Cristiane Oliveira na MUBI, no mundo

Cristiane Oliveira na MUBI, no mundo

Rodrigo Fonseca

29 de abril de 2021 | 14h53

Letícia Kacperski em “A Primeira Morte de Joana”, exibido em Goa e premiado na Califórnia

Rodrigo Fonseca
Berlim aplaudiu de pé “Mulher do Pai”, filme que deu à cineasta gaúcha Cristiane Oliveira o prêmio de melhor direção no Festival do Rio 2016, e agora se reinventa noutro espaço de contemplação: a MUBI, a plataforma digital de curadoria humanizada da streaminguesfera. Ao lado de longas de Wong Kar Wai, de Agnès Varda, de Spike Lee, Márta Mészáros e de Olivier Assayas, no www.mubi.com, a história da reeducação sentimental da adolescente Nalu (Maria Galant), cheia de conflitos com seu pai cego (Marat Descartes), parece se agigantar, apontando uma vocação autoral em sua realizadora, num diálogo com os curtas dela, como “Messalina” (2004) e “Hóspedes” (2009). Na capital alemã, onde CO brigou pelo Urso de Cristal, a Berlinale reverenciou a delicada fotografia de Heloísa Passos, laureada com o troféu Redentor do já citado Festival do RJ, assim como a atriz Verónica Perrotta, ganhadora do prêmio de melhor coadjuvante da maratona cinéfila carioca. A estrada de sucesso que Cristiane alcançou ali parece se repetir em seu novo longa “A Primeira Morte de Joana”, exibido em janeiro no 51º Festival Internacional da Índia, em Goa. No dia 17 de abril, a produção conquistou o Global Vision Award no Festival Cinequest, nos EUA. Esse drama tem mais cinco vitrines audiovisuais confirmadas, sendo que duas delas já foram anunciadas: o 22º Festival Internacional Junior de Estocolmo (Suécia) e o 23º OUTshine LGBTQ+ Film Festival (também nos EUA, em Miami). No roteiro, escrito por Cristiane e pela atriz Sílvia Lourenço, Joana, 13 anos, quer descobrir por que sua tia-avó faleceu aos 70 sem nunca ter namorado alguém. Ao encarar os valores da comunidade em que vive no sul do Brasil, percebe que todas as mulheres da sua família guardam segredos, o que traz à tona algo escondido nela mesma.

A diretora Cristiane Oliveira em foto de @Gustavo Galvão

Na entrevista a seguir, a cineasta das representações em que seu cinema aposta, lembrando que “Mulher do Pai” pode ser visto nas plataformas iTunes e Mowies.
Qual é o recorte da condição feminina que “A Primeira Morte de Joana” traz e como ele conversa com a representação de juventude de “Mulher do Pai”, cuja protagonista é uma adolescente?
Cristiane Oliveira:
Pelo olhar da protagonista Joana, de 13 anos, vemos um recorte da intimidade de três gerações de sua família de mulheres. Cada uma das personagens representa um olhar distinto sobre opressões diversas que sofremos na nossa formação. Acho que esse filme dialoga com o longa anterior no aspecto da construção da autonomia. Mas, enquanto em “Mulher do Pai”, essa necessidade era imposta à protagonista por eventos externos, em “A Primeira Morte de Joana”, temos uma protagonista mais combativa, que quer poder se expressar naturalmente, de acordo com sentimentos próprios, que vai descobrindo ao longo de sua jornada.

O que uma atriz aclamada como a Sílvia Lourenço agrega pra tua dramaturgia, assinando o roteiro com você?
Cristiane Oliveira:
Além de atriz reconhecida, vinda de filmes como “Contra Todos” e “O Homem das Multidões”, Silvia tem experiência como roteirista e curadora. Sua trajetória demonstra uma série de sensibilidades que agregaram muito para o processo de criação. Ela participou desde a primeira versão do roteiro; a partir dele, compartilhamos experiências pessoais, que inspiraram o desenvolvimento das personagens do filme, e, juntas, reescrevemos o roteiro. Acredito que, num determinado momento, o ator sabe mais do personagem que o próprio diretor, pois eles são formados para esse olhar afiado sobre a condição humana. E, para mim, como diretora e roteirista, poder ter uma atriz como parceira desde o início foi muito especial.

O que a migração de um filme como “Mulher do Pai” para um streaming de autoras e autores como a MUBI representa para a cadeia de um cinema independente sul-americano? De que modo um filme concebido para as dimensões agigantadas de uma telona se comporta no streaming?
Cristiane Oliveira:
Gosto muito do trabalho de curadoria da MUBI. Seu acervo é impressionante, por isso fiquei muito feliz de ter o “Mulher do Pai” selecionado pela plataforma. Fico na torcida que os streamings percebam cada vez mais a importância de investir na cinematografia local dos territórios em que se estabelecem. Não apenas como vitrines que ajudam a manter os filmes vivos, mas como parceiros efetivos para a produção de novas obras. Um filme concebido para a tela grande pode perder muito impacto na tela pequena, afinal é outra técnica de recepção. Apesar de eu ser uma consumidora de streaming, sinto muita falta da sala de cinema. No entanto, em especial neste momento, em que o isolamento se faz necessário, foi ótimo ganhar mais esse espaço na trajetória do filme.

p.s: Tem Brasil na mostra New Directors/New Films, do Lincoln Center – Museum of Modern Art, de Nova York, onde será exibido “Madalena”, de Madiano Marcheti, uma das sensações do último Festival de Roterdã. Erigido a partir de uma delicadíssima montagem, esta produção do Centro-Oeste, rodada em Dourados, incorpora o esplendor natural de sua “arena” dramatúrgica desde a primeira sequência, onde a beleza contrasta com a violência: o corpo de uma mulher trans foi encontrado em campos de soja. Mais adiante, o espírito dela parece flanar por aquela geografia verde, numa representação metafísica do horror diante da transfobia. Embalada por uma onipresente sensação de tensão, nunca taquicárdica, mas viva, a narrativa se constrói a partir de uma figura ausente: é a descoberta do cadáver de Madalena que detona a inquietação dos três protagonistas, Luziane (Natália Mazarim), Bianca (Pamella Yule, em fina atuação) e Cristiano (Rafael de Bona), que não têm conexões entre si, egressos de realidades socioculturais diferentes.

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