‘Comment Je Suis Devenu Super-héros’ à francesa

‘Comment Je Suis Devenu Super-héros’ à francesa

Rodrigo Fonseca

14 de janeiro de 2021 | 13h45

Rodrigo Fonseca
Micareta de gêneros, com especial predileção pelas narrativas policialescas, o cinemão francês não poderia ficar de fora do filão mais rentável do audiovisual contemporâneo, os filmes sobre vigilantes pautados pelo super-heroísmo, o que justifica a projeção de um exemplar dos mais finos dessa linhagem, à europeia, no maior fórum do cinema francófono do mundo. “Comment je suis devenu super-héros”, dirigido pelo ator Douglas Attal, virou uma das sensações da 23ª edição do Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, organizada em Paris e realizada online, com a presença de jornalistas do mundo todo. A maratona da Unifrance, órgão do governo da França que cuida da promoção de curtas e longas-metragens em circuitos nacionais e internacionais, enxergou na feérica narrativa de Attal um chamariz de plateias. Nos moldes das tramas produzidas pela Marvel e pela DC, este thriller fantástico traz uma dupla de policiais – Cécile, vivida por Vimala Pons, e Gary, encarnado por Pio Marmaï – envolvida na investigação de uma droga que garantes poderes de lançar fogo e raios a seus usuários.
“Eu fui menos na linhagem dos quadrinhos e mais na tradição do cinema policial francês, para uma mistura de elementos que incluem o thriller, a comédia e a reflexão moral, de modo a abrir uma discussão sobre a efemeridade, a partir da experiência de jovens que desejam ter uma experiência de poder, ainda que passageira”, disse Attal ao Estadão. “Eu gosto de pensar no arquétipo do super-herói como um modelo a ser seguido”.

Construído a partir de uma agilíssima montagem, o longa esbanja adrenalina na peleja de Cécile e Gary para entender a gênese e a distribuição de um super-narcótico vendido por Naja, papel do talentoso Swann Arlaud. “Não entendo o Mal como um conceito recorrente, metafísico. Entendo experiências de maldade e de bondade mesmo em personagens que chamamos de vilão”, diz Attal. “No desenho do Batman dos anos 1990, o Sr. Frio não faz seus delitos por ser mau, mas para buscar uma cura pra enfermidade de sua mulher”.

Os demais destaques deste Rendez-Vous são:
“POLICE”, DE ANNE FONTAINE: Filme de encerramento da Berlinale 2020. Este mergulho no universo da PM de Paris parte dos conflitos afetivos de três agentes da Lei na condução de um imigrante ilegal para fora de um país hoje assombrado pelo fantasma da xenofobia. O carisma de Omar Sy (de “Intocáveis”) é vitaminado pela dobradinha com a atriz Virginie Efira. Sy virou “o” astro da streaminguesfera neste momento, graças ao fenômeno que “Lupin” virou.

“SLALOM”, DE CHARLÈNE FAVIER: Amparado numa sofisticada fotografia, colecionando tons de azul e vermelho para traduzir os estados de espírito de sua protagonista, este estudo sobre a microfísica do Poder segue os ritos de passagem de uma jovem atleta de esqui na neve (Noée Abita) às voltas com as obsessões de seu instrutor, o ex-campeão Fred (Jérémie Renier).

“LES DISCURS”, DE LAURENT TIRARD: Encarada como um candidato a blockbuster, a nova comédia do realizador de “O Pequeno Nicolau” (2009) acompanha os dilemas de Adrien (Benjamin Lavernhe) diante do término de seu namoro. Em meio a uma reunião familiar, ele é convocado a fazer um discurso no casamento de sua irmã, que nunca entendeu seu jeitão. Numa hilária narrativa, Tirard quebra a quarta parede e faz Lavernhe conversar com o público.

“UN TRIOMPHE”, DE EMMANUEL COURCOL: Sensação na edição pocket do Festival de Cannes, esta dramédia narra a luta do ator e encenador fracassado Étienne Carboni, vivido por Kad Merad, para encenar “Esperando Godot” com uma trupe de presidiários.

“DE GAULLE”, DE GABRIEL LE BOMIN: No auge do sucesso depois que gravou um disco com canções de Yves Montand, o ator e cantor Lambert Wilson dá vida ao estadista Charles de Gaulle (1890-1970) em um episódio tenso: em 1940, ele precisa encontrar uma estratégia para poder resistir ao avanço dos nazistas.

“LES 2 ALFRED”, DE BRUNO PODALYDÈS: O realizador de “Um Doce Refúgio” (2015) divide as telas com o irmão, Denis Podalydès, nesta hilária reflexão sobre reposicionamento profissional de quem já está na faixa dos 50 anos. Denis vive Alexandre, um desempregado pai de família que cuida com dificuldade dos filhos (uma bebê e um guri de uns 4 anos). Ele arruma trabalho numa empresa de tecnologia cujo dono odeia crianças. E isso acontece em meio a um torneio de drones.

p.s.: Baseado em uma HQ de 2014 do Boom! Studios, assinada por Cullen Bunn, Vanesa R. Del Rey e Jesús Hervás, “O Mensageiro do Último Dia” (“The Empty Man”), de David Prior, é uma gratíssima surpresa da seara dos thrillers, surpreendendo as convenções do gênero com seu estudo metafísico sobre a (oni)presença do Mal. Com ecos do expressionismo alemão, o longa de estreia na direção de um veterano colaborador de David Fincher aposta no mistério e na tensão ao explorar os bastidores sobrenaturais do sumiço de uma jovem. Um ente que gravita entre os espaços vazios da existência pode ter sumido com ela. E cabe a um ex-policial, vivido por um James Badge Dale de retidão espartana, encontrá-la.

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