Cinémathèque Française se rende a Godard

Cinémathèque Française se rende a Godard

Rodrigo Fonseca

30 de dezembro de 2019 | 07h58

RODRIGO FONSECA
Antenada com o luto da cinefilia mundial pela morte da atriz Anna Karina, aos 79 anos, em 14 de dezembro, a Cinémathèque Française prepara para o primeiro trimestre de 2020 uma retrospectiva da obra de Jean-Luc Godard, agendada de 8 de janeiro a 1º de março, a fim de antecipar as comemorações do 90º aniversário do cineasta e semiólogo, em 3 de dezembro. E tem coisa (boa, sempre) dele na grade do MUBI, o streaming dedicado a narrativas radicais da linguagem cinematográfica. A abertura da mostra na Cinemateca de Paris vai ser com “Pierrot Le Fou”, traduzido no Brasil como “O Demônio das 11 horas”: uma produção indicada ao Leão de Ouro de Veneza, em 1965. Em outubro, a “Cahiers du Cinéma” dedicou sua capa ao diretor suíço (nascido em Paris, há 89 anos) de carona na chegada de seu “Imagem e palavra” a um pequeno circuito francês e ao menu da Netflix. “Le livre d’image” – com cenas do clássico “Johnny Guitar” (1954), de Nicholas Ray, em seu explosivo miolo semiótico – conquistou uma Palma de Ouro Especial no Festival de Cannes de 2018. No dia 18 de setembro deste ano, os críticos Stéphane Delorme Joachim Lepastier bateram um longo papo com o octogenário filósofo da cinemática. A dupla arranca dele reflexões sobre realizadores que merecem uma revisão (como Frank Borzage, de “Depois do casamento” e “Homens de Amanhã”) e sobre atrizes capazes de desafiar paradigmas dos códigos de naturalismo (como Adèle Haenel). E fala muito, durante a conversa, sobre dogmas da produção digital. Há um ano e meio, em Cannes, o homem por trás de “O desprezo” (1963) concedeu uma coletiva de imprensa virtual via Facetime. Ele recusou-se a sair do pequeno escritório onde trabalha, na Suiça, e conversou com a imprensa por Skype, abrindo reflexões sobre o onipresente imperialismo do cinema americano. Enfim, é o que ele sempre fez, desde “Acossado” (1960).
“As filmagens de ‘Imagem e palavra’ não foram ação, foram arquivos: preciso do passado para falar do futuro. Falam por ai que o cinema acabou, mas teve um produtor que quis me bancar e há um festival como Cannes interessado em me exibir. Talvez a presença deste filme aqui seja apenas ação publicitaria, pois eu não sei se tem lugar para ele, e para mim, nas salas de exibição. Mas, na minha idade, o que me interessa é falar do que eu observo nos processos sociais: palavras não são um sinônimo de linguagem, pois linguagem é um conjunto de procedimentos de como empregamos signos. O problema é que as pessoas articulam esses signos sem a coragem de fantasiar o que aconteceria se as convenções fossem usadas de outra maneira. Eu faço filmes porque ainda tenho coragem”, disse o mais emblemático e polêmico representante do revolucionário movimento chamado Nouvelle Vague.

Toda a retrospectiva vai ser cercada de debates sobre o legado filosófico do realizador de “A Chinesa” (1967), que terá projeção em 16 de janeiro. Ao longo de 60 anos de carreira, Godard conquistou o Urso de Ouro, com “Alphaville”, em 1965, e o Leão dourado, em 1983, com “Prénom Carmen”.

p.s.: Prata da produção audiovisual autoral europeia em 2019, “Retrato de uma Jovem em Chamas” (“Portrait de la jeune fille en feu”), de Céline Sciamma, vai ser um dos destaques do Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, encontro de mercado promovido pela Unifrance, de 16 a 20 de janeiro, em Paris. O prêmio de melhor roteiro em Cannes e a Queer Palm (a láurea LGBTQ+ da Croisette) foram reconhecimentos obrigatórios diante da excelência de dramaturgia deste ensaio sobre a sororidade. Uma pintora do século XVIII (Noémie Merlant) tem uma tarefa de retratar uma jovem nobre (Adèle Haenel) forçada pela mãe a um casamento nào desejado. Da pintura vai brotar uma paixão cúmplice. E libertadora.

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