17h36

Clementino Júnior, um dos mais prolíficos diretores cariocas, leva “1º Turno” à mostra Curta Cinema

RODRIGO FONSECA
Aclamado em sua passagem pelas gôndolas de Veneza, “Ato”, de Bárbara Paz, integra a seleção de 130 curtas do Curta Cinema, uma das vitrines mais disputadas por pílulas de brasilidade: sua 31ª edição começa nesta quarta-feira e segue até 10 de novembro, ancorado nas salas do cinema no Estação Net Botafogo, com entrada franca. Rolam também exibições online, gratuitas, na plataforma Festhome TV, como nas duas últimas edições. Entre os 50 títulos nacionais, destacam-se pérolas como “O 1º Turno”, de Clementino Junior; “Céu de Agosto”, de Jasmin Tenucci; “Como Respirar Fora D’Àgua”, de Júlia Dordetti Fávero e Victoria Negreiros Guedes; “Janelas Daqui”, de Arthur Sherman, Luciano Vidigal; “Ava”, de Stella Brajterman; e “Cantareira”, de Rodrigo Ribeyro. Na seleção internacional, há uma atração francesa obrigatória: “Toutes Les Nuits”, de Latifa Saïd. Sua trama se passa em Belleville, um bairro popular de Paris. Lá, nos últimos dois anos, Nadia tem vivido sozinha com seu filho, Samy, 15 anos. Ela ensina francês para prostitutas chinesas em uma associação. Comprometida com seu trabalho, Nadia está perto de uma de seus alunas, Mei, que está economizando para trazer seu filho para a França. Mas uma noite, Mei é presa pela polícia e corre o risco de ser deportada. Nadia fará tudo o que puder para impedi-la de ser deportada, correndo o risco de ver seu filho se afastar dela.
Confira a seguir o papo que o P de Pop teve com Ailton Franco, produtor do evento. Há três décadas, ele mantém curta-metragistas do mundo todo ao alcance do nosso olhar.

“Toutes Les Nuits”, de Latifa Saïd

Que tendências desenham o Curta Cinema deste ano e o quanto você não sente o impacto da pandemia sobre as estéticas dos curtas?
Ailton Franco:
O formato curta metragem sempre foi um formato que se adequa a variadas possibilidades de produção, e com a pandemia veio para confirmar que este é o formato de busca de novas estéticas e narrativas. A seleção desta 31ª edição mostra a diversidade estética da atual produção, com obras que integram a pandemia em suas narrativas, assim como propostas novas e independentes deste impacto.
Que novos caminhos de exibição o curta brasileiro encontrou com a pandemia? Novas vitrines surgiram? O que as plataformas digitais ofereceram ao formato?
Ailton Franco:
O curta brasileiro sempre buscou todos os espaços para serem exibidos, não se limitando às salas de cinema e festivais. É possível encontrar curtas no Youtube, de forma livre e em várias outras plataformas. Desde as maiores, quando encontramos curtas na Netflix, Amazon e demais, até novas plataformas criadas para difundir o formato curta ou a produção nacional. O curta ainda não é o formato dominante nas grandes plataformas de streaming, mas já começam a ocupar espaço, seja por terem atores e realizadores consagrados ou estão reunidos sobre uma mesma temática.
Que cineastas nacionais nasceram no Curta Cinema e hoje galgam carreiras premiadas pelas telas? De que maneira você estruturou o festival em sua gênese?
Ailton Franco:
São inúmeros os realizadores que começaram suas carreiras com seus primeiros filmes de curta metragem exibidos no festival e hoje são nomes consagrados no cenário mundial, como Karim Aïnouz, Kleber Mendonça Filho, Sandra Kogut, Anna Muylaert, Marcelo Gomes, para citar somente algumas e alguns. O festival foi estruturado desde o início de forma a apresentar novas produções no formato curta e novos realizadores, não esquecendo da contribuição de profissionais consagrados para o crescimento da produção nacional e internacional.
De que maneira a Lei do Curta, de 1974, hoje não cumprida, foi importante para o formato e para o seu festival?
Ailton Franco:
O festival nasceu da necessidade de mostrar nas salas de cinema uma produção no formato curta-metragem que já não tinha mais espaço após a desarticulação da obrigatoriedade da exibição de um curta nacional antes de longas estrangeiros. Com a Lei do Curta, a produção no formato alcançou um aprimoramento estético e de produção que veio a encontrar um público novo e crescente. Sendo assim, ela foi importante tanto para o aprimoramento do formato como da continuidade do festival, que passou a ser a principal vitrine de exibição do curta-metragem.

Alessandra Maestrini em “Ato”, que Bárbara Paz apresenta neste sábado no Curta Cinema

Com sessão neste sábado, às 19h, no Curta Cinema, o já citado “Ato”, de Barbara Paz, brilhou também na 45ª Mostra de Cinema São Paulo, que termina nesta quarta. Depois de seu recente documentário sobre Hector Babenco (1946-2016), Bárbara esbanja maturidade no posto de realizadora, numa condução firme (e elegante), à frente de um ensaio sobre o luto. Ensaio esse que tem Alessandra Maestrini em estado de graça no papel de uma cantora em ritual performático. Sua personagem acode (e acalanta) um homem (Eduardo Moreira) avassalado pela perda. A fotografia de Azul Serra decanta um chiaroscuro que traduz a incerteza entre aquilo que é metafísico (a passagem para o Além) e o que é terreno. Maestrini gravita em excessos (de risos, de canto, de ruídos) com a leveza de uma pluma, firmando-se como uma das atrizes de maior domínio do assombro humano em nosso rol de estrelas inquietas. É um curta que nos devasta, mas dá alento, apoiando-se na placidez de Moreira e da edição de Renato Vallone. Que “Ato” siga a voar.

p.s.: “No Labirinto do Cérebro” (Editora Objetiva), sucesso literário do neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, dedicado a suas experiências na Medicina, será transformado pela produtora Sonia Rodrigues em uma série documental de seis episódios, com estreia prevista para o primeiro semestre de 2022. Em uma ação de pré-lançamento, Sonia – filha do Shakespeare brasileiro, o dramaturgo Nelson Rodrigues – vai conversar com o Niemeyer Filho, num podcast homônimo ao livro, sobre numerosas vitórias das ciências médicas em casos extremamente difíceis, que nos emocionam e nos enchem de otimismo de forma arrebatadora. O lançamento de “No Labirinto do Cérebro”, online, será nesta quarta-feira, no Spotify e demais plataformas digitais, antecipando um pouco do clima da série que será lançada no ano que vem. A cada semana, um episódio inédito irá ao ar. Serão seis no total.

p.s.2: “A Menina Que Roubava Livros” é o novo espetáculo do Grupo Teatro Novo, que estreia no dia 5 de novembro, às 20h, no Teatro Municipal de Niterói, com apresentações também nos dias 6 e 7 de novembro (sempre às 18h). O espetáculo é baseado no texto original de Markus Zusak e tem como referência o filme dirigido por Brian Percival. A peça foi totalmente ensaiada de forma remota durante a pandemia. A direção do espetáculo é de Rubens Emerick Gripp e Cristina Guimarães. Todas as apresentações contam com intérprete de libras.

p.s.3: Até 23h59 desta quarta é possível conferir os filmes da Mostra Play (www.mostra.org). Dê uma atenção carinhosa a “Espírito Sagrado” (“Espiritu Sagrado”), de Chema García Ibarra (Espanha): Laureado com uma menção honrosa em Locarno, este exótico estudo sobre o fascínio com o espaço entorpece nossa percepção, no limiar da comédia rascante, ao falar sobre um conclave de ufólogos em uma cidadezinha nos confins da Península Ibérica onde o sumiço de uma menina revela um sinistro segredo.

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