Como é bom (re)ver Wesley Snipes

Como é bom (re)ver Wesley Snipes

Rodrigo Fonseca

18 de março de 2021 | 12h17

Wesley Snipes em “Assalto Sobre Trilhos”, um dos destaques da Paramount Plus

Rodrigo Fonseca
Flanando pelo cardápio da Paramount Plus, que tem pérolas dos anos 1980 e 1990, um thriller de tons cômicos centrado na malha ferroviária de Nova York se impõe como uma reprise daqueles que dá alegria à streaminguesfera: “Assalto Sobre Trilhos” (“Money Train”, 1995). É uma celebração do carisma de Wesley Trent Snipes como herói, retomando a dobradinha dele com Woody Harrelson, iniciada em “Homens Brancos Não Sabem Enterrar” (1992). Na trama, Harrelson é um policial cheio de dívidas que resolve assaltar o trem que patrulha, forçando seu irmão adotivo (Snipes) a ajuda-lo, tendo a jovem Jennifer Lopez como objeto do desejo de ambos. Nelson Machado (o eterno Quico) dubla Snipes nessa produção, que foi um dos acertos do astro em sua fase de consagração, renovada agora com seu desempenho, na web, em “Um Príncipe em Nova York 2” (“Coming 2 America”), no qual ele rouba todas as cenas. Seu sucesso ali já garantiu a ele um convite para estrelar a série “True Story”, ao lado de Kevin Hart e Billy Zane. Ele ainda tem um filme de zumbi pra fazer: “Oubreak Z”.

Embora a realeza da parte II de “Um Príncipe…” caiba a Eddie Murphy, quem rouba a coroa da excelência no mais badalado lançamento da Amazon Prime em 2021 (até agora) é o Sr. Wesley, no papel do general Izzi. Sua atuação vem atraindo elogios pelo farto repertório gestual com que ele compõe um ditador desesperado por apontar seus fuzis para Zamunda, a nação africana imaginária de Akeem, o nobre vivido por Murphy. Este voltou ao papel de Akeem sem a criatividade que esbanjava nos anos 1980. Já Snipes é pura invenção. É dancinha daqui, é ginga acolá, é requebro dali: ele é puro balé em cena, na continuação do fenômeno de bilheteria de 1988. Parte dessa expressão corporal vem de sua experiência com capoeira e parte vem de sua vasta quilometragem no caratê. No imaginário da cinefilia mundial, ele sempre será lembrado como um dínamo da ação, sobretudo pelo fenômeno “Passageiro 57”, que, em 1992, foi um dos títulos mais alugados em VHS nas locadoras dos EUA, amealhando uma fortuna em locação de fitas. E “Assalto Sobre Trilhos” reforça essa imagem.
“Tento sempre dar pluralidade, nos afetos, aos meus personagens”, disse o ator em uma entrevista em 2010, ao lançar “Atraídos Pelo Crime”, pouco antes de ser processado e de ser impedido de sair dos EUA sob a acusação de sonegar imposto de renda ao Leão americano. Nascido em Orlando, na Flórida, há 58 anos, Snipes é o responsável pelo gênero de maior êxito comercial da indústria cinematográfica nos últimos 20 anos: os filmes de super-heróis. Jamais teria havido o império Marvel nas telas se Snipes não tivesse batido o pé e insistido em produzir, com o apoio da New Line, uma versão para as telas de um coadjuvante das HQs do Justiceiro, o vampiro caçador de criaturas das Trevas Blade. Era 1998 e ele vinha da frustrada experiência de tentar adaptar o Pantera Negra para o cinema, coisa que só veio a ser feita em 2018, pelo diretor Ryan Coogler, com Chadwick Boseman no papel do senhor de Wakanda. Snipes tentou muito levar as HQs do vigilante da África para as telas, sem conseguir convencer a alta cúpula marvete de que conseguiria meios para isso. Naquele momento, a editora por trás do Homem de Ferro e do Capitão América não tinha muito espaço no audiovisual, fora os desenhos animados dos X-Men (hoje em cartaz na Disney +) e algumas séries animadas do Homem-Aranha. Mas, graças ao carisma de Snipes, “Blade” virou um estrondo de bilheteria.

Aquela franquia deu a Snipes os holofotes da cultura pop num momento em que ele desfrutava já do prestígio após ter conquistado a Copa Volpi de Melhor Interpretação masculina em Veneza, em 1997, com “Por Uma Noite Apenas”. Duas décadas depois, em 2019, Snipes brilhou na Netflix ao lado de Eddie Murphy em “Meu Nome É Dolemite”, que abriu caminho para sua entrada em “O Príncipe em Nova York 2”, no qual ganha a voz de Márcio Simões, em impecável dublagem.

p.s.: Um dos filmes mais doces dos EUA nos anos 1990, “Corina, Uma Babá Perfeita” (“Corrina, Corrina”, 1994), da diretora Jessie Nelson, será exibido na “Sessão da Tarde” desta quinta, às 15h. Na trama, o publicitário Manny Singer (Ray Liotta, brilhante em cena) acaba de ficar viúvo e se preocupa com a filha única, Molly (Tina Majorino), uma menina que se nega a falar depois de perder a figura materna. Para cuidar dele, ele contrata uma espirituosa babá, Corina (Whoopi Goldberg), que devolve a alegria de viver àquela casa. Mas o fato de ela ser negra gera preconceito na vizinhança. Na versão brasileira, Nair Silva dubla Whoopi e Leonardo Camilo empresta a voz a Liotta.

p.s.2: Ganhador do Leão de Ouro de 2013, “Sacro GRA” acaba de entrar na grade da MUBI, levando a realidade de uma região de Roma às telas, pelas lentes de Gianfranco Rosi.

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