Com ‘Iran’, Walter Carvalho cai na real_virtual

Com ‘Iran’, Walter Carvalho cai na real_virtual

Rodrigo Fonseca

11 de julho de 2020 | 11h32

Irandhir Santos tem seu método de preparo esquadrinhado por Walter Carvalho em “Iran”

Rodrigo Fonseca
Ator dos mais versáteis do audiovisual latino-americano, no apogeu de seu sucesso popular no papel do vilão da novela “Amor de Mãe”, Irandhir Santos tomou esta 40ena de assalto ao fazer o líder de uma cidadezinha de pescadores em “Piedade”, exibido no streaming do Espaço Itaú com enorme sucesso de público. E ele voltará a mobilizar a web numa outra latitude que não a da ficção…. a latitude documental… em “Iran”, fino experimento narrativo de Walter Carvalho, que integra o seminário Na Real_Virtual. Organizado sob a curadoria (e a mediação) do crítico Carlos Alberto Mattos e do cineasta Bebeto Abrantes, o simpósio vai ocorrer online, de 20 de julho a 14 de agosto, às segundas, quartas e sextas. Participarão os documentaristas Belisario Franca, Cao Guimarães, Carlos Nader, Emilio Domingos, Gabriel Mascaro, João Moreira Salles, Joel Pizzini, Marcelo Gomes, Maria Augusta Ramos, Petra Costa, Rodrigo Siqueira e Walter, com seu longa sobre o método de criação de Irandhir. Para conhecer a joia teórica o que Mattos e Bebeto lapidaram, basta acessar https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020.

O cardápio contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 20/7 – Observar o mundo – Maria Augusta Ramos. Filme: Seca
Dia 22/7 – A imagem questionada – João Moreira Salles. Filme: No Intenso Agora
Dia 24/7 – A poética do simples – Cao Guimarães. Filme: A Alma do Osso
Dia 27/7 – O tempo como matéria – Carlos Nader. Filme: Homem Comum
Dia 29/7 – O eu filmado e minha família – Petra Costa. Filme: Elena
Dia 31/7 – Retratos de artistas – Walter Carvalho. Filme: Iran
Dia 3/8 – Nos baús da História – Belisario Franca. Filme: Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

No dia 31/7 será a oportunidade de entender o que Walter foi buscar na jornada de criação de Irandhir, em filmes e novelas. Mas o que se diz desse experimento:
Tem um barulho esquisito, gutural, tipo um rééééé ou ráááá de limpar pigarros, que serve de música para “Iran”, um óvni sensorial com textura e conceito típicos das artes plásticas lançado na Première Brasil do Festival do Rio de 2017, tendo trombado contra o menu gustativo padrão de documentários do evento. É um troço em branco, preto, rabiscos em papel, dormentes de trilho, engenhocas de trem. Um troço que ganha sentido (político, sobretudo) na tela, como cinema, graça a junção de objetos e de tensões arranjada por Walter Carvalho. O sentido vem de uma percepção: o animal mais indomável do zoológico de vidro que se tornou a comédia humana nossa de cada dia é o ator. O bicho em questão, de quem vem o filme, é Irandhir Santos, profeta de sua própria história nas telas e de uma História de acertos na estética do ruído, da peleja. A partir dos ritos de preparação de Irandhir pra entrar em cena, Carvalho descasca camadas poéticas capazes de gerar um ensaio sinestésico sobre a solidão de alguém que interpreta outrem para sobreviver. É um ensaio sobre modos de estar, que embora pareça seguir um conceito de instalação, se quer filme, pede a tela grande e não uma galeria de centro cultural ou museu.
O que temos diante de nós é um spin-off do cult “Redemoinho”, usando imagens de bastidor deste longa de 2016, dirigido por José Luiz Villamarim a partir da prosa do mineiro Luiz Ruffato. Palavras de Ruffato ou do roteirista George Moura, “Iran” dispensa. Só ficam letras escritas e murmúrios. Fica Irandhir andando de bicicleta e se exercitando, sem que isso gere narrativa formal de travessia. É uma natureza experimental, que exponencia a busca recente de Carvalho, como realizador, investigando potências craitivas de artistas, sejam eles músicos (“Raul – O Começo, O Fim e o Meio”), poetas (“Manter a Linha da Cordilheira Sem o Desmaio da Planície”), menestréis (“Brincante”) ou… atores. Nesses outros filmes, víamos ainda uma estrutura de aproximação com entrevista, com observação direta de ações práticas. Tudo isso cai em Iran: sai o todo e fica a parte. A metonímia é a lei.
Maior fotografo de nosso cinema na atualidade, o diretor paraibano gera um fluxo visual de um preto e branco arrebatador. Em termos plásticos, é um filme de potência gigantesca. Mas encarar este experimento exige paciência. Muita… o próprio Carvalho usou o termo “crespo” para referir-se à sua forma gongólica, que não se apresenta de modo retilíneo. Mas é possível se extrair dele um prazer sensorial dos mais cálidos em sua contemplação sobre o Tempo, um tempo que nasce biológico (no corpo de Irandhir) e vira um tempo metafísico, ontológico. É algo que lembra o que Mario Peixoto fez em “Limite” (1931): um olhar sobre o fluxo e um pensamento a partir da lírica que o fluxo gera.

p.s.: À 13h50 deste sábado, a TV Globo resgata um dos maiores hits do amor romântico da década de 1990: “O Guarda-Costas” (“The Bodyguard”, 1992), produção de US$ 122 milhões cuja bilheteria beirou US$ 411 milhões. Hélio Ribeiro dubla Kevin Costner, que dá uma aula de charme no papel do segurança profissional Frank Farmer, escalado para proteger uma cantora, Rachel Marron (Whitney Houston), indicada ao Oscar. Ela está sob ameaça de morte e só um samurai urbano como Farmer pode salvá-la.

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