‘Creed’ na Globo: Rocky vai à ‘Tela Quente’

‘Creed’ na Globo: Rocky vai à ‘Tela Quente’

Rodrigo Fonseca

18 de outubro de 2019 | 15h01


Rodrigo Fonseca
Às 22h15 da próxima segunda-feira, dia 21 de outubro, Rocky Balboa volta à “Tela Quente”, a sessão que o consagrou em 1988 e 1994, com as sessões das partes III, IV e V de sua franquia, mas agora como coadjuvante para Adonis Creed, vivido por Michael B. Jordan. A Globo exibe a versão dublada de “Creed”, fenômeno de bilheteria que custou US$ 35 milhões e faturou US$ 173,5 milhões, na estreia da carreira de Sylvester Stallone, em circuito, com “Rambo: Até o fim”. Este já vendeu cerca de 800 mil ingressos no Brasil. A aparição do astro na sessão de filmes mais popular da TV aberta brasileira pode dar uma forcinha à carreira de John Rambo, fustigada por críticas negativas abusivas. Mas para Creed e o velho Rocky os críticos sorriram. O sétimo longa-metragem da linhagem Balboa, de 2015, rendeu a Sly o Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar. Com tanto sucesso, ele teve uma parte II lançada aqui em janeiro: a sequência orçada em US$ 50 milhões faturou US$ 214 milhões. Ambos os “Creed” deram um gás à linhagem do pugilismo no cinema.
Seja pela vetorialidade inerente ao movimento dos atletas, seja pela dramaturgia intrínseca às competições, o esporte fascina o cinema desde que este era ainda um bebê, com um aninho, quando Birt Acres dirigiu “Boxing Match, or Glove Contest” (1896), documentário sobre o pugilismo. A ficção entraria no ringue esportivo em 1913, falando de corridas de carro na comédia “The Speed Kings”, de Wilfred Lucas, com Fatty Arbuckle. Já nas primeiras páginas do Livro de Gênenis da cena audiovisual é possível notar que o boxe se destacou, em quantidade e qualidade, por servir como uma ponte direta entre as inquietações sociais herdadas do século XIX (mediadas já pelo marxismo) por sua conexão entre violência e exclusão financeira, servindo de matéria-prima para a consolidação de heróis do rendimento, figuras desvalidas pelo Capital que vencem às custas de seu suor. Neles, a persistência é a maior virtude. E, sob essa lógica, nenhum símbolo heroico alcançou tamanha notoriedade (e, talvez, perfeição) do que Rocky Balboa, personagem lançado em 1976, no drama “Rocky, um Lutador”, de John G. Avildsen, e que retornou em 2015, recauchutado, mas ainda dolorido, em “Creed: Nascido para Lutar”, de Ryan Coogler, quase rendendo a Sylvester Gardenzio Stallone um (necessário) Oscar de melhor ator coadjuvante.
Para a indústria, o longa atestou o toque de Midas da franquia, que, nos seis títulos anteriores, contabilizou US$ 901 milhões pelo mundo. E esses números serão multiplicados se comparados aos derivados (livros, games, camisetas) gerados com a figura de Rocky, que se estabeleceu não apenas como um mito da luta de classes, mas como símbolo dos contos de fadas realistas dos anos 1970 e sua rebeldia easy rider de revisionismo político. E aqui, há um tônus autoral a mais pela aguda sensibilidade de seu realizador, especialista nos estudos de hipóteses de inclusão e resquícios de invisibilidade.

“Probabilidade” é a palavra que mais interessa ao olhar de Coogler, americano nascido na Califórnia há 29 anos que ganhou notoriedade com “Fruitvale Station” em 2013 e se destacou com uma espécie de novo Spike Lee (menos feroz, porém mais lúcido), tendo como parceira de criação a montadoras brasileira Claudia Castello. Assim como fez em seu longa anterior, centrado nas horas finais de um jovem vítima do racismo, o diretor se detém sobre situações prováveis – escolhas e suas consequências – sempre no esforço de por em debate o abandono do indivíduo pelo Estado (ou pela sorte). E, em ambos, o protagonista é o mesmo, o perseverante Michael B. Jordan, aqui no papel de Adonis, filho do finado boxeador Apollo “Doutrinador” Creed (Carl Weathers). O que se vê de diferença é que Adonis não é um negro agrilhoado à pobreza: miserável de berço, por ser fruto de uma relação extraconjugal de seu pai, ele subiu de vida após ser adotado pela viúva de Apollo, que lhe ofereceu conforto, estudos e carinho. Mas tudo isso é pouco pelo bicho que mora no peito dele. Um bicho com fome de bater e vencer lutas, que ele vai alimentar com as lições do Seu Balboa, velhinho quase septuagenário a quem vai recorrer para ter um treinamento à altura da “doutrina” de seu velho. Foi Apollo quem treinou Rocky quando este caiu em desgraça nas mãos do carniceiro Clubber Lang (Mr. T). É hora de Balboa retribuir, em sequências que dão a Stallone tempo e espaço para expor fragilidades existenciais, depurando um talento subestimado e achincalhado ao longo de décadas de muita Framboesa de Ouro.
Numa atuação magistral, Stallone ajuda Coogler a amplificar sua investigação habitual. Agrilhoado ao factual, “Fruitvale Station” era uma pensata de timbres semidocumentais sobre o que poderia ter sido da vida de uma vítima do preconceito econômico se ele não tivesse estado em uma estação ferroviária na hora de um tumulto. É dramaturgia de digressões. Como ele poderia ter sido feliz por mais tempo? Como ele poderia ter um novo caminho? Menos digressivo, Creed também se pauta por perguntas. O que teria sido de Adonis (Jordan, numa atuação exemplar) se ele tivesse se conformado com o conforto familiar de sua tutora, a viúva de seu pai, Apollo (Carl Weathers), e recusado a centelha guerreira em seu sangue? O que teria sido de jornada se a inquietude frente às ausências e carências de sua infância pobre, antes da adoção, fossem menores? Como teria sido a experiência de abraçar Apollo? As hipóteses vão sendo respondidas a socos, não dos adversários de ringue, mas do protocolo cotidiano do verbo “viver”, que prega uma peça no jovem lutador a cada opção tomada, a cada decisão, sempre alimentada pelo instinto herdado do pai. Nesse ponto, a autoria de Coogler e a de Stallone se confundem, pois, como diretor e produtor, o velho Sly se fez artista discutindo, filme a filme, a centelha quase animalesca que mantém guerreiros presos ao combate, não importa a idade, não importa o risco. Era essa o assunto de todos os episódios da cinessérie “Rambo”, sobretudo o IV, de 2008, e de “Rocky Balboa” (2006), além de ser um elemento na franquia “Os Mercenários”, na qual o astro deu um gás à tradição do cinema movido a adrenalina.
Em “Creed”, o roteiro de Aaron Covington e Coogler sustenta o espancamento de que Adonis (dublado com brilhantismo por Renan Freitas) é vítima com uma estrutura mais preocupada com o drama e desenvolvimento emocional de seu protagonista do que com a brutalidade. Esta se faz presente nas lutas numa forma isenta de juízos acusatórios. Graças à montagem de Claudia Castello, há tensão aos litros, cativando a plateia, mas a quantidade de lágrimas, em mililitros, é equivalente à selvageria dos combates.
Mais do que isso, há um esmero raro de linguagem, coisa que raras vezes a franquia “Rocky” teve, apesar de todo o esmero fabular do longa original, de 1976, graças à mão refinada de John G. Avildsen. Aqui, Coogler incorpora elementos do jornalismo esportivo, com vinhetas, comentários, grafismos digitais, dando um dinamismo à montagem que eleva a dimensão de espetáculo da narrativa. Mas nada em cena se equipara à dinâmica de Stallone, num esforço de converter o arquétipo do animal selvagem ferido pelas mazelas do dia a dia no do sábio, que acolhe e ensina. O desempenho de Luiz Feier Motta, dublando o grisalho Stallone, beira o memorável.
Atualmente envolvida com o Universo Marvel, no papel de Valquíria, Tessa Thompson rouba “Creed” pra si, em vários momentos, no papel da cantora Bianca.

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