Claudia Priscilla e Kiko Goifman na Real_Virtual

Claudia Priscilla e Kiko Goifman na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca

24 de novembro de 2020 | 10h58

A cineasta Claudia Priscilla falou sobre seus procedimentos e sobre sua parceria com o companheiro Kiko Goifman

Rodrigo Fonseca
Consagrado mundialmente como um manifesto do desejo e da identidade como instrumentos de afirmação política, “Bixa Travesty”, um filme performance, filme testemunho e filme poema aditivado pelas ideias de Linn da Quebrada, conquistou cerca de 30 prêmios desde sua estreia mundial, na Berlinale de 2018, de onde saiu com o troféu Teddy, e segue dando frutos. Um dos mais suculentos foi o debate da última segunda-feira, no seminário online Na Real_Virtual, que foi além de seu desenvolvimento, de sua filmagem e de sua carreira internacional, servindo de centelha para incendiar uma reflexão sobre a obra de seus realizadores: Claudia Priscilla e Kiko Goifman. Eles filmaram Linn (e com Linn) fiéis a uma inquietude que passa por procedimentos de imersão comentados durante o papo com os curadores Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos. Marcio Blanco assina a produção do simpósio, com cerca de 250 ouvintes inscritos, promovido na URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2.
“Quando eu e o Kiko nos conhecemos, eu trabalhava com o (produtor e diretor) Francisco César Filho, que, na verdade, serviu como um cupido. Eu fazia a mostra do audiovisual paulista, fazia a assessoria de festivais de filmes. Aí, o Kiko me chamou para fazer pesquisa do doc ‘Morte Densa’ (sobre pessoas que mataram uma vez). Então saí da produção para fazer pesquisa e roteiro. Foi nosso primeiro trabalho junto e foi muito intenso, desde a pesquisa. Estamos falando de uma era pré tecnologia. Eu fiquei no Carandiru muito tempo olhando as pastas dos presos. Era outro momento de pesquisa e produção. A pesquisa era extremamente difícil e precisava ter investigação, porque precisava ter um único delito”, contou Claudia Priscilla, que dirigiu ainda “Leite e Ferro” (2009) e “A Destruição de Bernardet” (2016), e dividiu com Goifman a direção de “Olhe pra mim de novo” (2011) e “Bixa Travesty”. “Nesse processo, a gente abriu a nossa casa. A gente tinha acabado de mudar e morar junto. (…) Depois a gente continuou na nossa parceria, mudando de funções, mas sempre juntos”.

Kiko falou de militância e do combate ao machismo no Zoom do Na Real_Virtual

Realizador de cults como “FilmeFobia” (2008), Goifman admitiu que a confluência de talentos entre ele e Claudia começou a partir de uma missão “bomba”, mas lembra que eles seguem criando juntos. Os dois desenvolvem agora o projeto “Anjo Suspenso”, centrado em uma professora de periferia trans não-binário, que prefere ser chamada no feminino. “No processo do ‘Morte Densa’, foi uma coisa barra pesada encarar arquivos absurdos, que até hoje são arquivos muito falhos da questão da criminologia no Brasil. Foi de abacaxi em abacaxi que fomos construindo uma relação de trabalho. Era um horror, mas a gente ficava imerso, num momento de grande paixão. Ficávamos assistindo a filmes de Hitchcock, a filmes sobre assassinatos. Um acordava e perguntava ao outro qual pesadelo ele tinha tido. A primeira personagem do ‘Morte Densa’, era uma pessoa que tinha matado o irmão gêmeo. (…) Eu não acredito nessa diferenciação ente o mundo do trabalho e o mundo particular. O ‘Bixa Travesty’ teve partes filmadas aqui em casa”.

Ao analisar os processos criativos da dupla, o curador Bebeto Abrantes falou em acolhimento afetivo, e abriu uma reflexão sobre a dicotomia entre corpo dominado e corpo liberto. “O ‘Bixa Travesty’ é um filme sobre um corpo que borra essas fronteiras do que é masculino e o que é feminino. A Linn quebra uma caixa que a gente se acostumou, o binarismo. Acho que a Linn, a Laerte e outras pessoas, que estão socialmente muito colocadas, começam a denunciar a nossa própria cisgeneridade e a nossa própria falta de imaginação”, disse Claudia. “A gente sempre acreditou que tinha só duas ficções políticas de identidade para existir. Como a gente se conformou em chegar até aqui acreditando que a gente e só poderia ser de duas formas? A partir do momento em que a gente legítima esses corpos, precisamos entender que o genital não resolve mais a questão da identidade. Acho que a gente está em um momento de mudança, de problematizar essa questão. É um momento maravilhoso de possíveis liberdades de corpos”.

Goifman ressaltou ‘Bixa Travesty’ como sendo “um filme militante, de alguma forma”. “Talvez, ele seja o nosso primeiro filme de fato antimachista, por mais que ele tenha toda a abertura possível, toda possibilidade de interpretação de quem assiste. Talvez, ele seja o nosso filme que vai mais em uma situação de ferida. ‘A minha pele negra é um ato de coragem’, como a Linn fala”, diz o cineasta mineiro, hoje radicado em SP.

Um dos pilares do cinema de Brasília na atualidade, Adirley Queirós é o próximo convidado do Na Real_Virtual, falando nesta quarta-feira, partindo de sua experiência em “Branco Sai, Preto Fica” (2014), atualmente integrado à grade da Netflix. No frigir das inquietações documentais do país, Abrantes e Mattos têm agendadas ainda conversas com Evaldo Mocarzel, Sandra Werneck e Walter Salles. Esses papos rolam sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Valem a atenção, o estudo, o aplauso e um lugar de honra na História, a do nosso cinema, por ser uma reação e uma proposição em um tempo de doença (em múltiplos níveis). Cada conversa é um curso de em si.

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