Colômbia decola nos debates de Marrakech

Colômbia decola nos debates de Marrakech

Rodrigo Fonseca

03 de dezembro de 2019 | 15h24

RODRIGO FONSECA
Pátria latino-americana hoje ascendente no planisfério cinéfilo, de carona na potência visual de filmes recentes como “O abraço da serpente”, “A Terra e a Sombra” e “Pássaros de Verão”, a Colômbia detonou uma série de debates no 18º Festival de Marrakech sobre limites políticos do realismo nas telas. As discussões foram alimentadas pela narrativa esturricada de “Tantas almas”. Coprodução com o Brasil, orçada em cerca de €650 mil, o longa-metragem é um dos 14 concorrentes à Estrela de Ouro de 2019 no evento – um dos que mais renderam reflexões sobre estruturas formais. Seu realizador é Nicolás Rincón Gille, um diretor egresso da linhagem documental, onde tornou-se conhecido com exercícios de investigação como “Noche herida” (2015). No novo trabalho, ele bebe na cristalina fonte do cineasta português Pedro Costa (de “No quarto de Vanda”), em seu trabalho com os imigrantes cabo-verdianos das Fontainhas, para dirigir seu elenco de atores sem profissionalização. Seu protagonista, Arley de Jesús, é um pescador sem experiência prévia de atuação. Na trama, ambientada em 2002 e rodada em Simití (a 8 horas de carro + barco de Cartagena), Arley encarna José, um pai que corre atrás do corpo de dois de seus filhos, mortos por contas das guerrilhas em sua pátria, e jogados no rio.
“A presença desses mortos fica com ele, mas não como fantasmas, como se vê nos filmes de Apichatpong Weerasethakul, mas como um espectro de contradições políticas de violência que não são um problema exclusivo da Colômbia, mas de toda a América Latina”, explica Gille ao P de Pop, lembrando que a convicção de Arley, em suas experiências com as práticas cotidianas daquela região de pântano, foi essencial para a escolha de seu “ator” nesse doído longa. “O cinema vai atrás de grandes presenças, de almas que só alguns têm, almas raras. Arley é uma delas”.

Em sua viagem pelo Marrocos, Gille está acompanhado pelos produtores Manuel Ruiz Montealegre e Héctor Ulloque Franco, que compartilham impressões acerca dos altos e baixos da realidade social de sua nação. “No nosso país, com o em boa parte do continente, a História segue sendo escrita por militares e políticos. José é um representante de uma Colômbia sem voz”, diz Montealegre, citando a importância dos produtores brasileiros Larissa Figueiredo e Rafael Urban para o projeto, que conta com artistas nacionais como Laís Melo (na direção de arte) e Edson Secco (no desenho do som).
Ele e seus conterrâneos comungam também em suas impressões em relação à economia cinematográfica colombiana. “O Fundo Nacional ajudou nossa produção a se ampliar e a se diversificar, mas ainda esbarramos no problema da falta de público para nossos filmes”, disse Nicolás. “A dificuldade é atrair nossos espectadores para ver nossa produção”.
Ao dissecar o cotidiano trágico de José, “Tantas almas” devassa o desemparo de um território assolado pela brutalidade e pela invisibilidade aos olhos do Estado. “Não se faz cinema sem ética”, diz Gille. “É a ética que desenha o futuro”.

Nesta terça, Marrakech convidou o produtor de “O último imperador” (1987), Jeremy Thomas, para a série Conversações, debates com uma plateia de cinéfilos, estudantes e jornalistas de variadas nações, dos quais já participaram Marion Cotillard, Golshifteh Farahani e Harvey Keitel. O histórico de Thomas é louvável, com destaque para o sucesso que teve em Cannes, durante a projeção de “Primeiro Amor” (“First love”/ “Hatsukoi”), de Takashi Miike, que vai ser exibido no Festival do Rio (9 a 19 de dezembro). Mas o motivo real do convite a ele é o desejo do evento de saber, em primeira mão, detalhes sobre a esperada versão de “Pinóquio” (“Pinocchio”), dirigida por Matteo Garrone (de “Gomorra”), que ele produziu, fiando-se em um orçamento estimado em € 14,7 milhões. Roberto Benigni vive Geppetto e Federico Ielapi foi escalado para viver o boneco de madeira que sonha ganhar carne e osso, para virar um guri de verdade. O longa estreia dia 19, de olho nas bilheterias geralmente gorduchas da temporada de Natal. Na França, o lançamento será no dia 18 de março.
Neste sábado, o Festival de Marrakech chega ao fim, com a entrega dos prêmios pelo júri presidido por Tilda Swinton. “Dente de leite” (“Babyteeth”), de Shannon Murphy, produção vinda da Austrália do Louco Max de Miller, é o favorito a prêmios até agora. Mas, na quinta, “A Febre”, da carioca Maya Da-Rin, passa por aqui com fôlego para mudar o placar. Nele, a diretora narra os dilemas do índio Justino (Regis Myrupu) diante da aparição de um misterioso animal em sua vizinhança e diante de uma moléstia que altera as CNTP de seu corpo.

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