Ciro Guerra, a serpente autoral colombiana

Ciro Guerra, a serpente autoral colombiana

Rodrigo Fonseca

21 de março de 2016 | 14h46

Ciro Guerra nas filmagens de

Ciro Guerra nas filmagens de “O Abraço da Serpente”: indicação ao Oscar e prêmio em Cannes para a Colômbia

Xamã de uma Amazônia metafísica, Karamakate, o protagonista de O Abraço da Serpente – produção colombiana indicada ao Oscar e encarada como um dos mais bem-sucedidos lançamentos do circuito alternativo no Brasil em 2016 – virou o primeiro “super-herói” da autoralidade latino-americana deste ano nas telas nacionais. Ao longo de quatro décadas representadas em um preto e branco exuberante, o índio troca com dois cientistas estrangeiros a sabedoria da selva. Sabedoria essa que mudou o mudou de olhar, de pensar e de fazer cinema do diretor Ciro Guerra. Desde o Festival de Cannes de 2015, em maio passado, quando a produção passou pelas fileiras da  Quinzena dos Realizadores, conquistando o prêmio da Confédération Internationale des Cinémas d’Art et D’Essai, o cineasta de 35 anos ganhou notoriedade global por sua disposição para o risco. Domingo, por telefone, ele bateu um papo com o P DE POP sobre sua imersão no mundo amazônico e sobre escolhas estéticas. Na conversa a seguir, índios, lentes e sacrifícios se mesclam.

13 O Abraço da Serpente

Como é a selva para você depois de todo o legado, de prêmios e descobertas, que O Abraço da Serpente te deixou?
CIRO GUERRA – Fazer este filme foi um processo de desapego, de abrir mão de todo o peso espiritual e mesmo intelectual que eu arrastava por conta da minha formação ter sido feito distante daquela cultura da selva, do sonho. Foi uma marcha metafísica para um lugar onde a gente precisa torcer nossas certezas e aprender a ver a realidade de um outro referente, o referencial onírico dos índios. É preciso ser menos cartesiano para chegar lá. Foram 15 anos de trabalho nessa marcha. E ela trouxe mudanças profundas no meu entendimento da própria imagem

O quanto essas mudanças se traduzem no preto e branco da sua fotografia?
GUERRA – Ali, nesse jogo sensorial, já está a primeira mudança. A Amazônia tem uma paleta de cores vastíssimas, em suas matas, em suas águas, em seu céu. Ficar refém dessa gama de opção era ficar refém da percepção mais física, mais imediata, mais superficial, num certo prisma. Ao anular a diversidade de cores e me concentrar no branco e no preto, eu ofereço ao meu espectador a chance de ele colorir aqueles espaços, pondo a própria imaginação a serviço de uma criação mais parceira e menos passiva. Tudo nesse filme é questão de se afastar do lógico e caminhar para o sonho, a invenção, a digressão.

abraçodaserpente.jpg O Abraço da Serpente 13 #

O que tem de Herzog em você, pois é difícil não pensar no cult Aguirre, a Cólera dos Deuses, que o mestre alemão rodou nas matas tropicais?
GUERRA – Essa analogia me dá muita lisonja, mas eu trabalhei limpando meu olhar de todas as referências que pudessem direcionar a minha percepção. Diante do esplendor da Amazônia, sob o ponto de vista de uma cabeça xamânica indígena, você não carece de ferramentas teóricas, só de curiosidade e disposição para se abrir. É questão de saber mergulhar. Esta é uma experiência sensível onde tudo deveria parecer um primeiro encontro.

el-abrazo-de-la-serpiente-jan-bijvoet_opt2_ O Abraço da Serpente Ciro Guerra

Mas há algo de documental no seu registro?
GUERRA – Eu tinha toda uma base de dados real sobre a Antropologia do início dos 1900 e também pesquisas sobre as comunidades indígenas. Mas os documentos não podiam servir como um cabresto para que eu ficasse preso nos fatos. Estamos a levar a plateia para um passeio por uma Amazônia que não é a real. É um território projetado para o início do século passado, mediado pela visão de um índio, cujo olhar tem a influência da sabedoria e da crença das divindades da Natureza. É uma reconstituição pela transcendência, pela poesia da diferença.

Como o senhor avalia a situação do cinema colombiano após todo o sucesso de seu filme mundo adentro?
GUE
RRA – Há cerca de uma década, o Estado passou a apostar no cinema como um meio de expressão de nossa identidade nacional e trouxe investimentos em dinheiro que fomentaram o advento de uma nova geração de realizadores, muito jovem, cujo interesse se volta para temas antes não considerados por nossos realizadores. Filmes como La Playa ou Perro come Perro travaram diálogo com um público internacional mais amplo. Agora, eu já começo a trabalhar em um novo roteiro, chamado Pássaros de Verão, indo não mais para a selva, mas para o deserto. São novos espaços que se ampliam para nosso cinema.

 

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