Conexão intercontinental MG – Ásia

Conexão intercontinental MG – Ásia

Rodrigo Fonseca

08 de novembro de 2019 | 09h19

RODRIGO FONSECA
Um dos filmes brasileiros de melhor acolhida entre crítica e pública nestes dias de “Bacurau”, o tenso thriller (se é que rótulos cabem) “No Coração do Mundo”, dos irmãos Gabriel e Maurílio Martins, das Gerais, vai integrar a seleção competitiva do 41. Festival dos 3 Continentes, na França, que vai de 19 a 26 de novembro.
Coprodução entre o canal e a Filmes de Plástico, o longa-metragem se passa em Contagem, cidade vizinha de Belo Horizonte, onde seus diretores cresceram, e narra a rotina de moradores dessa periferia.
Em sua farpada trama, Marcos (Leo Pyrata) vive de pequenos delitos realizados em um bairro pobre de MG. A rotina do crime, no entanto, traz altos riscos e poucos benefícios, visto que ele não consegue planejar assaltos mais substanciais e valorosos. Ao reencontrar uma antiga parceira de trambiques, Selma (Grace Passô, brilhante), Marcos enxerga a possibilidade de tramar um roubo grandioso a um condomínio de luxo. Para isso, vai precisar convencer uma mulher ainda afeiçoada à retidão, Ana (Kelly Crifer), a participar da empreitada.

Em seu cangote, na grade do evento transcontinental, “No coração do mundo” tem uma joia asiática que sacudiu ânimos na Berlinale, em fevereiro. Sua plateia saiu atônita de uma viagem à imensidão desértica da Mongólia em “Öndög“, um dos mais possantes concorrentes ao Urso de Ouro de 2019. A fotografia de Aymerick Pilarski dá um tratamento digno de fantasia aos céus e à paisagem pedregosa de um deserto onde o corpo de uma jovem morta é encontrada pela polícia.

“Tão impressionante quanto os efeitos visuais que Aymerick cria é o fato de ele, ocidental, saber falar mandarim e dialogar com um chinês como eu sobre um universo geográfico muito singular”, disse seu realizador, o chinês Wang Quan’an, ao P de Pop.

Em 2007, quando era um desconhecido, ele derrotou cineastas de peso que passaram pela Berlinale da época e levou o Urso para casa pelo tocante “O casamento de Tuya”. Agora, ele tem uma poesia visual nas mãos que pode premiá-lo outra vez. “Öndög” é uma referência a dinossauro, um termo que os mongóis usam para se referir aos fósseis lá descobertos em espaços desolados como o da trama, na qual uma pastora cheia de autoconfiança vai seduzir um jovem policial incumbido de zelar pelo cadáver encontrado no meio do nada. A vigília dele será regada pela trilha sonora nada usual em seu telefone, indo de heavy metal a “Love me tender”, na voz de Elvis Presley.

“Naquele ambiente isolado e perigoso, Elvis entra como um signo universal de humanidade e de beleza. É uma história sobre ultrapassar obstáculos”, diz Wang, que fez a crítica se render a uma narrativa asiática pautada pela antropologia e pelo suspense. “O perigo está por todo canto num ambiente um cadáver nu aparece, sem razão, onde menos se espera”.

p.s.: Desde o bode Black Phillips, de “A Bruxa” (2005), o cinema de horror não via criatura com tanta vilania quanto a que reside no coração de Rose The Hat, vivida por Rebecca Ferguson em “Doutor Sono”, um thriller sobrenatural e paranormal… iluminado. Que personagem… Que atriz…

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