‘Corujão’ cheio d’As Boas Maneiras’

‘Corujão’ cheio d’As Boas Maneiras’

Rodrigo Fonseca

17 de maio de 2021 | 10h25

Isabél Zuaa e Marjorie Estiano vivem uma história de amor e de licantropia no longa-metragem de Juliana Rojas e Marco Dutra

Rodrigo Fonseca
Vai ter lobisomem uivando na grade da TV aberta nesta madrugada, diretamente do PlimPlim: tem “As Boas Maneiras” na Globo, às 2h, logo após o “Conversa Com Bial”. Eleito em terceiro lugar na lista dos cem melhores filmes fantásticos feitos no Brasil de 1900 pra cá, votada pela Abraccine, vindo atrás de um par de longas do mestre José Mojica Marins (1936-2020), o cult dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, lançado mundialmente no Festival de Locarno, na Suíça, em 2017, de onde saiu com o Prêmio do Júri, levará o terror, sob uma ótica de fina sensualidade, pra sala de estar da população brasileira. E isso num dia em que a Globo tem “Invictus” (2009), de Clint Eastwood, na “Sessão da Tarde”, e “O Protetor 2”, com Denzel Washington, na “Tela Quente”. Que golaço de programação.
Sob as sombras da invenção, “As Boas Maneiras” desfruta de uma precisão narrativa cirúrgica no exercício da tensão… na conversação com cartilhas clássicas (“Sangue de Pantera”) e modernas (“Grito de Horror”) do gênero sinistro no qual foi gerada, sobretudo na maneira como seu roteiro investe em viradas. Rui Poças assina a fotografia, de marcas expressionistas, desta produção de DNA paulistano coroada com 32 prêmios conquistados em viagens pelo Brasil e pelo exterior. Consagrado com o troféu Redentor de Melhor filme do Festival do Rio de 2017, onde rendeu à brilhante Marjorie Estiano a láurea de Melhor Coadjuvante, o thriller sobrenatural é uma usina de surpresas, o que justifica seu rol de sucessos. Cada vitória dessas foi justa e necessária, a julgar pela mandinga que o bruxo Poças (mais ousado fotógrafo ibérico da atualidade) faz com a Lua Cheia, tendo a atriz – e que atriz! – Isabél Zuaa como cavalo para uma pombajira de múltiplas encruzilhadas. Existe em cena um licantropo de garra afiada, boca grande e olho vermelho vivido pelo ator mirim Miguel Lobo (um achado!). Na direção, Juliana e Dutra demonstram evolução exponenciada ao risco e ao amadurecimento, da água para o vinho, numa comparação com o longa de estreia em duo de ambos: o gramsciano “Trabalhar Cansa” (2011).

Numa estética de garoa fabular, na raia das narrativas mágicas, “As Boas Maneiras” tem uma metafísica que parece incompatível com o engenho do terror, capaz de evocar o misticismo suarento de Apichatpong Weerasethakul (e a selva ontológica de seu “Tio Boonmee”) a cada plano, em dois hemisférios nos quais uma aspirante a babá, Clara (Isabél), passa por uma reeducação sentimental. O primeiro deles, ao norte, frio, porém taquicárdico, acompanha a entrada de Clara num mundo (supostamente) de altíssima classe média, no qual uma jovem grávida cheia de cicatrizes afetivas, Ana (Marjorie Estiano), requer ajuda para cuidar de seu bebê. Tem um troço esquisito que se passa com ela quando a Lua Cheia reina nos Céus. Algo ligado a uma insaciável sede de sangue e a um sonambulismo quase walking dead.
Aos poucos, Clara começa a mexer com a libido da patroa. Ana se deixa a atrair pelo cheiro de Clara. Dali, beijos e amassos rolam. Isso até o neném chegar, num engatinhar de sensualidade e mistério que a montagem de Caetano Gotardo equilibra com maestria.
Aí começa o hemisfério dois, mais ao sul do Equador, quente como o ódio e o amor de mãe (os extremos aqui se comungam). Mas desse hemisfério é melhor não se falar muito, para evitar revelações formalistas e não estragar “a” Revelação deste bem torneado thriller de assombro. Minuto a minuto, Juliana e Dutra fazem valer a vocação do terror num torvelinho de inquietudes que vão do existencial ao perigo físico, esculpindo mulheres com couraças de titânio e cenas de esvaziar o fôlego do peito. E o fazem – amparados no fotômetro de Poças e na direção de arte de Fernando Zuccolotto – sem perder uma finesse que, no filão do horror, talvez só um esteta como o italiano Dario Argento (“Ópera”, “Suspiria”) tenha.

p.s.: A partir de quinta-feira, um dos principais teóricos de dramaturgia das Américas, José Carvalho, vai analisar os ganhadores do Oscar de 2021 na Roteiraria, uma das mais concorridas escolas de escrita de filmes do país. O primeiro longa a passar pelo crivo do teórico baiano é “Druk – Mais uma Rodada”, de Thomas Vinterberg, vencedor da estatueta de Melhor Filme Estrangeiro. Na sequência, serão analisados: “Judas e o Messias Negro” (2020), de Shaka King, no dia 27; “Meu Pai”, de Florian Zeller, no dia 3 de junho; e “Bela Vingança”, de Emerald Fennell, no próximo dia 10.

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