Zack Snyder, sua ‘Liga da Justiça’ é colossal

Zack Snyder, sua ‘Liga da Justiça’ é colossal

Rodrigo Fonseca

18 de março de 2021 | 22h30

Darkseid é o pilar do Mal da DC Comics

RODRIGO FONSECA
Após a morte de sua filha, Autumn, que se suicidou em 2017, aos 20 anos, Zachary Edward Snyder resolveu reivindicar não apenas a paternidade mas, sobretudo, a autoralidade sobre “Liga da Justiça” abrindo mão, parcialmente, daquilo que lhe é a assinatura temática mais peculiar: o niilismo. Desde “Madrugada dos Mortos” (2004), tudo o que ele filme flerta com a derrota dos heróis, com corrupção da alma boa da Setsuan de todos nós, celebrando a falta de saída para o modo como conduzimos o mundo. O termo “celebração” aí atrás se refere não a um festejo, mas a uma iluminação: entender a iminência do desastre não é torcer por ele. Mas para retomar pra si o material que Joss Whedon descaracterizou – ao assumir o corte final do longa que Snyder preparou a partir dos Superamigos, logo após a perda de Autumn -, o diretor de “300” (2007) precisou romper com seu próprio catastrofismo e fazer a crença na redenção vingar. Existe, no trecho final de seu colossal “Zack Snyder’s Justice League” – após três horas e 40 de melodrama, adrenalina, digressões filosóficas e uma antológica sequência do Batmóvel cantando pneu – um ensejo dramatúrgico de colapso civilizatório. Algo que leitores de HQs chamam de “what if…”, literalmente “o que aconteceria se…”, numa espécie de realidade paralela hipotética, com direito à (mais uma) evidência de que Jared Leto é um gigante. Mas não há que se falar disso, para evitar um estraga-prazeres desnecessário. Até porque essa tal circunstância é um afluente possível, não certeiro, para futura continuações, embora esteja em total conexão com toda a tradição da DC Comics, a editora de onde vieram os personagens do longa-metragem de quatro lépidas horas atualmente disponível em diversos streamings, antes da chegada da HBO Max por cá. Aliás, TUDO parece consonante com a mitologia da DC, desde a aparição de um Lanterna Verde alienígena na Idade Antiga da Terra até a chegada do Caçador de Marte (outrora Ajax), vivido por Harry Lennix, como um observador dos dilemas da Liga. Mas o que conta não é esse extracampo quadrinístico. O que conta é o autossacrifício autoral de Snyder em prol de sua própria cria, retorcendo seu modo de compreensão e de representação de mundo em nome de uma aventura com tons épica que não deve JAMAIS ser confundida com minissérie ou qualquer outro formado serializado. Não existem ganchos de virada de bloco, não existe uma estrutura serialização de seus “capítulos”. As aspas se referem a eixos, hemisférios, nos quais o diretor divide seu longo – porém preciso – diretor’s cut, dando ao espectador um respiro para um turbilhão sinestésico, no qual reciclou o que aqui havia de melhor na versão de 2017, trazendo MUITA coisa nova, descartando piadinhas tolas e dando ao Homem de Aço de Henry Cavill uma sequência apoteótica. O diálogo do Cyborg (Ray Fisher, ator que mais brigou com Whedon) sobre sua aposta na Humanidade é de arrancar lágrimas. E Snyder ainda conseguiu depurar o visual de seu vilão, o Lobo da Espete, fazendo dele uma ameaça de dar medo, apoiado na voz de Ciarán Hinds. Ele ainda dá forma à mais tenebrosa encarnação da Maldade da DC, Darkseid (Ray Porter), criatura capaz de deixar o Thannos da Marvel no chinelo.

Lobo da Estepe

Com uma bilheteria estimada em US$ 657,9 milhões, o filme original enfrentou mudanças de roteiro e uma mudança brusca de liderança depois que Snyder saiu. Whedon não conseguiu eliminar “defeitos especiais” na imagem e não explorou Darkseid, apoiando-se na canhestra caracterização digital do Lobo da Estepe. Mesmo assim, o que foi ao circuito provocou debates radicais sobre a representação do Bem e do Mal. Nesta era fantasiada de pop em que as HQs se tornaram o combustível da indústria audiovisual do entretenimento, ofertando à dramaturgia um formato inusitado e renovador (o de saga), o febril “Liga da Justiça” conseguiu, mesmo com suas imperfeições, ser um balão de oxigênio para a fantasia, que põe em xeque o desamparo moral, as desavenças de pontos de vista e o culto ao ódio. Mas tudo ficou ainda melhor agora, muito acima da encomenda, e com Ben Affleck ainda melhor valorizado, vide a tal sequência do Batmóvel. O melhor de tudo é ver Snyder dar a “sua” cara para o projeto, enchendo os entreatos de música pop e dando enquadramentos similares aos de seus videoclipes com Morrissey e Rod Stewart, saturando cores (na fotografia de Fabian Wagner), apostando em câmera lenta, arrancando sangue e debatendo a moralidade da Lei. É o primeiro grande filme de 2021. Um épico pra ficar.
p.s.: Na versão brasileira, Alexandre Moreno torna o Coringa de Leto um titã. Que dublador genial. Aplausos para Jorge Lucas como Batman e para o Superman de Guilherme Briggs.

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