Coppola leva cults recauchutados a San Sebastián

Coppola leva cults recauchutados a San Sebastián

Rodrigo Fonseca

23 de agosto de 2021 | 15h24

Livro obrigatório da ed. Intrínseca resgata os bastidores de “Vidas Sem Rumo”, com o jovem Coppola

Rodrigo Fonseca
Lá se vão dez anos desde o último lançamento em circuito, de um filme 100% inédito, feito por Francis Ford Coppola, o terror “Virgínia” (“Twixt”, 2011). Em 2016, ele arriscou o experimento de filme ao vivo, exibido enquanto é rodado, chamado “Distant Vision”, que não colou, nem chegou ao Brasil. No hiato de uma década sem extrair nada de novo de suas vinícolas cinéfilas, contente com o fruto das parreiras que enchem os barris de sua safra de vinho (fonte atual de sua renda), o realizador de “A Conversação” (Palma de Ouro de 1974) contentou-se com a arte de recauchutar seus maiores filmes. Deu retorques em “Apocalypse Now” (Palma de Ouro de 1979) e relançou a versão nova em Tribeca, em 2019. Mexeu no corte final do injustiçado “The Godfather III” e transformou-o em “O Poderoso Chefão de Mario Puzo – Desfecho: A Morte de Michael Corleone”, lançado em dezembro. Agora, na 69ª edição do Festival de San Sebastián, agendado de 17 a 25 de setembro, no norte da Espanha, ele tem dois cults de sua lavra para reapresentar, ambos digitalmente revisados e preservados: “Caminhos Mal Traçados” (“The Rain People”, de 1969) e “The Outsiders: The Complete Novel”. Esse último é uma versão 22 minutos mais longa de “Vidas Sem Rumo”, drama adolescente, de 1983, no qual jogou holofotes sobre uma turma então pouco conhecida. A turma trazia C. Thomas Howell, Diane Lane, Matt Dillon, Ralph Macchio, Patrick Swayze, Rob Lowe, Emilio Estevez e Tom Cruise. Os dois longas-metragens dele em Donostia (nome de San Sebastián num dos idiomas locais, o Euskara) são painéis da vida americana em dois tempos distintos dos anos 1960.

“Caminhos Mal Traçados” terá uma versão restaurada exibida em San Sebastián

Em geral, os retoques de Coppola são pontuais, mas garantem uma senhora diferença às suas narrativas. No caso dos arremates em “The Godfather III”, ele alcançou excelência em relação ao terceiro longa da trilogia dos Corleone, que disputou o Oscar em sete frentes e não levou nenhum, sendo bem mais caro que seus antecessores (US$ 54 milhões) e tendo bilheteria menor (US$ 136 milhões). Só que as três décadas que se passaram depuraram esse vinho estético e afiaram seu sabor. Nele, além de aparar sequências de Sofia e do canastrão George Hamilton, que vive o advogado B.J. Harrison, a revisão coordenada pelo próprio Coppola modifica o começo, tornando o mais ágil, a partir do conflito entre Michael (Al Pacino, em arrebatadora atuação) e o arcebispo Gilday (Donal Donnelly) pelas negociações imobiliárias entre a empresa dos Corleone e o Vaticano. Houve uma especial mudança nos momentos finais, diluindo uma quase caricata sequência que por anos a fio valeu ataques a Francis Ford. Agora, a montagem ficou mais enxuta, valorizando a tensão de Michael diante do conflitos entre dois líderes da máfia, Joey Zasa (Joe Mantegna) e Don Altobello (Eli Wallach), e a diante do romance entre sua filha Mary (Sofia) e seu sobrinho Vincent, papel que transformou Andy Garcia em astro.

Embora esses reparos feitos por Coppola tenham tornado o longa mais dinâmico, o que mais contou em sua volta à sala escura é a alta voltagem trágica da trama e precisão com que Francis Ford domina a engenharia do tempo e do espaço da arte sequencial, saltando de arena em arena (de Nova York a Sicília) aproveitando todos os recursos de sinestesia que a edição de som de Gloria S. Borders e a fotografia de Gordon Willis (1931-2014) oferecem. Espera-se o mesmo de seus filmes em San Sebastián, que será aberto com a projeção de “One Second”, do mestre chinês Zhang Yimou, na competição oficial pela Concha de Ouro de 2021.

p.s.: Um gibi imperdível toma as bancas brasileiras de assalto: “ROBIN: 80 ANOS”. Em seu miolo tem trabalho de Marv Wolfman, Tom Grummet, Ramon Villalobos e outros. É uma viagem no tempo pela criação do menino prodígio, revendo histórias de todos os que usaram o manto do herói, de Dick Grayson a Damian Wayne. Edição da Panini

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