Conduzindo Mr. Beresford

Conduzindo Mr. Beresford

Rodrigo Fonseca

03 de dezembro de 2019 | 10h39

Aos 79 anos, o diretor Bruce Beresford, famoso por filmes hoje considerados controversos como o oscarizado “Conduzindo Miss Daisy” (1989), participa do 18º Festival de Marrakech na delegação australiana do evento

RODRIGO FONSECA
Ciente de que a recepção a seu maior sucesso, “Conduzindo Miss Daisy” (Oscar de melhor filme em 1990), já não é mais tão calorosa, em função de reposicionamentos nas discussões sobre igualdade racial, o australiano Bruce Beresford tenta conduzir as controvérsias com a delicadeza, afirmando sempre seu interesse em fazer um conto sobre amizade (acima de tudo) ao narrar a relação entre um motorista negro e sua patroa. Mas é tempo de ele escutar… só escutar… e aprender, verbo que ele conjuga na desinência da curiosidade, de olhos abertos ao cinema mundial, como são os 200 filmes que o cercam, hoje, no Marrocos. Aos 79 anos, o diretor é um dos convidados de honra da delegação em homenagem à indústria audiovisual da Austrália no 18º Festival de Marrakech, iniciado na sexta. E prestou atenção à muita coisa que viu antes de chegar a terras marroquinas, onde exibe “Breaker Morant” (1980), pelo qual concorreu à Palma de Ouro e ao Oscar de melhor roteiro: é a história de oficiais militares em julgamento por conta de uma execução sumária ilegal. A atenção que o realizador mantém ao que efeito planeta afora esbarra no Brasil: “Vi, no avião, um filme incrível sobre um professor de violino”, diz Beresford, referindo-se a “Tudo que aprendemos juntos” (2015), de Sergio Machado, com Lázaro Ramos. “O desempenho do ator principal é surpreendente, pela forma sutil como ele defende um personagem empenhado numa luta social”.

Empenhado atualmente em filmar o longa “Monash”, sobre heróis da Campanha de Gallipoli, na I Guerra Mundial, Beresford tem uma comédia inédita para estrear, “Ladies in Black”, com Julia Ormond, baseado em um best-seller de Madeleine St John sobre vendedoras de uma loja de departamento na Sydney nos anos 1950. Apesar de ter muito prestígio por conta de seu currículo nos anos 1980, o cineasta tem que lutar por financiamento. “Durante anos, tentaram me empurrar atores com os quais eu não teria a menor afinidade em certos projetos nos quais me envolvi. Dirigir ficção é uma tarefa que passa, essencialmente pela escalação precisa de seu elenco. Quando me via às voltas com uma escalação que reprovava, eu me desligava dos projetos”, disse Beresford, que dirigiu Robert Duvall no trabalho que lhe deu o Oscar, em 1984, o papel do cantor country Mac Sledge, em “A Força do Carinho” (“Tender Mercies”).

“A força do carinho” (1983): Oscar para Duvall

Seu convívio com Duvall rendeu histórias de bastidor saborosas. “Bob e Morgan Freeman são atores que têm um fabuloso poder de se metamorfosearem nas figuras que interpretam. É algo lindo de se ver. Mas Bob, às vezes, perdia o senso de onde a câmera estava, pois agia de um modo como se estivesse em um palco e não em um set. Eu precisei conversar com ele e dizer: ‘Não adianta você fazer uma atuação magistral numa posição em que a câmera não consiga olhar para você”, diz Beresford, que elogia o trabalho que fez com Eddie Murphy em “Mr. Church”, um drama na qual o Tira da Pesada encarna um cozinheiro fã de jazz. “Ele é um homem muito sensível, profundamente dedicado ao roteiro que lê e atento a todas as deixas que tem para criar. Ainda não vi seu desempenho em ‘Dolemite’, mas já ouvi que ele está bárbaro e desejo o melhor para sua carreira. É um grande ator”.

Marrakech entrega seus prêmios, entre eles a Estrela de Ouro, julgados por um time presidido por Tilda Swinton, neste sábado, no encerramento do evento, que tem em “Dente de leite” (“Babyteeth”), sua produção mais badalada entre os sete concorrentes já exibidos. Faltam mais sete, entre eles “A Febre”, da carioca Maya Da-Rin, sobre a peleja existencial de um índio de Manaus, o vigia Justino (Régis Myrupu), para entender o que deflagra em seu corpo um estado febril misterioso que ninguém sabe explicar de onde vem. Da mesma forma, parece ser um mistério o animal que ronda a vizinhança dele.

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