Cupido flecha Cannes: ‘Chronique d’une liaison…’

Cupido flecha Cannes: ‘Chronique d’une liaison…’

Rodrigo Fonseca

21 de maio de 2022 | 21h53

Sandrine Kiberlain e Vincent Macaigne levam a Croisette às gargalhadas em “Chronique d’une liaison passagère”, exibido na mostra Cannes Première

Rodrigo Fonseca
Sempre existe um lugar para o filão “querer bem” em Cannes, como visto em anos recentes com “Deixe a Luz do Sol Entrar”, de Claire Denis; “Belle Époque”, de Nicolas Bedos; “Quarto 212”, de Christophe Honoré; e coisas muito boas de Philippe Garrel, como “À Sombra de Duas Mulheres”. E, num sábado de 2022 de programação exemplar na Croisette, começando pelo deslumbrante “Three Thousand Years of Longing”, de George Miller, o festival francês foi flechado pelo Cupido ao longo da projeção de “Chronique d’une liaison passagère”. Que filme apaixonante Emmanuel Mouret nos trouxe, cerca de um ano e meio após a consagração de seu “Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait”. A desenvoltura dele no terreno da RomCom – a comédia romântica – é surpreendente, a se julgar pelo estilo de recorrente azedume de seus filmes. O que ele arranca de Sandrine Kiberlain e Vincent Macaigne evoca Meg Ryan e Tom Hanks em “Sintonia de Amor” (1993).
Barbudinho, taquicárdico, sem prumo em suas incertezas e falador, o obstetra Simón, vivido por Macaigne (em sua interpretação mais despojada e inventiva) é um ímã de gargalhadas. A gente ri de nervoso com as inseguranças dele ao conjugar o verbo “eu quero”. Na trama, ele, casado e pai, passa a arrastar um caminhão por uma mulher empoderada, mãe solteira e cheia de certezas chamada Charlotte, interpretada pela campeã de bilheteria Kiberlain. Durante a sessão do longa-metragem na mostra Cannes Première, o Palais des Festivals vinha abaixo de rir com os dois. O título – “Chronique d’une liaison passagère” – traduz um acordo que os dois travam para transarem sem culpa: vai ser passageiro. Deveria. Mas, não é. E a delicadeza com que Mouret, à direção, explora o modo nada barthesiano com que o discurso amoroso se fragmenta é envolvente.

Emmanuel Mouret em foto de © Xavier Lambours

Em 2021, ele reinou nas indicações ao César. O Oscar à francesa é entregue desde 1976 pela Académie des Arts et Techniques du Cinéma, nos mesmos moldes da Academia de Hollywood. Trata-se de um troféu de bronze estimado em cerca de € 1,5 mil, batizado com o nome de seu escultor, César Baldaccini (1921-1998), artesão do Nouveau Réalisme europeu. Mouret brigou por esse troféu em várias frentes ao se apoiar na tese de que a paixão é um analgésico para as dores do mundo, expressa no drama “Les choses qu’on dit, les choses qu’on fait”. Sua narrativa mostra o encontro inesperado entre dois jovens que se apaixonam, mesmo ela já estando envolvida com um outro homem, de quem está grávida.
“O cinema passou seus últimos 126 anos ensinando pra gente como amar, criando modelos, nos quais ora se fala muito, ora se cultiva a introspecção. Os filmes modificaram comportamentos ao longo de toda uma tradição de romantismo nas telas, em que a França foi muito ativa, sob muitas perspectivas distintas. Não sei o que entendo do amor, mas tentei construir um filme que abrisse uma janela para essa nossa linhagem de afetividades e que buscasse um estudo sobre o desejo”, disse Mouret ao Estadão em entrevista via Zoom durante o Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, em janeiro – um evento do governo de seu país para a promoção de seus longas mundo afora. “Qual é o limite entre uma atração e um querer genuíno? Essa é a questão que me move. A maneira como o cinema afetou a realidade consciente que vivemos me faz pensar que não há apenas sexo envolvido na aproximação entre duas pessoas, há um sentimento de pertença, um carinho”.

Em outras latitudes cannoises, falta musculatura ao esqueleto da seção Un Certain Regard de 2022, sem nada que se equipare a “Lamb”, pérola islandesa que por lá pintou no ano passado, com Noomi Rapace, hoje em cartaz na MUBI. Igualmente quente na UCR de 2021 era “Great Freedom”, de Sbastian Meise, também no www.mubi.com. Mas já começam a pintar coisas vívidas e lívidas nessa seleção este ano, em que a atriz e diretora italiana Valeria Golino é a presidente de seu júri. Uma das melhores atrações vistas no cardápio dessa mostra, que pode ser traduzida como Um Certo Olhar, é “Corsage”, de Marie Kreutzer (Áustria). Cada vez mais gigante em cena, a cada novo filme, a luxemburguesa Vicky Krieps, revelada em “Trama Fantasma” (2017), encarna a imperatriz Elisabeth da Áustria (1837-1898), apelidada de Sissi, como um espírito inquieto que encara xenofobias e ilusões afetivas em busca do desejo de afirmação. A direção de arte de Monika Buttinger estonteia, galvanizada pela luz da fotografia de Judith Kaufmann.
O Festival de Cannes segue até 28 de maio, com o ator Vincent Lindon na presidência do júri da disputa pela Palma de Ouro de Cannes, cujo filme mais potente, até agora, é o romeno “R.M.N.”, de Cristian Mungiu, sobre uma série de intolerâncias (raciais e profissionais) na Transilvânia, frente a um fluxo migratório.

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