Comédias alemãs bombam à véspera de Berlinale

Comédias alemãs bombam à véspera de Berlinale

Rodrigo Fonseca

09 de fevereiro de 2022 | 20h53

“Wunderschön” é uma comédia alemã que aborda a luta das mulheres contra o patriarcado a partir da jornada de cinco protagonistas

RODRIGO FONSECA
Já se vê cartazes da 72ª Berlinale por todos os cantos da capital alemã, que vai encarar chuva, sob um frio oscilante entre 9º e 3º, nesta quinta-feira, em meio à sua cerimônia de abertura, com “Peter von Kant”, do parisiense François Ozon, a aquecer corações, revisando o clássico de Rainer Werner Fassbinder (1945-1982). Denis Ménochet e Isabele Adjani protagonizam a releitura de “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, peça teatral escrita por Fassbinder em 1971 e filmada por ele mesmo em 1972. No longa original, uma virulenta Margit Carstensen era Petra, uma estilista de renome apaixonada por Karin, interpretada por Hanna Schygulla (a diva de Rainer Werner), e consolada por sua secretária, Marlene (Irm Hermann). Mas Hanna regressa aqui, a fim de estabelecer um vínculo com o legado fassbinderiano, numa sessão que celebra os 50 anos da projeção do filme feito por Rainer Werner no próprio Festival de Berlim. Um festival que acontece num momento em que o cinema germânico tem um de seus mais provocativos diretores de volta ao páreo pelo Urso de Ouro – o austríaco Ulrich Seidl, na briga por láureas com “Rimini” – e num momento em que a Alemanha tenta se manter em alta nas bilheterias à força de comédias. A que mais vem se destacando no gosto do público é “Wunderschön”, da diretora Karoline Herfurth. Trata-se de uma crônica de costumes sobre as lutas das mulheres contra o patriarcado, vista da perspectiva de cinco protagonistas e suas agruras diárias. Martina Gedeck (estrela de “Simplesmente Martha”) é um dos chamarizes do elenco. A outra produção da casa que vem fisgando berlinenses é “Contra”, um remake do longa francês “O Orgulho” (2017) idealizada na Vestfália pelo diretor Sönke Wortmann. É a história de uma aluna de origem árabe (Nilam Farooq) que ensina seu arrogante professor de Direito (Christoph Maria Herbst) a rever suas noções de Retórica.

Mesmo sem poder arrancar um ursinho sequer do diretor indiano M. Night Shyamalan, que preside o júri de longas-metragens da 72ª Berlinale, o Brasil pode vencer a competição de curtas-metragens do evento com “Manhã de Domingo”, de Bruno Ribeiro, que passou na Mostra de Tiradentes. Aliás, o cearense Karim Aïnouz, realizador de “A Vida Invisível” (2019), é um dos jurados de Shyamalan. Ainda sobre Berlim… nós, do Brasil, teremos um destaque lá, na seção Panorama, com “Fogaréu”, longa da goiana Flávia Neves. É uma trama na fronteira entre o real e o fantástico, entre o passado colonial e a modernidade avassaladora do agronegócio, onde a cidade de Goiás é palco do encontro entre a jovem Fernanda (Bárbara Colen) e suas secretas raízes. Vai haver ainda uma exibição no Berlinale Market Selects da (divertida) série “Filhas De Eva”, de Adriana Falcão, Jô Abdu, Martha Mendonça e Nelito Fernandes, da TV Globo. Estamos também na sessão Fórum, com “O Dente do Dragão”, de Rafael Castanheira Parrode, e com “Mato Seco em Chamas”, de Adirley Queirós e Joana Pimenta. Já na seção Generation, foi selecionado o longa “My Fathers’s Truck”, uma coprodução Vietnã/EUA dirigida pelo brasileiro Maurício Osaki. Trata-se de uma expansão do curta do mesmo diretor, “O Caminhão de meu Pai”, que foi exibido no Festival de Berlim 2013. O longa é um road movie pelas estradas do Vietnã que retrata um difícil contato entre pai e filha. Vai ter também a instalação “Se Hace Camino Al Andar”, da sempre surpreendente artista visual e cineasta Paula Gaitán.

“Call Jane” é o candidato dos EUA ao Urso de Ouro

Confira a seguir a lista de concorrentes ao Urso de Ouro de 2022:
“A E I O U – A Quick Alphabet of Love”, de Nicolette Krebitz – Alemanha / França
“Alcarràs”, de Carla Simón – Espanha /Itália
“Avec Amour et Acharnement”, de Claire Denis – França
“Rimini”, de Ulrich Seidl – Áustria / França / Alemanha
“Call Jane”, de Phyllis Nagy – EUA
“A Piece of Sky”, de Michael Koch – Suiça / Alemanha
“Everything Will Be Ok”, de Rithy Panh – França / Camboja
“La Ligne”, de Ursula Meier – Suiça / França / Bélgica
“Leonora Addio”, de Paolo Taviani – Itália
“Les Passagers” de la Nuit, de Mikhaël Hers – França
“Before, Now & Then”, de Kamila Andini – Indonésia
“Peter von Kant”, de François Ozon – França – filme de abertura
“Rabiye Kurnaz vs George W. Bush”, de Andreas Dresen – Alemanha / França
“Robe of Gems”, de Natalia López Gallardo – México / Argentina / EUA
“The Novelist’s Film”, de Hong Sangsoo – Coréia do Sul
“Un Año, una Noche”, de Isaki Lacuesta – Espanha / França
“That Kind of Summer”, de Denis Côté – Canadá
“Return to Dust”, de Li Ruijun – República da China

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