‘Medea’: Alexander Zeldovich em rumo trágico

‘Medea’: Alexander Zeldovich em rumo trágico

Rodrigo Fonseca

10 de agosto de 2021 | 22h32

Alexander Zeldovich revê a gênese da tragédia em longa indicado ao Leopardo de Ouro

Rodrigo Fonseca
Filmando sazonalmente desde 1986, sendo sempre lembrado por “Moskva” (2000) e “Mishen” (2011), Alexander Zeldovich, da Rússia, disparou como favorito ao prêmio de melhor direção do 74º Festival de Locarno por ter desafiado as convenções da tragédia, lembrando que o formato de conexão dos mortais com os deuses, criado na Grécia à semelhança do canto de bodes é um gênero. Aos 62 anos, o cineasta moscovita faz esse desafio em “Medea”, um dos 17 concorrentes ao troféu Leopardo de Ouro do evento suíço, inaugurado no dia 4. Seu novo longa-metragem se reporta ao mito da mulher que mata os filhos para mexer com os brios do marido. Mas, na versão do diretor – brilhantemente conduzida em planos austeros, de câmera fixa – saímos da Grécia dos oráculos e caímos em terras eslavas, acompanhando o arrependimento de uma Medeia tatuada, vivida por Tina Dalakishvili. Até o momento não apareceu quem tirasse dela o prêmio de melhor atriz.
“A Rússia tornou-se um país muito feminino, uma vez que as mulheres lideram muitas famílias. Mas, aqui, temos uma mulher que perdeu sua âncora e se vê diante de uma sensação de vazio, de desconexão com o mundo sentimental”, define Zeldovich ao Estadão.

Cena de “Medea”

Ao longo de 139 minutos, Medeia purga todos os seus arrependimentos enquanto tenta se entorpecer para aliviar suas dores. “O filme não revisita o mito pela fatalidade e, sim, sobre o irreversível da vida, sob a percepção de que cada momento pode ser decisivo, crucial para uma vida. Sempre considero superficial entender a tragédia como uma estrutura de gênero didática para nos ensinar lições que já estão em nossos DNAs. A tragédia nos ajuda a entender para que direção estamos indo”, diz Zeldovich, afirmando ter misturado elementos fabulares a um registro realista claustrofóbico. “Não quis fazer um filme sobre laços de família, sobre relações, e, sim, sobre isolamentos”.
Na conexão com a dimensão mítica dos gregos, Zeldovich diz que é preciso analisar a ideia de destino a partir do que o cotidiano nos revela, tanto sob uma dimensão espiritual quanto por uma dimensão física. Não por acaso, sua protagonista emprega cada músculo e nervo para criar Medeia. “Usei uma coreógrafa, do teatro, para conduzir os movimentos da atriz, inclusive nas cenas de sexo, orientando onde ela deveria encaixar a perna e mover a mão, como num balé. Um balé capaz de traduz biologicamente o que somos”, diz o realizador, que surpreendeu Locarno com a aspereza de sua mirada sobre o sofrimento. “Medeia é movida pelo instinto”.

Fala-se por todo o canto da imprensa europeia especializada em cinema da boa reverberação de “After Blue (Paradis Sale)”, de Bertrand Mandico, em Locarno, que segue sendo o favorito ao Leopardo de Ouro. Segue, pelo menos até quinta, quando Abel Ferrara chega aqui com seu aguardado “Zeros and Ones”, tendo Ethan Hawke como um agente às voltas com conspirações paralelas à covid-19. Cineasta não binário, Mandico é o (ou a ou e, pra ele, vale tudo) queridinho da “Cahiers du Cinéma” (revista que serve de bíblia à cinefilia desde os anos 1950) trouxe à Suíça uma fantasia sobre um mundo onde apenas há mulheres. Lá, uma jovem vai caçar uma djin, criatura capaz de realizar desejos, qual o Gênio da Lâmpada, chamada Kate Bush. Sua direção de arte é de um requinte singular. Mas cresce a cada minuto a torcida em prol de um longa da Indonésia: “Seperti Dendam, Ridu Harus Dibayar Tuntas” (“Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash”), de um diretor chamado só de Edwin. Nele vemos uma ode ao cinema B de artes marciais de Hong Kong a partir da saga de um lutador e matador de aluguel que toma uma coça de uma jovem, também assassina, e se apaixona por ela, comprando brigas com criminosos e ex-afetos da moça.

Ryan Reynolds se livra dos ranços de Deadpool em “Free Guy”

Na terça, a Piazza Grande de Locarno foi ao delírio com um dos blockbusters mais esperados (e mais ousados) do ano: “Free Guy: Assumindo o Controle”, do canadense Shawn Levy, com Ryan Reynolds a se libertar da persona de Deadpool e viver um NPC (personagem não controlável) de um mundo de videogames, tendo o diretor Taika Waititi (de “JoJo Rabbit”) como vilão. É um delicioso ataque da Fox, hoje ligada à Disney, à cultura algorítmica no mercado audiovisual. Nele, a feérica montagem de Dean Zimmerman eletriza a saga de um ser virtual que ser gente. A trama tem a marca autoralíssima do roteirista Zak Penn (de “O Último Grande Herói”) na redação das cenas.
Locarno termina neste sábado, com a entrega de prêmios e a projeção de “Respect”, a biopic da cantora Aretha Franklin (1942-2018), com direção de Liesl Tommy.

p.s.: Grande sucesso de público nas plataformas virtuais, o espetáculo “Helena Blavatsky, a voz do silêncio” inicia nova temporada, a partir de 22 de agosto, com sessões ao vivo. Com texto da filósofa Lucia Helena Galvão e encenação de Luiz Antônio Rocha, o monólogo com Beth Zalcman já foi visto por mais de 7 mil espectadores desde o ano passado. Helena Petrovna Blavatsky foi uma das figuras mais notáveis do mundo nas últimas décadas do século 19, tornando-se imprescindível para o pensamento moderno. Incansável buscadora de sabedoria antiga e atemporal, ela criou uma vasta obra, que influenciou cientistas, escritores, artistas e inúmeros pensadores. “A montagem procura nos levar do irreal ao real, das ilusões à verdade espiritual, da ignorância à sabedoria que ilumina o propósito da existência. Interpretar Helena Petrovna Blavatsky é mergulhar no improvável, no intangível. Nada mais desafiador para uma atriz realizar um texto que demanda extrema sensibilidade, concentração e imaginação e transportar a plateia para um universo de possibilidades”, define a atriz Beth Zalcman. As apresentações serão aos domingos, às 19h30, e às terças-feiras, às 20h, com ingressos pelo Sympla: www.sympla.com.br/produtor/helenablavatskyavozdosilencio.

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