Crô e o riso que não cabe

Crô e o riso que não cabe

Rodrigo Fonseca

28 de setembro de 2020 | 10h00

Marcelo Serrado entrou para a História do Audiovisual no Brasil como Crô

Rodrigo Fonseca
Tem cinema brasileiro… e dos mais descontraídos… na “Sessão da Tarde” desta segunda, pra abrir a semana no alto astral de Crodoaldo Valério. Leitora assídua do P de Pop, a advogada Luciana da Silva de Castro sempre nos escreve a perguntar: “Saltito ao ver o Crô na TV, pois acho o Marcelo Serrado um gênio. Quando passa o filme do Crô na TV?”. Taí, Dona Luciana, o sorriso que faltava à sua cinefilia: às 15h, a Globo exibe “Crô em Família” (2018), na esteira da recente (e bem-sucedida) exibição da novela “Fina Estampa”. Há quem discuta, hoje, um certo tom de caricatura na figura do personagem. E há que se respeitar essa crítica, e transformá-la em debate, mas sem deixar de se valorizar a representação de Serrado, que conquistou para si uma legião de fãs, como a Sra. Castro, que sempre prestigia este blog.
É difícil segurar o riso neste longa-metragem sobre Crodoaldo, que nos remete ao cult cômico do diretor Frank Tashlin, com Jerry Lewis, “The disorderly orderly” (aqui “O bagunceiro arrumadinho”). A analogia com ele se dá pela impressionante variável de gags físicas que Serrado (num momento de maturidade profissional plena) oferece à figura de Crô. Maior achado da novela “Fina estampa” (2011), o ex-mordomo, hoje empresário do ensino de etiqueta e moda, volta às telonas após um sucesso de bilheteria de 2013 (então dirigido por Bruno Barreto), consolidando-se como um dos personagens de maior viço e longevidade de nosso audiovisual. A premissa deste segundo filme protagonizado por ele é das mais simples: como você agiria se fosse apresentado a seus pais e irmãos biológico já na idade adulta? Mas o depurado carisma de Serrado basta para tornar esta trama, calcada na leveza e na rapidez, um ligeiro, mas sólido entretenimento. Existe algo mais (na ordem dos afetos e na ordem estética) no projeto, pilotado pela diretora Cininha de Paula (atenta às tiradas cômicas metralhadas por Serrado). Em cena, temos um clã de espertalhões que se faz passar pela família de Crô, mas os amigos dele vão protege-lo do golpe. O acerto maior desta trama, baseada no universo de Aguinaldo Silva, é a maneira como o roteiro tira Crô do âmbito de clown para fazê-lo galgar dimensões mais emotivas, doídas. Dimensões essas valorizadas nos enquadramentos da fotografia de Silvia Gangemi e Dante Belluti, inspirados no corpo a corpo com a paleta de cores almodovarianas desta comédia prazerosa.

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