Concha de Ouro pro Morro dos Prazeres

Concha de Ouro pro Morro dos Prazeres

Rodrigo Fonseca

28 de setembro de 2019 | 20h22

Darren Aronofsky (com a câmera) produz “Pacificado”, rodado nas periferias do RJ


RODRIGO FONSECA
Deu Brasil na cabeça de San Sebastián: “Pacificado”, rodado em solo carioca, com a veterana Léa Garcia e a estrela em ascensão Débora Nascimento no elenco, conquistou a Concha de Ouro no encerramento do festival espanhol. Fruto de uma parceria entre os moradores do Morro dos Prazeres (RJ) com um habitante de língua e cidadania estrangeira do local (o diretor americano Paxton Winters), este drama sobre conflitos de periferia recebeu ainda as láureas de melhor fotografia (para Laura Merians) e melhor ator, para o devastador desempenho de Bukassa Kabengele. O resultado coroa com o prêmio maior da prestigiosa maratona cinéfila basca o empenho do cinema brasileiro em preservar sua dignidade e sua glória em tempos de ameaça ao setor. Em 2019, tivemos curtas e longas laureados na Berlinale (“Rise” e “Espero a tua (re)volta”), Cannes (“Bacurau”, “A vida invisível de Eurídice Gusmão” e “The Lighthouse”), Locarno (“A febre”) e Veneza (“Babenco: Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer Parou”). O sucesso de Paxton em terras e telas espanholas, sob o olhar de um júri presidido pelo diretor irlandês Neil Jordan (“Entrevista com o Vampiro”), demarca a importância da reciclagem ética e estética das representações de favela.
“É um filme com protagonistas mulheres negras, com negros em papéis de destaque, que mostra a favela sem jogar o foco nas armas, celebrando o amor com o forma de solução em um momento histórico de muita intolerância”, afirmou Kabengele em entrevista ao P de Pop: congolês, nascido na Bélgica, mas radicado no Brasil há décadas, ele cria uma espécie de samurai contemporâneo no longa-metragem de Paxton, que teve Darren Aronofsky, diretor de “Pi” (1998) e “Cisne Negro” (2010), entre seus produtores.

Bukassa Kabengele em ação


Kabengele e Débora vivem os pais da jovem Tati (Cássia Nascimento), que enfrenta os dilemas da adolescência numa favela assolada pela volta da máquina de controle das UPPs em meio ao desmonte das celebrações dos Jogos Olímpicos de 2016, na dita Cidade Maravilhosa. O local onde ela vive é chefiado por um traficante casca grossa (José Loreto), que herdou o comando de Jaca, papel de Bukassa. Ele foi um líder de tráfico impiedoso com os inimigos, mas doce com os moradores, que desistiu do crime ao longo dos 14 anos em que esteve preso. Mas a volta dele a seu antigo lar é coroada pela notícia de que tem uma filha adolescente, Tati, com quem precisa aprender a conviver em meio a uma guerra armada ao seu redor.
“Eu vivo há anos no Rio, numa favela, onde, como estrangeiro, preciso estar, diariamente, bem atento aos códigos de conduta. Este filme nasceu desse convívio, tendo moradores do Morro dos Prazeres em cada uma das equipes de criação, olhando para a violência sem sexualizá-la”, disse Paxton ao Estadão, comemorando o fato de “Pacificado” ter sido o único longa verde e amarelo a ganhar o troféu principal de San Sebastián.
Mas houve mais prêmio na festa de conclusão do evento, que exibiu o esperado “Coringa”, de Todd Phillips. Nas demais categorias a Espanha brilhou soberana. Aitor Arregi, Jon Garaño e Jose Mari Goenaga, um trio de pratas da casa, dividiu o troféu de melhor direção pelo festejado “La trinchera infinita” (“The Endless Trench”, laureado ainda com o prêmio da crítica e o prêmio melhor roteiro. A trama fala de um casal que passa 33 anos escondido em sua casa para evitar reações hostis das hordas franquistas. Nascida em Barcelona, Greta Fernández foi eleita melhor atriz por “La hija de um ladrón”, em empate com a alemã Nina Hoss, por “Das Vorspiel” (“The Audition”). Antenados com pleitos de releitura sobre a forma de representar as mulheres na telona, Jordan e seus jurados contemplaram o tocante “Próxima”, da francesa Alice Winocour, com o prêmio especial do júri. Nele, Eva Green vive uma astronauta dividida entre seus compromissos com o espaço e seus afazeres como mãe.
Na escolha do melhor filme pelo júri popular, a França saiu em disparada com “Hors Norme”, da mesma dupla de “Intocáveis”, o blockbuster dos blockbusters, com seus 20 milhões de pagantes. Dirigidos por Éric Toledano e Olivier Nakache, Reda Kateb e um magistral Vincent Cassel vivem dois educadores especializados na inclusão de jovens autistas. Já láurea de melhor filme europeu de 2019 coube ao (superestimado) “Sorry We Misse Your”, de Ken Loach, no qual o marxista inglês aborda a desagregação de uma família cuja mãe cuida de idosos e o pai pilota uma van de entregas.

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