Com Mel Brooks, rir é viver… no CCBB

Com Mel Brooks, rir é viver… no CCBB

Rodrigo Fonseca

08 de fevereiro de 2020 | 11h16

Mel Brooks protagoniza e dirige “Tsc! Que droga de vida!” (“Life stinks”, 1991), que o CCBB-RJ exibe neste domingo de Oscar, às 19h10 – ou seja, dá tempo de sobra para ver a cerimônia da Academia

Rodrigo Fonseca
Às vésperas do Oscar 2020, que aposta de maneira muito oblíqua na comédia, bastando-se na irreverência de “Jojo Rabbit”, o Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB-RJ) dá espaço a uma retrospectiva que merecia uma estatueta por sua pertinência (e competência): Mel Brooks – Banzé no Cinema, que abriu na última quarta-feira e segue até 9 de março. É um estudo da mecânica criativa e provocativa do genial Melvin Kaminsky, roteirista, ator, diretor e produtor hoje com 93 anos. Sob a curadoria de Edu Reginato e José de Aguiar, a mostra ficará de 25 de março a 20 de abril no CCBB-SP e parte para a unidade de Brasília em 12 de maio, lá ficando até 7 de junho. É uma chance rara de se (re)ver em tela grande experimentações dele pelo terreno da paródia, num desafio constante à moral. Desafio que ele assume para si a partir de seus primeiros exercícios como redator, no fim dos anos 1940, passando ao posto de cineasta em 1967, com “Primavera para Hitler” (“The Producers”), que lhe valeu um troféu de melhor roteiro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollwood. Escreveu muito, dirigiu fenômenos na venda de ingresso, delineou uma série de TV antológica (“Agente 86”, exibida de 1965 a 1970) e ainda produziu pérolas como “Nunca te vi, sempre te amei” (1987), com sua mulher e parceira de vida e obra: Anne Bancroft (1931-2005). A boa deste sábado é conferir Leslie Nielsen brincando de Príncipe das Trevas, numa tiração de sarro com Coppola, em “Drácula, morto mais feliz” (“Dracula: dead and loving it”, 1995), que foi o último trabalho de Brooks na direção: a sessão será às 19h. No domingo, às 19h10, rola “Tsc! Que droga de vida!” (“Life stinks”, 1991), pilotado e estrelado por ele, num desempenho memorável, num jogo com a dramaturgia milenar de Aristófanes (“As nuvens”). Em várias fontes, o “Tsc!” desse título cai. No Brasil, os atores que mais (e melhor) dublaram Mel foram: Dráuzio de Oliveira, Orlando Drummond, Antônio Patiño, Luiz Carlos de Moraes, Domício Costa e Mario Monjardim, que também sempre dublava seu ator xodó: Gene Wilder.

Leslie Nielsen avacalha com o Além em “Drácula, morto, mas feliz” (“Dracula: Dead and loving it”, 1995″), que será exibido pela mostra neste sábado, às 19h

Nesta quinta, às 17h, rola no CCBB a obra-prima de Brooks como realizador: “Banzé no Oeste” (“Blazing Saddles”, 1974), que custou cerca de US$ 2,5 milhões e arrecadou US$ 119 milhões nas bilheterias dos EUA. Em seguida, no mesmo dia (13/2), às 19h, a mostra promove uma discussão sobre a influência dele na comédia mundial, incluindo o humor brasileiro. O tema vai render um debate com os palestrantes Gabriel Esteves, roteirista do Porta dos Fundos, e João Marcos Rodrigues, redator-chefe do programa “Lady Night”, com mediação de Reginato. Vai haver uma distribuição de senhas para esse bate-papo a partir das 18h.

Numa dupla entrevista ao P de Pop, os curadores do evento falam sobre a gênese da estética de Brooks.
Que linha de humor Mel Brooks criou e de que maneira ela mudou a história da TV e do cinema pelas vias da observação de costumes?
Edu Reginato:
O certo é dizer que Mel Brooks aprimorou à quase perfeição o gênero paródia no cinema. Desde os tempos do cinema mudo existe a paródia como, por exemplo, o curta “Help! Help!” (1912), de Mack Sennett, que é uma paródia de “Lonely Villa” (1909), de D.W. Griffith. Para a mostra selecionamos um longa do cinema-mudo que é uma outra paródia de um filme de Griffith: “As três idades” (1923), de Buster Keaton, parodia o filme “Intolerância” (1916), de D.W. Griffith. A paródia para existir tem que partir de uma memória do espectador. “Spaceballs”, aqui traduzido como “S.O.S. tem um louco solto no espaço”, de 1987, não seria uma paródia se não houvesse uma memória coletiva da saga “Star Wars”. Há uma releitura cômica do objeto parodiado, utilizando-se do humor debochado, mas não desestruturando sua marca estilística. Mel Brooks entendia profundamente o cinema e a estrutura estilística e textual dos gêneros que parodiava. A partir disso, estabelecia pontos que eram sua marca: um extraordinário equilíbrio entre o sofisticado e o grosseiro, entre o luxo e o lixo, entre o poético e o tosco. Essa maneira de trabalhar a comédia agradava crítica e público e nada disso havia sido feito até então. Devido à isso suas incursões na TV e no cinema eram um sucesso. Além disso, poucos conseguiram inserir na paródia de gênero críticas a questões tão delicadas como o fascismo, racismo, machismo e o capitalismo como Mel Brooks fez com maestria. Enquanto muitos dão boas risadas, talvez riem de um mea culpa sem saber de sua colaboração com uma sociedade tão hipócrita. Essa é a genialidade de Mel Brooks: utilizar o riso como discurso contra a retórica do horror.
De que maneira Brooks se destaca como realizador, indo além da força irônica da palavra?
José de Aguiar:
Mel Brooks se destaca como realizador em dois importantes aspectos. Em primeiro lugar, porque além de ser um comediante, ele sempre nutriu a aspiração de ser um cineasta, um realizador que refletia sobre a linguagem do cinema e isso se traduz na maneira meticulosa como constrói seus roteiros, na sua mise en scène, em seus elaborados movimentos de câmera e no tratamento estético que dá a seus filmes. Vale ainda ressaltar nesse aspecto seu fundamental papel de produtor, que deu condições para que nomes como David Lynch conseguissem prosperar em Hollywood.
Edu Reginato: O segundo aspecto importante de Brooks como realizador se dá na sua atitude crítica ao acreditar na importância de ir além do politicamente correto e do tabu social. Ele não tem limites ao se expressar como indivíduo e como artista. Sempre teve total ciência de sua liberdade e nunca deixou de expressar seu desgosto para qualquer coisa mesquinha da sociedade. Mel Brooks desativava minas, entre outras coisas, durante a 2ª Guerra Mundial e participou da libertação dos judeus de campos de concentração nazistas. Viu o horror na mais pura essência e transformou sua raiva em pulsão para tentar mudar a mente das pessoas através do riso.

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