Costa-Gavras na gôndola da consagração

Costa-Gavras na gôndola da consagração

Rodrigo Fonseca

14 de agosto de 2019 | 12h16

Costa-Gavras, ao centro, nas filmagens de “Adults in the room”, drama baseado no livro de Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia: hors-concours em Veneza

Rodrigo Fonseca
Aos 86 anos, envolvido com eventos comemorativos do cinquentenário de “Z” (1969), sua obra-prima, o diretor franco-grego Costa-Gavras acreditava que passaria pelo 76º Festival de Veneza (28 de agosto a 7 de setembro) com seu novo filme, “Adults in the room”, sem precisar se preocupar com prêmios, por ter sido selecionado para uma projeção hors-concours, mas a Itália não deixará o papa dos thrillers políticos sair do Lido de mãos vazias. Ele foi escolhido pela organização do evento veneziano para ser o detentor do Prêmio Honorário Jaeger-LeCoultre Glory to the Filmmaker de 2019, o que coroa sua (sempre polêmica) trajetória pelas telas. Trajetória essa que espelha suas reflexões e declarações explosivas, tipo: “Com o descrédito das lutas de classes, a religião mais poderosa que existe neste mundo se chama Dinheiro, uma força amoral que não guarda respeito por nada, sobretudo por fronteiras. Não existe fundamentalismo que seja mais terrorista do que o liberalismo selvagem. O dinheiro tem uma ideologia: comprar o silêncio de todos em nome do lucro”.

Imagem do longa inédito do diretor de “Z”

Foi esse o depoimento que o cineasta deu ao longa documental brasileiro “Dedo na ferida”, do carioca Silvio Tendler, no qual diretor de “A confissão” (1970) faz uma análise das falências morais da economia do Velho Mundo, refletindo sobre os efeitos das políticas liberais sobre as Américas. E o cinema também pode ser afetado pelo arrocho do capital, como ele demonstra na trama de “Adults in the room”, adaptação do livro homônimo de Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia, sobre a falência de sua nação. Valeria Golino e Ulrich Tukur são os protagonistas do longa, que se concentra em tramitações políticas e judiciais de 2015 para travar a bancarrota das finanças gregas.

“Acho que o único arrependimento que tenho na vida diz respeito aos projetos de cinema que não pude filmar por falta de financiamento. Um roteiro não filmado dói como um amor mal-acabado. E, hoje, a decisão sobre o futuro dos filmes reside nas mãos de investidores ligados a canais de televisão, pois é da TV que vem o nosso fomento, em coproduções”, disse o cineasta, que relembrou fatos marcantes de sua vida nas telas na autobiografia “Va où il est impossible d’aller”, lançado em 2018, em meio ao Festival de Cannes.

O cineasta franco-grego em uma cena do .doc carioca “Dedo na Ferida”, de Silvio Tendler

Nas páginas do livro, ainda inédito aqui, Costa-Gavras relembra os primeiros passos de sua carreira a partir de seu longa de estreia, “O crime no carro dormitório”, em 1965. Suas recordações passam ainda por suas incursões por Hollywood com “Atraiçoados” (1988) e “O Quarto Poder” (1997), e por sua experiência de fazer uma love story em “Um homem, uma mulher, uma noite”, que ficou dois anos em cartaz em São Paulo, lotando salas. “Aquele é um filme exótico no meu conjunto de realizações, pela aposta no lirismo. Estranharam, à época de seu lançamento, ver um camarada que discutia o papel da esquerda e da direita fazer um filme romântico, em que não se falava de Marx. Vai ver as pessoas não entendem que nada é mais político do que o amor, uma força que se desenha a partir de uma estratificação de hierarquias”, diz o cineasta, cujo último filme foi “O Capital”, de 2012. 

Foi depois de “Missing” – Palma de Ouro em 1983; Oscar de melhor roteiro adaptado em 1983 – que Hollywood decidiu importar Costa-Gavras. E ele foi, para aprender como funciona um cinema pautado em ideologias de bilheterias altas. “Cresci cheio de amor pelos filmes, trabalhei anos a fio com a Cinemateca Francesa, preservando as memórias do audiovisual, vi toda a era de ouro da França nas telas. Logo, filmar em solo americano, com atores de lá, era uma forma de dialogar com a tradição. Foi bom ter feito ‘Missing’ com Jack Lemmon pois ele morava em meu imaginário desde que eu vi ‘Se meu apartamento falasse’. Era lindo ver naquele clássico como ele transmitia sofrimento pelo olhar”, contou Costa-Gavras a seus futuros leitores, numa palestra da Fnac de Cannes, onde o P de Pop era um dos espectadores do colóquio.

Em 2015, quando a seção Cannes Classics exibiu uma copia restaurada de “Z” – prevista para entrar em circuito na Europa a partir de janeiro, em tributo ao cinquentenário do longa – Costa-Gavras veio à cidade, a convite da a Comissão Europeia de Cultura, para falar sobre problemas industriais do cinema, incluindo a dificuldade de fazê-lo chegar em territórios marcados pela miséria, onde ele poderia servir como instrumento de denúncia. “As dialéticas mudaram, caiu a divisão entre Comunismo e Capitalismo que regia o mundo pelo maniqueismo e o inimigo agora é outro: é a selvageria do capitalismo neoliberal. A questão é que todo mundo que prega a dignidade na política é tachado de esquerdista. Se você acha que priorizar o respeito ao próximo é um gesto de esquerda, pode me alinhar a ela”, disse à época. “A mais simpática das comédias é política. Existe algo de político na moral de qualquer narrativa cinematográfica”.

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