Claire Denis pode botar fogo em Cannes

Claire Denis pode botar fogo em Cannes

Rodrigo Fonseca

08 de março de 2021 | 12h58

A cineasta francesa de 74 anos prepara “Feu” para estrear ainda este ano, quiçá em Cannes, a ser realizado em julho

Rodrigo Fonseca
Na triagem pelos potenciais concorrentes à Palma de Ouro de 2021, que terá Spike Lee como presidente do Júri, Cannes já está olho em “Feu”, novo filme de Claire Denis, rodado às pressas em meio à pandemia, com Juliette Binoche, Mati Diop e Vincent Lindon envolvidos em um triângulo amoroso. O projeto acabou atropelando seu projeto peso pesado “The stars at noon” – com Robert Pattinson e Margaret Qualley investigando as tensões políticas da Nicarágua dos anos 1980 – atropelado pela quarentena da covid-19. Há um ano, ela conversou com o Estadão sobre os rumos presentes de sua aclamada carreira. Neta de um paraense, criada entre o Chade, Camarões e Burkina Faso, a diretor parisiense de 74 anos, realizadora de “Bom trabalho” (1999) e “Bastardos” (2013), anda refletindo sobre a Amazônia de seus ancestrais e sobre o território africano onde passou a infância mais do que nunca, preocupada com os efeitos sociais da pandemia de coronavírus.
“Eu estava em Los Angeles, trabalhando nesse projeto, quando fui avisada de que deveria voltar para a França. Sinto que eu nunca pensei tanto em outros países, em outras culturas, sobretudo no Brasil e na África, quanto agora, preocupada em como o mundo vai segurar a crise. Saio de casa só para ir à padaria e vejo vizinhos, que antes nunca estavam em casa, nas janelas, ocupados com a cozinha, cuidando do lar. Algo mudou. E a arte será essencial pra mapear a mudança”, disse Claire ao Estadão, em entrevista por telefone, falando do tributo que recebeu do festival Visions du Réel.
Da obra de Claire foram exibidos os .docs “Vers Mathilde” (2005), “Jacques Rivette – Le veilleur” (1994) e “Man no run” (1989), além de ficções como “Minha terra, África” (2009). “No início dos anos 1990, eu rodei, em Nova York, um filme de uns 40 minutos chamado ‘Keep it for yourself’, num clima frio, sob uma temperatura mais baixa do que a do inverno em Paris”, lembra a diretora. “As pessoas tentavam se abrigar do vento gélido como podiam. Ali, eu via atores como Vincent Gallo se contorcendo, buscando calor. Eu fui prestando atenção nos corpos e vendo o quanto um rosto pode ser uma paisagem cheia de espaços a serem investigados. Esse contato ampliou a minha percepção das diferenças, que já vinha do fato de eu ter crescido na África. Eu era uma menina branca numa escola onde a minha cor, e o passado colonial por trás dela, gritavam. Mas esse grito não abafava o meu interesse pelo outro. Naquela vivência de infância, eu assimilei a África como parte de mim. Não importa onde eu filmo, eu não observo o espaço à minha volta. Eu vivo esse espaço. Ele vira parte da minha subjetividade”.

p.s.: Proibido pela Censura, durante a ditadura, sob a acusação de “ferir a dignidade nacional”, por revelar as mazelas dos conflitos fundiários no Nordeste, “O País de São Saruê” (1971) vai ser debatido por seu realizador, Vladimir Carvalho, nesta terça-feira, no Cineclube Macunaíma, da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). A projeção do aclamado documentário – que utiliza a mitológica existência de uma nação imaginária como contraste à realidade de pobreza que registra – será às 18h, seguido por debate mediado pelo crítico Ricardo Cota, às 19h40. Além de Vladimir, a mesa inclui a cineasta e escritor Inês Cabral de Melo, o documentarista Silvio Tendler e o roteirista e crítico Rodrigo Fonseca, escriba aqui do P de Pop.

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