Comédia catalã ‘faz tudo’ no Festival do Cairo

Comédia catalã ‘faz tudo’ no Festival do Cairo

Rodrigo Fonseca

02 de dezembro de 2021 | 04h33

O faz-tudo Mohammed no longa de Neus Ballús

Rodrigo Fonseca
É dia de o 43º Festival do Cairo, já em sua reta final, com encerramento marcado para este domingo, rir de se esborrachar com o premiadíssimo “Sis Dies Corrents” (ou “The Odd-Job Men” ou ainda “Os Faz-Tudo”). Que aula de comédia, capaz de misturar ficção e realidade, numa espécie de neo neorrealismo, a diretora catalã Neus Bellús nos deu. Desde 1999, quando “Tudo Sobre Minha Mãe”, de Pedro Almodóvar, teve uma bilheteria de US$ 67 milhões, o governo espanhol percebeu que o cinema era mais do que a maior diversão: dali poderia vir fortunas. Fortunas maiores do que qualquer outro produto da indústria ibérica, como se vê agora a carreira comercial europeia do novo Almodóvar, “Madres Paralelas”, recém-lançado na França. Foi nesse movimento de percepção de investimentos, lá do fim dos anos 1990, que começou um investimento em escolas de formação de cineastas (sobretudo Barcelona) e uma aposta na diversificação de núcleos regionais, em Bilbao, em Madri, em San Sebastián, que abriga um dos maiores festivais de filmes do mundo. Esse investimento feito lá atrás deu asas à nova leva de talentos que hoje bomba nos streamings, vide o cult “A Casa de Papel”, na Netflix, ou “Pátria”, da HBO. Mas desse aporte governamental na cultura vieram ainda novas vozes da telona, como Carla Simón (“Verão 1993”), Rodrigo Sorogoyen (“Madre”) e Neus. Ela tomou de assalto o último Festival de Locarno – realizado na Suíça em agosto – com uma comédia híbrida de conceitos documentais e da tal de “autoficção”.
“Não vejo razão de separarmos fatos e fábulas”, diz Neus ao Estadão, via Zoom. “Quis trazer, do real, situações que renderiam boas histórias”.
Convocado também para o Festival de Toronto, antes de passar pelas areias do Egito, “Sis Dies Corrents” saiu de Locarno com três prêmios: o de melhor ator, dividido entre Mohamed Mellali e Valero Escolar; a láurea do Júri Jovem; e o Europa Cinemas Label, um prêmio de incentivo à carreira comercial dos longas, votados por exibidores. Com tempero catalão, o filme de Neus colhe histórias de três profissionais autônomos que fazem de tudo, desde obras até bico de eletricista, numa Europa em trânsitos econômicos engarrafados, abalados pelas crises de $ no Velho Mundo. Dois desses personagens são espanhóis (e se orgulham demais disso) e um, o bombeiro hidráulico Moha, é um marroquino. Nenhum deles é ator, mas eles estão em cena atuando, recriando situações que eles viveram no passado e contaram à realizadora.
“Tive uma referência familiar pessoal na construção dessa narrativa: meu padrasto era encanador. O maior obstáculo quando se trabalha numa narrativa com não atores é tentar encontrar um ponto de veracidade no modo como eles se relacionam com a câmera, sempre me pautando no improviso”, diz a diretora, que chamou as atenções da crítica internacional ao participar do Festival de Berlim com “La Plaga”, em 2013, e “El Viaje de Marta”, em 2019.
Há situações enervantes em “Sis Dies Corrents” como o primeiro encontro entre Mohamed e Valero, quando o imigrante do Marrocos é hostilizado pelo veterano encanador espanhol. Mas logo se percebe que o desdém dele diante do estrangeiro não é um gesto de xenofobia e, sim, uma marca de autodefesa, uma vez que ele apela para o escarnio com todo mundo. Mas há momentos hilariantes, como a sequência em que eles vão trabalhar na casa de uma fotógrafa e são envolvidos em um ensaio de moda.

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