Curso passa em revista a história do cinema paulista

Curso passa em revista a história do cinema paulista

Rodrigo Fonseca

20 Dezembro 2016 | 09h09

Carlos Reichenbach roda

Carlos Reichenbach nas locações de “Filme Demência”: o “Fausto” versão brasileira de um cineastas abordados no curso de Paulo Santos Lima, de terça a sexta no CineSesc

RODRIGO FONSECA
Na lista daqueles presentes que a gente ganha e nunca esquece, guardo até hoje uma fita VHS de O Dia da Coruja (1968), de Damiano Damiani, recebida como um regalo da amizade com Carlão Reichenbach (1945-2012), logo após uma sessão de seu Garotas do ABC (2003). Na ocasião, este mito da liberdade formal – contraventor às amarras do naturalismo – dizia com orgulho: “Em São Paulo, em matéria de cinema, acha-se de tudo, qualquer raridade… até Damiani… talvez porque aqui se filme de tudo, desde snuff até Mazzaropi”. Essa declaração do saudoso mestre ganha um colorido teórico quando se analisa o conteúdo de um curso obrigatório que começa nesta terça, no CineSesc, e vai até sexta, sempre das 19h às 21h30: Cinema Paulista: Uma Trajetória em Desenvolvimento, com jornalista e crítico Paulo Santos Lima, redator da revista Cinética. A obrigatoriedade do curso vem, em parte, pela originalidade na abordagem do quão fundamental o estado de maior potência industrial do país foi para a evolução e o desenvolvimento de nossas narrativas cinematográfica e, em parte, pelo fato de Santos Lima ser dono de um dos melhores (e mais provocativos) textos da crítica nacional desde os anos 2000. Na entrevista a seguir, ele traz reflexões sobre o papel de SP em nossas telas, apontando os nomes de maior peso, na produção cinematográfica atual, lá radicados hoje.

Qual seria a pedra fundamental do cinema paulistano clássico e qual o pilar do cinema moderno no estado, levando-se em conta, aqui, a mítica em torno do espírito neorrealista de O Grande Momento, de Roberto Santos?
PAULO SANTOS LIMA: A imagem colossal da metrópole de São Paulo é puro símbolo que convida a um olhar mais atento à realidade desse espaço, o que pode ser mais afinadamente visto nas experiências cinematográficas no ABC. Eu diria que, à parte o espírito neorrealista (neorrealista-afetivo) que há em O Grande Momento, de Roberto Santos, o que há no cinema paulista é uma espécie de neorrealismo-existencial-individualista. O grande cânone da era clássica estaria no já citado O Grande Momento, mas o filme que traduz uma certa tendência do cinema paulista está em O Cangaceiro, que aspira a uma qualidade de caráter universal, em paridade com o estrangeiro. O grande paradigma de cinema moderno paulista está em O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, mas o mais significativo estaria em São Paulo S.A., de Luís Sérgio Person, aliás, um típico filme sobre a crise do homem e do ideário desenvolvimentista do estado.

“O Grande Momento”: neorrealismo

Quais foram os grandes movimentos ou correntes estéticas que marcaram o cinema de São Paulo?
LIMA:
Não sendo um movimento, mas um momento, o cinema da Boca do Lixo é o que houve de mais forte na história da cinematografia de São Paulo. Ali houve um feliz encontro entre o cinema popular e a invenção, numa linha de produção “à brasileira”. Podemos citar, também, o neon-realismo dos anos 1980 e a experiência do Paraísos Artificiais, nos anos 1990, que seria o ideal de inventividade à parte de uma lógica mais “profissional” típica da história do cinema paulistano, e que estaria dentro da onda de curtas-metragens que marca a cinematografia paulistana até hoje. Algumas experiências marcantes estiveram, também, nos anos 1980, prosseguidas como forte diferencial no olhar sobre as coisas, como Ugo Giorgetti.

De que maneira o estado se articulou com acontecimentos como o Cinema Novo ou o Cinema Marginal?
LIMA: Sobre o Cinema Novo, São Paulo teve um cinema moderno, de Luís Sergio Person a José Mojica Marins e Ozualdo Candeias, mas não sintonizado à definição mais estrita da onda cinemanovista. Ironicamente, mais de década e meia depois, Leon Hirszman faria os excepcionais ABC da Greve e Eles Não Usam Black-Tie. Do Cinema Marginal, este sim, temos experiências mais relacionadas ao cinema de invenção dessa onda, com Rogério Sganzerla, Andrea Tonacci, José Agrippino de Paula e, a não esquecer, o hibridismo entre uma modernidade mais radical e o cinema popular da Boca na figura de Carlos Reichenbach, o cineasta que traçou referencialidades típicas da modernidade francesa dos 1960 com o senso libertário da Boca e a crise existencial do fim dos projetos políticos dos anos 1970.

“São Paulo S.A.”: era moderna

Quais seriam hoje as maiores expressões do cinema paulista em longa metragem?
LIMA:
Se entrasse média-metragem, Andrea Tonacci seria a primeira citação entre os “de hoje”. Alguns nomes estão em Helena Ignez, Juliana Rojas, Marco Dutra, Carlos Nader, Lincoln Péricles.