‘Crown Vic’ dá carona a Tribeca

‘Crown Vic’ dá carona a Tribeca

Rodrigo Fonseca

09 de junho de 2021 | 11h43

Thomas Jane vive um policial na margem da Lei em “Crown Vic”


RODRIGO FONSECA

Criado para celebrar a resiliência do povo nova-iorquino após a tragédia do 11 de Setembro, o Festival de Tribeca vai abrir as portas de sua edição 2021 nesta quarta, com a première mundial de “Em um Bairro de Nova York” (“In the Heights”), musical de Jon M. Chu. A programação deste ano, agendada até 20 de junho, conta com uma seleção de 66 filmes inéditos de 23 países, pilotados por 83 cineastas (uma vez que muitos títulos foram rodados em dupla ou trio). Seu principal chamariz é o thriller “Nem Um Passo Em Falso” (“No Sudden Move”), com a grife do diretor Steven Soderbergh (Palma de Ouro 1989 por “sexo, mentiras e videotape”), somando o talento de Benicio Del Toro com o de Don Cheadle, no elenco. Na trama, um grupo de criminosos precisa unir forças para encobrir uma falcatrua. Tribeca é doida por enredos de timbre policial, como se vê em “Crown Vic”, o grande filme de sua seleção em 2019, até hoje inédito em nossas telonas.

Comparado a cults como “Sérpico” (1975), “Crown Vic” dá uma injeção de ânimo nas veias na dramaturgia policial, apoiado na tarimba do ator Alec Baldwin como produtor. A direção é de Joel Souza. Aclamado na TV pela série “30 Rock” e na telona por longas como “Simplesmente complicado” (2009), Baldwin não atua em “Crown Vic”: ele só viabilizou os recursos para o projeto. Na trama, Thomas Jane (do cult “O nevoeiro”) vive um policial alheio às normas de conduta oficiais, Ray Mandel. Durante uma noite de patrulha com um novato, Nick (Luke Kleintank), Ray resolve se vingar dos homens que mataram seu parceiro. Mas vai desrespeitar uma série de normas para isso. “Saí das filmagens com a certeza de que devo ser mais tolerante com a polícia caso algum guarda venha a me multar no trânsito”, brincou Jane em Tribeca.

Amparado em um roteiro impecável, “Crown Vic” atropela vários tabus da correção política, mas humaniza seu protagonista, relativizando a noção de heroísmo.

Outro destaque de Tribeca, em anos recentes, é a delicada produção catalã “Vera”, de Laura Rubirola, com a diva chilena Paulina García no papel de uma faxineira fã de música clássica que vive um momento de alumbramento com Vivaldi. Da competição americana, merece aplausos a comédia de erros “12 Hour Shift”, da diretora Bea Grant, produzida por David Arquette, pautado por um show de atuação de Angela Bettis no papel de uma enfermeira envolvida em roubo de órgãos. Vale uma atenção ainda “Sweet Thing”, de Alexandre Rockwell, sobre uma adolescente às voltas com um pai pinguço e uma mãe sem compromissos com o afeto filial.

Da seleção deste ano, merece atenção “Queen of Glory”, de Nana Mensah. Abrilhantada por uma direção de arte refinadíssima, esta dramédia é um estudo sobre choque entre culturas (sobretudo na triste herança do sexismo) e uma exortação à harmonia familiar. No enredo, uma estudante de pós-doutorado do Bronx quer deixar NY e ir para Ohio para perseguir seu amante, mas recebe a notícia de que herdou a livraria evangélica de sua mãe, uma imigrante de Gana. Ela não pode deixar a loja sem cuidar do funcionário mais querido daquele empório, um ex-condenado (interpretado por Meeko com inteligência e humor). O roteiro constrói uma crônica sagaz de boas maneiras. A direção da fotografia apela para elementos de gramática documental, criando um ensaio realista particular sobre Nova York.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.