Comovente, ‘Capitão Fantástico’ critica o hippismo tardio

Comovente, ‘Capitão Fantástico’ critica o hippismo tardio

Rodrigo Fonseca

21 Dezembro 2016 | 10h02

Astro de

Astro da trilogia “O Senhor dos Anéis” e interprete-fetiche de David Cronenberg, Viggo Mortensen concorre ao Globo de Ouro no papel de um pai beatnik

RODRIGO FONSECA
Robson Crusoé do século XXI, perdido por opção própria num insulamento lírico, Ben Cash, protagonista de Capitão Fantástico, um analgésico drama de gradações cômicas sobre alienação, é uma esfinge adestrada pela dor e pela prepotência. Um ator cujo talento não parece ter medida uqnatificável – Viggo Mortensen – torna essa figura um mar de complexidades dos mais profundos e cristalinos. O papel rendeu a ele uma indicação mais do que obrigatória ao Globo de Ouro.

Longa deu a Matt Ross o prêmio de direção em Cannes

Longa-metragem deu ao cineasta Matt Ross o prêmio de direção no Festival de Cannes, na mostra Un Certain Regard

Cientista de formação, com livro publicado e tudo, Ben trocou os tubos de ensaio para fazer da floresta um laboratório. Lá, as cobaias são seus seis filhos, os quais ele cria distantes ao progresso tecnológico, sem contato com a cultura pop e guloseimas industrializadas afins, obrigando-os a ter um corpo a corpo diário com a Natureza pela sobrevivência. A mata é sua ilha e nela, a soberania é dele, sem perdas ou danos aparentes. Mas aí sua mulher perde o combate para a insuportabilidade – provocada pela imposição quase ditatorial com a qual o marido rege a família a partir de sua ideologia natureba – e se mata. Pronto: começou o filme. E é um filme arrebatador, diga-se de passagem, por múltiplas razões, entre elas a reflexão crítica sobre a herança hippie e o legado beatnik inerente à sociedade dos EUA desde os anos 1950, quando escritores e poetas como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, cantaram loas ao modo “pé na estrada” de viver.

Captain_Fantastic_Artecines_Capa-1.jpg Viggo Mortensen
Gatilho dramatúrgico desta produção de US$ 13 milhões, rodada majoritariamente em Washington, a morte da Sra. Cash obriga Ben e seus rebentos a largarem a zona de (des)conforto física onde habitam e ganhar o país a fim de prestarem homenagens à falecida e repensarem o claustro no qual se estagnaram. Ao fim da jornada está o sogro de Ben, defendido com maestria por Frank Langella, carregando o personagem de mágoa no olhar e desejo de tomar os netos pra si. Mas o caminho até ele é longo. E a jornada rende situações de ironia fina graças à leveza com que o ator e cineasta Matt Ross conduz a narrativa – pela qual recebeu o prêmio de melhor diretor na seção Un Certain Regard do Festival de Cannes, em maio. As melhores peripécias: o processo de amadurecimento sexual do filho mais velho de Ben ao conhecer uma cocota e a ida da família a um restaurante diante da pergunta da filha caçula; “Pai, o que é Coca-Cola”?

Captain_Fantastic_poster.jpg Viggo Mortensen Capitão Fantástico

Tudo isso para de pé graças a um roteiro arejado por circunstâncias nas quais o humor mascara a angústia e por uma engenharia de filmagem que registra a paisagem verde (ou rochosa) à sua frente sem as abordagens documentais tão corriqueiras ao cinema indie. E, acima (e à frente) de tudo, há um ator de carisma e de inquietação que salta no precipício do desconhecido para tentar tentar descobrir quem Ben Cash junto com a gente. A generosidade de Viggo transborda cena a cena e nos comove.

Cotação: Excelente