‘Creed’ chega à TV e confirma a eternidade de Rocky

‘Creed’ chega à TV e confirma a eternidade de Rocky

Rodrigo Fonseca

28 de fevereiro de 2017 | 10h57

“Creed – Nascido para Lutar”: HBO e Max

RODRIGO FONSECA
Escalado para repetir o papel do especialista em prisões Ray Brelin na sequência de Plano de Fuga (2013), Sylvester Stallone arrumou pra si um novo – cativo – e dublado cantinho na TV, com a entrada de Creed – Nascido para Lutar na programação dos canais a cabo. Tem sessão dele nesta Quarta-Feira de Cinzas, às 15h45 e às 22h nas emissoras da grife HBO. Quem dá a voz a ele no Brasil é um dos mais prolíficos (e inventivos) dubladores do país: Luiz Feier Motta.

E há muito (sempre) a dizer sobre este belo filme, dirigido por Ryan Coogler.
Probabilidades, esta é a palavra que mais interessa ao olhar desse cineasta americano nascido na Califórnia há 29 anos, que ganhou notoriedade com Fruitvale Station em 2013. Em 2015, ele galgou o panteão de Hollywood com o fenomenal Creed – Nascido para Lutar. Alguns chamam o filme de Rocky 7, uma vez que ele traz de volta o Garanhão Italiano, Balboa. Mas o personagem volta aqui com um vigor dramático como o pugilista nunca apresentara antes, visto que seu intérprete, Sylvester Stallone, hoje um septuagenário, usa cada ferramenta gestual que tem para transcender suas limitações. E seria injusto dar ao longa-metragem o nome de seu coadjuvante, mesmo que ele nos leve às lágrimas mais de uma vez, pois a estrela maior é o próprio cineasta, num exercício de autoralidade explícita. Como em seu longa anterior, centrado nas horas finais de um jovem vítima do racismo, Coogler se detém sobre situações prováveis, sobre escolhas e suas consequências, mas isso sempre à luz da discussão da exclusão social. E, em ambos, o protagonista é o mesmo, o perseverante Michael B. Jordan.

Agrilhoado ao factual, Frutivale Station era uma pensata de timbres semidocumentais sobre o que poderia ter sido da vida de uma vítima do preconceito econômico se ele não tivesse estado em uma estação ferroviária na hora de um tumulto. É dramaturgia de digressões. Como ele poderia ter sido feliz por mais tempo? Como ele poderia ter um novo caminho? Menos digressivo, Creed também se pauta por perguntas. O que teria sido de Adonis (Jordan, numa atuação exemplar) se ele tivesse se conformado com o conforto familiar de sua tutora, a viúva de seu pai, Apollo (Carl Weathers), e recusado a centelha guerreira em seu sangue? O que teria sido de jornada se a inquietude frente às ausências e carências de sua infância pobre, antes da adoção,  fossem menores? Como teria sido a experiência de abraçar Apollo?

As hipóteses vão sendo respondidos a socos, não dos adversários de ringue, mas da vida, que prega uma peça no jovem lutador a cada opção tomada, a cada decisão. E o roteiro de Aaron Covington e Coogler sustenta esse espancamento pelos dilemas do verbo viver com uma estrutura mais preocupada com o drama e desenvolvimento emocional de Adonis do que com a violência. Esta se faz presente nas lutas numa forma isenta de juízos acusatórios. Há adrenalina aos litros, cativando a plateia na edição, assinada pela carioca Cláudia Castello em parceria com Micahel P. Sahwyer.

Mais do que isso, há linguagem, coisa que raras vezes a franquia Rocky teve, apesar de todo o esmero fabular do longa original, de 1976, graças à mão refinada de John G. Avildsen. Aqui, Coogler incorpora elementos do jornalismo esportivo, com vinhetas, comentários, grafismos digitais, dando um dinamismo à montagem que eleva a dimensão de espetáculo desta produção de US$ 35 milhões. Mas nada em cena se equipara a dinâmica de Stallone, num esforço de converter o arquétipo do animal selvagem ferido pelas mazelas do dia a dia no arquétipo do sábio, que acolhe e ensina.

A beleza de Creed se articula com uma comemoração histórica para o pop: os 40 anos de Rocky, Um Lutador (1976). Em nome da celebração desse aniversário, num misto de genealogia da moral cinéfila com reflexão antropológica, um par de documentários relacionados à figura do pugilista Rocky Balboa revivem um trecho pouco analisado do cinema americano dos anos 1970 – tempo da chamada Nova Hollywood ou Easy Rider Generation – no qual valores e virtudes da era clássica dos EUA nas telas voltam à tona, contrariando o turbilhão contracultural, quase sempre de esquerda, do início daquela década. Ambos dirigidos por Derek Wayne Johnson, os dois filmes em questão são The King of Underdogs e 40th Years of Rocky – The Birth of a Classic. O segundo explica-se pelo título: bastidores do sucesso de 1976, que deu aos contos de fada uma dimensão social, numa espécie de Cinderela de luvas de boxe. Já o primeiro é uma investigação sobre a trajetória de sucessos de John G. Avildsen, o diretor que transformou Sylvester Stallone em astro e que faria ainda a franquia Karate Kid, outro marco da cultura pop. O primeiro fez sua estreia em janeiro no Festival de Santa Bárbara.