Cláudio Mendes, o Zé Trindade de Bressane

Cláudio Mendes, o Zé Trindade de Bressane

Rodrigo Fonseca

14 de dezembro de 2021 | 13h52

Cláudio Mendes dança com Josie Antello um balé de libertação de sentidos no novo longa do mestre do cinema de invenção, que estreou no exterior em Roterdã e será exibido no sábado no Festival do Rio

RODRIGO FONSECA
Frente ao meticuloso puzzle de sentidos montado por Mariana Ximenes, numa atuação com a inteligência à flor da pele, ao encarnar os olhos de ressaca da personagem mais indecifrável de nossa literatura, “Capitu e o Capítulo”, exibido na segunda, no 16º Fest Aruanda, não deixa a seu elenco outra alternativa que não nos desafiar por uma esgrima que vai além das palavras de Machado de Assis (1839-1908). O que o público de João Pessoa viu, na disputa de prêmios de sua maratona cinéfila, foi um desfolhar de “Dom Casmurro” (1899) pela lupa semiótica de Júlio Eduardo Bressane de Azevedo. Sua produção de filmes, em 55 anos na direção, é ampla, com pelo menos duas obras-primas: “Tabu” (1982) e “O Mandarim” (1995). Mas seu trânsito pelos campos de centeio machadianos – onde se deitou para rodar “Brás Cubas”, de 1985, e “A Erva do Rato”, de 2008 – rende seu filme mais requintado (na direção de arte, na fotografia e na lida com Ximenes) em uma década. E é, talvez seu mais ousado rito de desmistificar formas de representação – coisa que fez, com Hollywood, e não com a literatura, em “Cleópatra”, de 2007. Mas o sintoma de humanidade (e, quiçá, de cinefilia) mais aflorado em sua analítica estrutura narrativa é a atuação quase clownesca – digna de gigantes das chanchadas da Atlântida como Zé Trindade e Colé – feita por Cláudio Mendes, no papel de José Dias. Qual se falou antes, em meio a um ritual de empoderamento de Capitu, no qual Mariana X esculpe a “cigana oblíqua” qual uma pombajira, os demais intérpretes parecem desafiados a encontrar frestas no verbo e mesmo no gestual. O Bentinho de Vladimir Brichta, por exemplo, parece não ter centro em sua gravidade, andando de modo trôpego, quase diagonal, expondo o peso da angústia que devora sua alma, na dúvida de ter sido traído ou não. Djin Sganzerla, como Sancha, desliza qual fosse espuma, num falar baixo, ronronado. Saulo Rodrigues, compondo um Escobar venenoso – quase tão perigoso como o de Raul Cortez em “Capitu”, filmado por Paulo Cezar Saraceni em 1968 – é um colosso impávido. Para dar vida a Casmurro, o Bentinho de madureza, Enrique Diaz se assemelha a um pierrô, recitando para a Colombina do Destino os poetas lidos por Machado. Mas Cláudio faz algo mais… carnavalesco.

Colaboradora recorrente de Bressane, vista em “Filme de Amor” (2003), “Cleópatra” e em “Educação Sentimenal” (2013), Josie Antello é a parceira que oferece ao José Dias de Cláudio o diapasão preciso para sua loucura criativa reverberar. Ela dança com ele. É uma dança que sintetiza novos caminhos para se aproximar do pensamento do Bruxo do Cosme Velho. Ator de fartíssimos recursos cênicos, como se viu nos palcos na montagem de “O que diz Molero”, em 2003, Mendes despertou a atenção do cinema no curta-metragem “Truques, Xaropes e Outros Artigos de Confiança”, de Eduardo Goldenstein, também há 18 anos. Em geral, em cena, o sorriso dele tem a temperatura acolhedora do heroísmo do rendimento (linha de personagens oprimida por vetores econômicos), traduzido em nossa telona por Zé Trindade. No longa de Bressane, vemos a vaidade e até a futilidade de uma classe que não é a de seu José Dias. Com a sagacidade dos que já tiveram fome e apelaram para a inteligência – nunca para o pedigree – a fim de saciá-la, o José Dias de Mendes tem a medida do que há de medíocre na burguesia e tem a sagacidade de se aproveitar da miopia do que os cercam. Mas o faz sem perder a dignidade, carnavalizando opções num filme que parece uma P.A. (progressão aritmética) de sensações. Que Bressane delicioso, com exibição na 23ª edição do Festival do Rio neste sábado, às 20h, no Cinépolis Lagoon, e com repeteco no domingo, às 19h, no Estação NET Rio.
É comum se ouvir falar do cinema de Bressane como sendo o que de mais hermético que o audiovisual brasileiro já produziu. Talvez essa deselegância se perpetue porque a transcendência por ele alcançada (e generosamente compartilhada conosco, filme a filme) exija um grau de liberdade que demanda disposição para incomodo e para reticências e demanda a humildade de não esperar uma resposta de tudo. Esse novo Bressane é tudo isso. Seu efeito nas retinas é o de um colírio, sobretudo na fotografia de Lucas Barbi, valorizada na montagem autocrítica de Rodrigo Lima, capaz de um surpreendente uso de cenas de bastidor de filmagens nos minutos finais.

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