Coleção ‘Cadernos de Cinema’ celebra Karim Aïnouz

Coleção ‘Cadernos de Cinema’ celebra Karim Aïnouz

Rodrigo Fonseca

27 de abril de 2022 | 13h11

RODRIGO FONSECA
Laureado em Cannes com o Prix Un Certain Regard, em 2019, por “A Vida Invisível”, o diretor cearense Karim Aïnouz tem sua obra esquadrinhada em detalhes na nova publicação da coleção “Cadernos de Cinema”, idealizada por Sergio Cohn, da Azougue Editorial. Já saíram por lá estudos preciosos sobre o Cinema Novo e os diretores Rogério Sganzerla (1946-2004) e Ruy Guerra. O lançamento do volume dedicado a Karim será esta noite, às 19h, no Estação Botafogo, no Rio de Janeiro, num evento feito com a sinergia do cineasta e produtor Cavi Borges. O número em tributo a Karim festeja os 20 anos de “Madame Satã”, longa que projetou o cineasta. Editor de 300 livros, Cohn fala ao Estadão sobre como opera na produção de seu brasileiríssimo projeto “cahiers”, vendido por assinatura.

Sergio Cohn é o editor do projeto “Cadernos” e cuida das publicações da Azougue

Qual é o critério de seleção das/os realizadores que integram os Cadernos de Cinema e de que maneira você operacionaliza o resgate dos materiais de arquivo e depoimentos das vozes autorais homenageadas nas publicações?
SERGIO COHN:
O critério de seleção dos homenageados dos “Cadernos de Cinema” está inteiramente vinculado ao formato de realização do projeto. Explico: por ser uma coleção por assinatura, sem limite de edições, os “Cadernos” podem se permitir uma maior abrangência de nomes, não precisando ficar restrito aos mais conhecidos e com maior viabilidade de público. Os grandes nomes possibilitam que a coleção exista, e, daí, podemos realizar volumes sobre realizadores que não são tão conhecidos, ampliando a bibliografia sobre cinema nacional. Desta forma, a nossa proposta editorial é retomar nomes e, também, abrir espaço para contemporâneos, sempre buscando a maior representatividade possível, em todos os sentidos. Gostaria de ressaltar esse ponto: muitas vezes se questiona o motivo da coleção ser por assinatura, sem permitir que se compre volumes avulsos. Pois bem, isso é pensado exatamente para conseguirmos criar um panorama com maior abrangência e liberdade curatorial, com esse objetivo de se renovar a bibliografia sobre o cinema brasileiro. O projeto não possui nenhum recurso externo além dos assinantes. Então, precisamos disso para poder sustentar todos os custos de pesquisa e gastos editoriais e gráficos. Se tivéssemos que pensar caso a caso, certamente teríamos que restringir nossa curadoria aos nomes mais conhecidos do público ou mais consagrados da crítica, que são capazes de ter uma venda que cubra os custos de edição. Além disso, o livro por assinatura é comercializado por venda direta para o leitor, sem passar por intermediários, o que permite que façamos volumes com grande cuidado gráfico e um preço de capa que é cerca da metade do que precisaríamos cobrar em livrarias. As livrarias costumam consignar os livros, cobrando em média 50% do preço de capa. Isso torna o produto mais acessível para estudantes e pesquisadores. Sobre o resgate de material, este é o trabalho mais prazeroso de todos: mergulhar em arquivos, encontrar raridades, privar de conversas com grandes realizadores e, o que é melhor de tudo, depois trazer isso a público, podendo compartilhar as descobertas. A equipe editorial dos “Cadernos” é formada por cinéfilos. Mesmo Cristián Plaza, nosso editor chileno, é um apaixonado pelo cinema brasileiro, tendo quase realizado uma pós-graduação sobre Glauber Rocha com Ismail Xavier. Ou seja, é um projeto feito com muita alegria e dedicação.

Qual é o lugar de um diretor da Retomada como Karim Aïnouz no pódio de homenageados que a série editorial “Cadernos de Cinema” já fez até aqui?
SERGIO COHN:
Karim Aïnouz é um cineasta maravilhoso, que possui um lugar de destaque dentro do cinema brasileiro de qualquer tempo. No caso dos “Cadernos”, ele está em um lugar importante, porque é um renovador que conseguiu unir a experimentação de linguagem com o diálogo com o público, realizando filmes com grande ressonância, sem nunca se furtar da originalidade de expressão. Ao fazer isso, a partir da primeira década dos anos 2000, consolidou – depois da bela experiência do “Baile Perfumado”, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas- a abertura de possibilidades para uma nova geração de cineastas que busca, ao mesmo tempo, a expressão e o diálogo com o público. Nos interessa, no projeto dos “Cadernos de Cinema”, realizar volumes desde cineastas pioneiros, como Humberto Mauro e Mário Peixoto, e chegar até a novíssima geração, com Juliana Rojas, por exemplo.

Como se dá o trabalho com a Cavídeo para a promoção e o lançamento desses Cadernos?
SERGIO COHN:
O Cavi Borges é uma figura central do cinema brasileiro atual. Um inquieto que é capaz de realizar, sozinho, mais do que muitas instituições públicas de cultura fazem. Ter ele ao nosso lado no projeto é uma felicidade imensa e possibilita que se realize uma ponte com os fazedores de cinema. Cavi tem uma rede fortíssima de colaboradores, extremamente envolvidos com a cultura de modo geral. Ao mesmo tempo, os lançamentos presenciais, com exibição de filmes e mesas de debates, permitem atualizar a troca em torno da coleção, criar diálogos e celebrar a conquista de cada volume. Porque cada volume é, também, uma conquista árdua, e que não seria possível sem festa, sem a alegria coletiva em torno da arte.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.