‘Cobra Kai’ sob a Graça de Magalhães

‘Cobra Kai’ sob a Graça de Magalhães

Rodrigo Fonseca

03 de janeiro de 2021 | 11h16

Pat Morita (1932-2005) concorreu ao Oscar de melhor ator coadjuvante pelo papel do Sr. Miyagi na franquia “Karate Kid”, cujo primeiro filme, de 1984, faturou US$ 104 milhões nas bilheterias

RODRIGO FONSECA
Entre as múltiplas razões estéticas para se assistir a “Cobra Kai” com enorme prazer, indo de uma refinada edição (assinada por Zack Arnold, Bartholomew Burcham e Dexter N. Adriano), a uma reflexão sobre as convenções do politicamente correto, merece um especial aplauso o resgate das imagens de “Karate Kid – A Hora da Verdade” (1984), que serviu de matriz ao projeto. Mas, no Brasil, a Netflix, que assumiu a série no ano passado, importando-a do YouTube, fez um gesto da mais alta nobreza, em sua terceira temporada, que merece nossa gratidão: recuperou as vozes da banda sonora dublada original do longa-metragem dos anos 1980. É comovente ouvir um gênio da dublagem, respeitado também nos palcos, o ator (José de) Magalhães Graça (1927-1989), novamente, e num som tão cristalino quanto era o das primeiras transmissões do filme de John G. Avildsen (1935-2017), pela Globo, na segunda metade dos anos 1980. Envolvido com teatro desde 1946, Magalhães, que entrou para o rádio em 1949 e engajou-se na arte de dublar em 1952, celebrizou-se em nossos tímpanos no papel do Sr. Miyagi, vivido por Noriyuki Pat Morita (1932-2005). No início da década passada, a Sony Pictures, detentora dos direitos da franquia “Karate Kid” levou à TV aberta uma redublagem – um crime simbólico contra o patrimônio artístico e afetivo de várias gerações – do filme de 84, escalando Luiz Carlos de Moraes para dar voz a Morita, limando o trabalho feito no Estúdios Herbert Richers. Com isso, desapareceu a voz de Magalhães. Por isso, o cuidado que a Netflix teve, em resgatar o áudio do passado, tem (simbolicamente) o mesmo valor do restauro de uma obra de artes plásticas. E essa restauração faz parte do primoroso trabalho de dublagem do seriado feito no estúdio Som de Vera Cruz, sob a direção de Erick Bougleux e Leonardo Santhos. Em 2020, quando as duas primeiras temporadas foram parar no acervo da streaminguesfera, sob a grife da grande N, eles marcaram um golaço ao escalarem Nizo Neto para dublar Daniel LaRusso (Ralph Macchio) e convocarem Mário Jorge para dar voz a Johnny Lawrence (William Zabka). Agora, o acerto envolve a recuperação do gogó de Magalhães e o do igualmente genial Garcia Neto (1931-1996), que assumiu a voz de Miyagi no terceiro tomo da trilogia carateca de Avildsen, exibida no Brasil em 1992. Um outro ator, Eleu Salvador, dublou Morita em “Karate Kid IV – Uma Nova Aventura” (1994), com Hilary Swank como protagonista. Mas esta fase da saga ainda não foi retrabalhada. Ouvindo os retalhos das partes I e II de “Karate Kid” em “Cobra Kai”, ainda somos brindados com a retomada do trabalho do jovem Selton Mello dublando Macchio. A Netflix ainda conseguiu reaver a interpretação de LaRusso (1944-1998) que foi o primeiro (grande) ator a dublar Macchio no papel de Daniel San, sob a direção de Ângela Bonatti.

Magalhães Graça (1927-1989) em ação

Ainda acerca da versão brasileira de “Cobra Kai”, é encantadora a afinação de Nizo, em seu melhor trabalho em dublagem em anos. Ele consegue realçar toda a fragilidade que marca Daniel LaRusso, mesmo em sua madureza. É um desempenho cuidadoso, de um ator que alcançou a excelência em seu trabalho no filme “O Prefeito” (2015). Mário Jorge, que anda arrancando lágrimas no trailer de “O Príncipe em Nova York 2” (a sair em março pela Amazon Prime), eleva o personagem Johnny Lawrence a um platô de humanismo inquietante. Esse titã que Mário Jorge é realça a condição essencial de perdedor que o lutador de caratê encarnado por Zabka transpira. É bonito ouvir também o competente exercício de modulação vocal feito por Luiz Feier Motta dublando o durão Martin Kove no papel do sensei Kreese.

p.s.: Exibido fora da disputa pelo Urso de Ouro na Berlinale passada, “Time to Hunt”, dirigido por Toon Sung-hyun, ficou onipresente nas listas dos melhores filmes de 2020 e pode ser conferido na mesma Netflix onde rola “Cobra Kai”. É difícil encontrar um filme com voltagem mais alta do que “Sa-nyang-eui-si-gan”, cuja projeção abarrotou salas no 70. Festival de Berlim. É uma narrativa que desafia os padrões da adrenalina elevados por Hollywood dos anos 1980 pra cá. A trama acompanha um ex-presidiário que, ao sair da prisão, é convencido por seus amigos a voltar ao mundo do crime e assaltar um cassino. Nele temos um personagem mau memorável: o assassino Han, papel que Park Hae-soo encara de forma magistral.

p.s.2: Pilar do cinema moderno no Brasil, “Rio 40 Graus” (1955), de Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), está no streaming, na grade do Globoplay, que trouxe ainda “Eles Não Usam Black-Tie” (Prêmio Especial do Júri em Veneza, em 1981), de Leon Hirzsman (1938-1977) para a web. Aliás, o cardápio brasileiro que a plataforma global sedia é primoroso.

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