Com um ano de atraso, novo filme de Jia Zhang-Ke chega ao Brasil confirmando a solidez desta montanha autoral

Com um ano de atraso, novo filme de Jia Zhang-Ke chega ao Brasil confirmando a solidez desta montanha autoral

Rodrigo Fonseca

16 de junho de 2016 | 15h30

“As Montanhas Se Separam”

Envolvido hoje na promoção internacional de The Hedonists, uma comédia com tintas absurdas sobre desemprego, exibida em março no Beautiful – Hong Kong International Film Festival, Jia Zhang-Ke volta a temperar as telas brasileiras com suas especiarias autorais chinesas a partir da próxima quinta-feira, quando o aclamado drama As Montanhas Se Separam (Mountains May Depart) aporta nas telas nacionais, após um ano de espera. E sua chegada confirma o tônus humanista de um diretor sempre apto a surpreender pelo esgarçamento das fronteiras entre crônica, poesia e documentário. Galardoado com 11 prêmios pelo mundo afora, seu novo longa-metragem foi saudado com uivos de satisfação em Cannes, em 2015. Nele, o realizador de Plataforma (2000) patina por um terreno inóspito para sua cinematografia: o melodrama. Mas, mesmo com uma derrapada de roteiro aqui e acolá – algo perfeitamente normal a um cineasta que esnoba a linearidade convencional do storytelling -, Jia galga degraus mais ambiciosos em sua evolução como artista, criando uma ponte com a tradição de um gênero com o qual não é íntimo.
As Montanhas Se Separam Mountains May Depart Jia Zhang-Ke

Ao som de Go West, dos Pet Shop Boys, a China dos anos 1990 renasce na telona a partir de um triângulo amoroso entre Thao (Zhao Tao) e dois homens, um rico (Jinsheng) e um pobre (Liang). De 1999 a idos de 2025, as trajetórias dos três vão se emaranhar, até dar lugar aos conflitos internos do filho de Tao, Dollar (o ótimo Dong Zijang), que parte para a Austrália, falando inglês – a língua do “Oeste” cantado na canção dos PSB.

Como sempre, as incongruências sociais são o foco do diretor, que usa diferentes texturas de imagem para construir o visual do filme, incluindo granulações e efeitos de filtros coloridos que destorcem as cenas. Mas Jia vai além desse experimento formal, alcançando uma transcendência poética plena a evocação da cartilha do melodrama. A cena onde a mulher de Liang vai pedir ajuda financeira para Tao, ex-amada de seu marido, é de doer na alma pela observação que propicia da fraqueza humana frente à força do capital.

 

Jia ficou ainda mais conhecido no Brasil ao virar o tema de um documentário magistral de Walter Salles, O Homem de Fenyiang (2014), que é uma aula de investigação estética.

 

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