Costa-Gavras volta a inflamar o circuito nacional

Costa-Gavras volta a inflamar o circuito nacional

Rodrigo Fonseca

17 de agosto de 2021 | 07h49

Costa-Gavras está de volta às telas brasileiras, com “Adults in The Room”

Rodrigo Fonseca
Custou… custou muito… mas, enfim, Costa-Gavras voltou ao convívio dos cinéfilos nacionais: o imperdível “Jogo do Poder”, rodado pelo diretor franco-grego de 88 anos, está em circuito. Ao ser homenageado pelo conjunto de sua obra no Festival de Veneza, há dois anos, quando pôs o filme na roda pela primeira vez, Konstantinos Gavras (seu nome de berço) incluiu o Brasil num debate acerca da economia da exclusão. Na ocasião, ele definiu nosso atual presidente com uma analogia irônica: “Para viver Bolsonaro, só Charles Chaplin, pois aquilo é uma comédia”.
“Um roteiro não filmado é como um amor que acabou mal. E eu tenho vário amores quer não terminaram bem, nessa lógica da escrita de filmes. Contei as histórias que queria, embora eu tenha vontade de contar outras”, disse Costa-Gavras ao P de Pop. “Cinema não é como um jogo de futebol, em que as regras estão estabelecidas, cronometradas e arbitradas. Cinema é um espetáculo vivo, que se pensa”.
Egresso de uma vila do Peloponesso chamada Loutra-Iraias, ele virou um popstar da direção em 1969, quando “Z” fez dele o papa do thriller político. Em meio à promoção mundial de seu novo longa-metragem, originalmente chamado de “Adults in the Room”, o cineasta ganhador de Oscars e da Palma de Ouro (conquistada em 1982, por “Missing”) seguiu atacando o lado mais conservador da política sul-americana. Segundo ele, “incongruências do contemporâneo nos seguem por todos os lados”. Em 2019, ele ainda ganhou tributos em San Sebastián por sua bem-sucedida carreira, iniciada com “O crime no carro dormitório”, em 1965. “Houve um tempo em que cinema de autor era um cinema de resistência. Mas vimos com o tempo que qualquer filme capaz de espelhar a inquietude de seus diretores é autoral. ‘Star Wars’ é um filme de autor, por exemplo”.
“Jogo do Poder” é um drama de tintas cômicas sobre a crise da Grécia nos anos 2010. “Vivo na França há anos e já filmei no mundo inteiro, mas, se você nasce grego, todo o passivo histórico de nossa pátria vem com a gente, e a tragédia é parte desse patrimônio que nos define. A minha contribuição a uma situação de tensão como essa que enfrentamos em nosso país, com a falência econômico, é abrir reflexões que transcendam fatos. Fato é para o jornalismo. O cinema parte do fato para gerar transcendências”, disse o realizador que partiu do livro homônimo de Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia, sobre a falência de sua nação no fim da primeira década do século.

Christos Loulis vive o próprio Varoufakis no longa-metragem, que se concentra em tramitações políticas e judiciais de 2015 para travar a bancarrota das finanças gregas. Valeria Golino e Ulrich Tukur completam o elenco da produção, centrada em tramitações políticas e judiciais de 2015 para travar a bancarrota das finanças gregas. “Estou há muito tempo atento ao que se passa na Grécia, em suas várias tragédias. Comecei essa história em 2007, quando percebi que a Grécia ia quebrar e que a esquerda ia se colocar mais à direita diante do quadro econômico do país. Espero que a nova presente da Comissão Europeia ajuste essa situação”, disse o cineasta, que relembrou fatos marcantes de sua vida nas telas na autobiografia “Va où il est impossible d’aller”, lançado em 2018, em meio ao Festival de Cannes. Com o descrédito das lutas de classes, a religião mais poderosa que existe neste mundo se chama Dinheiro, uma força amoral que não guarda respeito por nada, sobretudo por fronteiras. Não existe fundamentalismo que seja mais terrorista do que o liberalismo selvagem. O dinheiro tem uma ideologia: comprar o silêncio de todos em nome do lucro”.

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