Começam as apostas pelo Oscar e o drama racial ‘Loving’ sai na frente

Começam as apostas pelo Oscar e o drama racial ‘Loving’ sai na frente

Rodrigo Fonseca

06 de agosto de 2016 | 13h35

Ruth Negga e Joel Edgerton em

Ruth Negga e Joel Edgerton em “Loving”

RODRIGO FONSECA

Termômetro das premiações cinematográficas, sobretudo do Oscar, o site Awards Daily aponta como um potencial ganhador de estatuetas uma história de amor de tintas raciais que saiu de Cannes aclamada e promete repetir a dose de elogios no TIFF – Festival Internacional de Toronto (8 a 18 de setembro): Loving, de Jeff Nichols. Há uma torcida se formando em torno da carreira comercial deste longa-metragem, com foco no (merecido e já tardio) reconhecimento de seu diretor, revelado com O Abrigo em 2011. Sasha Stone, a repórter deste periódico online fundamental para entender a mecânica da indústria do audiovisual nos EUA, levanta possíveis láuras para Nichols por outro filme, Midnight Special, um thriller sci-fi sofisticadíssimo pelo qual ele brigou pelo Urso de Ouro em Berlim. Mas foi na briga pela Palma dourada deste ano, com a recriação dos desafios legais impostos ao casal Mildred e Richard Loving que ele teve uma passagem de nível (com louvor) no panteão dos bons cineastas. Fala-se sobretudo de indicações para sua atriz, Ruth Negga, que além de ser o Carisma em pessoa, é uma estrela em ascensão (vide a série Preacher, na qual vive Tulipa) e uma intérprete de múltiplas ferramentas dramáticas. E, ao lado de Ruth, está Joel Edgerton, que desde Guerreiro (2011), vem se mostrando um talento.

O casal Loving na vida real

O casal Loving na vida real

Drama de época, baseado em fatos reais, Loving usa com sabedoria os rudimentos do melodrama clássico a fim de denunciar o racismo a partir da paixão entre Mildred (Ruth) e Richard Loving (Edgerton) Casal interracial, apaixonadíssimos, eles foram expulsos de sua cidade por uma ordem judicial em função da interdição de união entre raças: ela é negra e ele, branco. Em maio, na França, a seleção do filme para Cannes, foi encarada (e muito bem vista) pela imprensa europeia como uma tomada de posição do festival em relação aos debates sobre exclusão racial no cinema, levantados e inflamados a reboque da ausência de atores afrodescendentes no Oscar deste ano. Sua abordagem para a violência cobtra os negros, feito de modo seco, mas ao mesmo tempo com vitalidade épica, evocou comparações com cults do cinema independente americano dos anos 1970, como Conrack (1974), de Martin Ritt. Aliás, virou costume ver Nichols ser apresentado como um herdeiro da linhagem que revelou Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e Steven Spielberg.

“Aqui em Loving existe algo mais do que uma polêmica histórica: existe um amor real e legítimo, que desafiou o Estado”, disse Nichols ao P de Pop em Cannes.

A lista dos oscarizáveis aponta um outro candidato forte ligado à temática negra: Birth of a Nation, de Nate Parker, um ator e diretor definido nos USA como “a” promessa do momento quando se pensa em renovação de Hollywood. No longa, que foi aclamado em Sundance, ele vive um pastor negro que, no auge da escravidão, é convencido por seu dono (Armie Hammer) a usar as palavras do Senhor para domar seus ex-colegas de senzala. Mas sua pregação terá um efeito diferente.

Tracy Letts em

Tracy Letts em “Indignation”

Outro nome quente pra o Oscar, Indignation, de James Schamus (parceiro de Ang Lee em vários sucessos, como O Tigre e o Dragão e Tempestade de Gelo), tem nas veias sangue brasileiro, pois foi produzido por Rodrigo Teixeira da RT Features. Com base no romance homônimo de Philip Roth, o longa, exibido em Sundance, em janeiro, e em Berlim, em fevereiro, traz Logan Lerman na pele de Marcus Messner, um jovem judeu pobre de Nova Jersey que tenta a sorte ao se mudar para Ohio, a fim de estudar. Lá, ele vai saber o quanto um amor pode doer, assim como vai sofrer com a azia gerada pelo antissemitismo. O desempenho do dramaturgo e ator sazonal Tracy Letts (Killer Joe) no papel de um reitor debochado é uma pedida obrigatória para o Oscar de coadjuvante. No rol de apostas do Awards Daily, a RT aparece com mais um filme: o terror A Bruxa, cotado a prêmios de fotografia.

Woody Harrelson como Lyndon Johnson em

Woody Harrelson como Lyndon Johnson em “LBJ”, dirigido por Rob Reiner

Lá fora, além do Awards Daily, fala-se um bocado também sobre Manchester by the Sea, drama de Kenneth Lonergan com Casey Affleck na pele de um tio obrigado a zelar pela criação do sobrinho. E temos Rob Reiner voltando as boas com a direção em LBJ, thriller político com Woody Harrelson na pele de Lyndon Johnson. E teremos um Clint Eastwood vindo aí com Sully, trazendo Tom Hanks na pele de um piloto que fez um pouso forçado para salvar sua tripulação. Se tudo der certo com os cronogramas de edição de Suburbicon, George Clooney vai estar no páreo dos troféus de melhor diretor comandando uma trama escrita por Joel e Ethan Coen.

“Aquarius”: Oscarito para Sonia Braga

Entre os concorrentes aos prêmios de melhor filme estrangeiro, o site não menciona nada. Mas, se a comissão de seleção da Secretaria do Audiovisual do Brasil agir com inteligência, na escolha do longa a representar o país na festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (o eleito será anunciado dia 12 de setembro), a promoção internacional de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, ganhará um reforço nobre… e merecido. Com DNA pernambucano, a produção abre o Festival de Gramado agora no dia 26 de agosto, quando a atriz Sonia Braga receberá o troféu Oscarito pelo conjunto de sua carreira. Sonia vive uma crítica de música que enfrenta a especulação predial em Recife. A trilha sonora é um deleite, que passeia por Taiguara, Queen e Roberto Carlos.

Os indicados ao Oscar serão divulgados em 24 de janeiro e os prêmios serão entregues em fevereiro.

 

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