‘Creed’ na TV: a resiliência vence por nocaute

‘Creed’ na TV: a resiliência vence por nocaute

Rodrigo Fonseca

10 de junho de 2020 | 10h29

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
Em busca por um filmaço capaz de estimular o #FiqueEmCasa nesta 40ena, na véspera do feriado de Corpus Christi, a TV Globo escalou uma produção que, de certa forma, passa sua própria história com o cinema em revista: “Creed: Nascido Para Lutar” (2015). Em 1988, quando a “Tela Quente” foi inaugurada, a emissora carioca abriu os caminhos do sucesso para sua mais famosa sessão de longas-metragens com “Os Caçadores da Arca Perdida” (1981), com “Annie Hall – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977) e, como terceira atração, verio “Rocky III – O Desafio Supremo” (1983), consolidando a vocação para astro popular de Michael Sylvester Gardenzio Stallone, hoje com 73 anos. À época, André Filho era seu dublador. Naquele mesmo ano foi exibido “Rambo II – A Missão”, logo após a novela das 20h, com igual êxito. Esta noite, antenado ao urgente combate antirracista, a emissora carioca exibe, em rede nacional, no seu “Cinema Especial” das quartas-feiras, a saga do pugilista Adonis Creed, pupilo de Balboa, vivido brilhantemente por Michael B. Jordan, com Renan Freitas dublando o jovem astro. E Stallone vai estar lá, agora na voz de Luiz Feier Motta, seu dublador desde 1994. É uma trama derivada da saga de Rocky, que custou US$ 35 milhões e faturou US$ 173 milhões, catapultando Jordan para fama e consagrando o talento do diretor Ryan Coogler, que, na sequência, emplacou o fenômeno “Pantera Negra” (2018). Vale um lembrete: a edição do longa conta com o talento da montadora carioca Claudia Castello. Em paralelo, na web, Sly, apelido do ator ítalo-americano, e seu personagem mais famoso, ganham uma sobrevivda com a exibição online de “Becoming Rocky – The Birth of a Legend”, documentário de Derek Wayne Johnson. A produção resgata a mítica do boxador, criado há quatro décadas. Ela está disponível desde terça no iTunes, na Appel TV, na Amazon e no site becomingrocky.com.
“O primeiro ‘Rocky’ traz uma das cenas mais emblemáticas de redenção da História: no round 14, quando Rocky cai, todo mundo diz para ele continuar no chão, para não levantar, de tanto que se machucou, mas ele fica de pé, e clama por mais uma chance”, diz Derek ao P de Pop. “Minha vida não teria sido a mesma sem essa cena. É um exemplo de superação que torna Balboa um personagem inesquecível”.

Probabilidades, esta é a palavra que mais interessa ao olhar de cineasta de Ryan Kyle Coogler, americano nascido na Califórnia há 34 anos que alcançou notoriedade ao sair de Sundance com o Grande Prêmio do Júri por “Fruitvale Station: A Última Parada”, em 2013. Há cinco anos, ele galgou o panteão de Hollywood ao lançar o motivacional drama esportivo “Creed – Nascido para Lutar”. Alguns chamam o filme de “Rocky 7”, uma vez que ele traz de volta o Garanhão Italiano, Balboa. Mas o personagem volta aqui com um tônus dramático nunca apresentado antes, visto que seu intérprete, Stallone, hoje septuagenário, usa cada ferramenta gestual que tem para transcender. O papel deu a ele o Globo de Ouro de melhor coadjuvante e uma indicação ao Oscar. Mas seria injusto dar ao longa o nome de Rocky, mesmo que ele nos leve às lágrimas mais de uma vez, pois a estrela maior é o próprio cineasta, em um impecável exercício de autoralidade. Como em seu longa anterior, centrado nas horas finais de um jovem vítima do racismo, Coogler se detém sobre situações prováveis, sobre escolhas e suas consequências, mas isso sempre à luz da discussão da exclusão social. E, em ambos, o protagonista é o mesmo, o perseverante Jordan.

Agrilhoado ao factual, “Frutirvale Station” (laureado também em Cannes) era uma pensata de timbres semidocumentais sobre o que poderia ter sido da vida de uma vítima do preconceito se ele não tivesse estado em uma estação ferroviária na hora de um tumulto. É dramaturgia de digressões. Como ele poderia ter sido feliz por mais tempo? Como ele poderia ter um novo caminho? Menos digressivo, “Creed” também se pauta por perguntas. O que teria sido de Adonis (Jordan, numa atuação exemplar) se ele tivesse se conformado com o conforto familiar de sua tutora, a viúva de seu pai, Apollo (Carl Weathers), e recusado a centelha guerreira em seu sangue? O que teria sido de jornada se a inquietude frente às ausências e carências de sua infância pobre, antes da adoção, fossem menores? Como teria sido a experiência de abraçar Apollo?

Cada uma das hipóteses vão sendo respondidas a socos, não dos adversários de ringue, mas da vida, que prega uma peça no jovem lutador a cada opção tomada, a cada decisão. E o roteiro de Aaron Covington e Coogler sustenta esse espancamento pelos dilemas do verbo viver com uma estrutura mais preocupada com o drama e desenvolvimento emocional de Adonis do que com a violência. Esta se faz presente nas lutas numa forma isenta de juízos acusatórios. Há adrenalina aos litros, cativando a plateia.

Coogler filma com um requinte de linguagem raro, digno do esmero fabular do longa original, de 1976, graças à mão refinada de John G. Avildsen. Aqui, Coogler incorpora elementos do jornalismo esportivo, com vinhetas, comentários, grafismos digitais, dando um dinamismo à montagem que eleva a dimensão de espetáculo deste conto sobre resiliência. Mas nada em cena se equipara a dinâmica de Stallone, num esforço de converter o arquétipo do animal selvagem ferido pelas mazelas do dia a dia no arquétipo do sábio, que acolhe e ensina. Há uma atenção especial do diretor com as atrizes Tessa Thompson (como Bianca, o alvo do amor romântico de Adonis) e (a ótima) Phylicia Rashad, que vive May Anne (a viúva de Apollo), têm espaço em cena para escavarem complexidade para suas personagens. Na transmissão dublada do longa, Mariana Torres esbanja poesia dublando Bianca. Vânia Alexandre desfila experiência como a voz de Mary Anne.

Na revista “Variety”, o crítico Owen Gleiberman elogia, em sua resenha, a discrição que marca a interpretação de Balboa, 44 anos depois do lançamento de “Rocky, um lutador”, produção de US$ 960 mil que arracadou US$ 225 milhões e ganhou os Oscars de melhor filme, direção (para John G. Avildsen) e montagem. Segundo Gleiberman, Stallona usa “um resmungo sincronizado e um brilho no olhar mais poderoso do que suas palavras”.
Um dos mais ferinos críticos dos EUA hoje, A. O. Scott, do “The New York Times” afirma que “a retomada da franquia ‘Rocky’, focada nos dilemas e triunfos de Adonis Creed, representa a única série cinematográfica de heróis digna de atenção hoje”, elogiando o trabalho de Steven Caple Jr. na direção – ele herdou o projeto de seu colega de universidade Ryan Coogler. “Os momentos de dor, de humor e de intimidade tornam ‘Creed 2’, uma experiência sólida e satisfatória”, escreve Scott, destacando a colaboração de Stallone no roteiro do segundo longa da nova franquia, que custou US$ 50 milhões e arrecadou US$ 214 milhões.
Prepare as lágrimas pra esta noite.

p.s.: Nesta quinta, às 18h, o Instituto Estação das Letras ministra, voa zoom a roda de leitura Encontro com Clarice Lispector, com Hena Lemgruber e José Castello. Mais info? Mande email pra iel@estacaodasletras.com.br.

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